Radiografia de uma mão crucificada. O prego atravessa o espaço Destot, e o
corpo se apóia nos ossos do carpo.
Imagem da ferida do lado. Tanto a chaga aberta pela lança quanto a mancha de
sangue são muito nítidas. O halo claro ao redor do sangue é provavelmente
soro sangüíneo
O rosto no Sudário. As setas indicam escoriações na testa, a presença de
objeto nos olhos, e um desvio no septo nasal devido a um trauma violento
Corpo envolvido com o Sudário e o Sudário desinflado
“Sombra” permanente de uma válvula numa parede em Hiroshima, produzida pelo
brilho fortíssimo da explosão atômica. Um processo semelhante – talvez no
momento da Ressurreição – teria originado a imagem no Sudário
Será o
Sudário de Turim o mesmo pano que envolveu o corpo de Cristo após a
crucificação? A questão permanece em aberto. Os dados sugerem novas
experiências, que talvez permitam compreender com maior profundidade os
aspectos científicos ligados à Ressureição.
Por Jaime Espinosa
Uma crença arraigada durante séculos, transmitida por tradição
oral, viu no Sudário de Turim o lençol que amortalhou o corpo de
Cristo. As investigações levadas a cabo a partir da primeira
fotografia tirada do lençol projetaram luzes novas e
surpreendentes que apoiavam essa crença como a explicação mais
plausível.
Ora, temos um documento histórico, os testemunhos evangélicos,
que nos relatam, com base em fatos observados por testemunhas
presenciais, não apenas a crucifixão de Cristo, mas o itinerário
da sua paixão até à morte e à sepultura: Jesus é o Servo
sofredor, seviciado, flagelado, crucificado, desfigurado pelas
brutalidades a que o submeteram, imolado como cordeiro pascal.
Até que ponto o Sudário recolhe essas circunstâncias históricas?
UM CORPO BARBARAMENTE FLAGELADO
Mateus, Marcos e João relatam que Pilatos, tentando
demover a multidão, que exigia a crucifixão de Cristo,
manda os soldados romanos açoitarem Jesus (cfr. Jo 19,
1; Mt 27, 26; Mc 15, 16). Que nos revela o Sudário neste
ponto?
Os romanos não flagelavam os condenados à crucifixão, a
não ser moderadamente e enquanto estes transportavam a
cruz até o lugar de execução. Ora, o Sudário revela
traços de feridas que mostram ter o homem de Turim sido
brutalmente flagelado por todo o corpo, à exceção da
cabeça, pés e antebraços (fig. 1).
Figura 1 – Reprodução da imagem do Sudário
As feridas são numerosas, entre 110 e 120, e tanto pelo tamanho
como pela forma são idênticas às produzidas pelo
flagrum taxillatum
romano, o "horrível flagelo" – um açoite de correias com pedaços
de chumbo ou ossos de arestas cortantes nas pontas. Além das
marcas das feridas, os cientistas puderam descobrir dentro delas
os vestígios de perfurações na carne. Os golpes eram tão
bárbaros que a lei romana proibia castigar com o flagrum os que
fossem cidadãos romanos. Tanto pelo número de chicotadas – os
judeus estavam proibidos pela lei de ultrapassar os 40 açoites (Dt
25, 3) –, como pelo flagelo empregado, vê-se que há coincidência
com os dados do Evangelho: o castigo foi aplicado por soldados
romanos.
Pelo ângulo das chicotadas, pode-se inferir que eram dois os
algozes – um de cada lado –, pois os golpes convergem para dois
pontos focais com uma extraordinária precisão geométrica. Esta
comprovação exclui que a flagelação tivesse ocorrido enquanto o
condenado transportava a cruz, já que neste caso os golpes
teriam sido geometricamente desordenados. Outra coincidência com
o Evangelho.
Mas a coincidência mais importante com o relato evangélico é a
que explica a crueldade excepcional da flagelação que, como
vimos, não era usual aplicar previamente a um condenado à
crucifixão.
Relatam os Evangelhos que, inicialmente, Pilatos afastou a idéia
da crucifixão reclamada pelo povo, pois sabia que Jesus era
inocente (Jo 18, 38). Para contemporizar, manda açoitar Jesus,
pensando que desse modo abrandaria o coração dos judeus. Mas a
vista de Jesus desfeito pelos azorragues deixou o povo ainda
mais raivoso:
Fora com ele! Crucifica-o!,
clamavam. Depois de uma nova tentativa, Pilatos, acovardado,
cede:
Então entregou-o a eles para que o crucificassem
(Jo 19, 15-16). A mudança de opinião de Pilatos é o que explica,
pois, a sucessão dos dois suplícios que Jesus sofreu, à
diferença do comum dos condenados.
Uma última particularidade: os antebraços de Jesus não foram
atingidos pelos flagelos, e isto indica que foi açoitado antes
de carregar a cruz, pois os braços estavam atados à coluna, e
portanto fora do alcance dos açoites.
A COROAÇÃO DE ESPINHOS
As pessoas condenadas a morrer numa cruz costumavam ser
salteadores, escravos que tinham praticado algum crime
especialmente grave, ou agitadores que tivessem cometido
um delito contra o Estado romano. Evidentemente, essas
pessoas não eram coroadas como reis antes de serem
crucificadas. Nenhum documento antigo nos fala disso.
Chegamos aqui a um testemunho absolutamente capital para
se identificar o homem do Sudário: por que esse homem
teve a cabeça ensangüentada por uma coroa de espinhos,
quando ainda estava vivo? Os Evangelhos explicam-nos
porquê. Os soldados romanos tinham ouvido os chefes
judeus acusarem Jesus de blasfemar porque se dizia Deus;
e sabiam que, à pergunta de Pilatos:
És tu o rei dos judeus?, Jesus respondera: Tu o dizes,
eu sou rei. Para isto nasci e para isto vim ao mundo,
para dar testemunho da verdade
(Jo 18, 37).
Depois de flagelarem Jesus, resolvem, pois, entreter-se
fazendo-o rei de palhaçada, e colocam-lhe por manto real
um pano vermelho, por cetro uma cana entre as mãos, e
por coroa de ouro e pedras um capacete de espinhos:
Então os soldados do procurador, conduzindo Jesus ao
Pretório, reuniram ao redor dele toda a coorte. E
despojando-o das vestes, lançaram-lhe em cima um manto
escarlate. E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha
na cabeça, e na mão direita uma cana; e dobrando o
joelho diante dele, diziam escarnecendo: "Salve, rei dos
judeus". Cuspiam-lhe no rosto e, tomando da cana,
davam-lhe golpes na cabeça
(Mt 27, 27-30).
Esta modalidade insólita de maus tratos é documentada de
modo insuspeito pelo Sudário: toda a calota craneana
apresenta feridas resultantes de objetos perfurantes
finos, que coincidem com os espinhos de uma possível
coroa em forma de capacete, capazes de dilacerar a golpe
de pancadas o couro cabeludo; distinguem-se
perfeitamente na mortalha os ferimentos da testa e
sobretudo os da nuca (fig. 1).
É de notar a excepcional documentação morfológica do
sangue, com as características de ter manado em vida, e
que impregna profusamente, misturado com o suor, toda a
massa dos cabelos.
Em 1968, em três sepulcros de Jerusalém, encontraram-se os ossos
de 35 pessoas. O esqueleto de uma delas mostrava que havia sido
crucificada: os ossos dos pés estavam trespassados por pregos, e
os das pernas quebrados.
No Sudário, um sulco de sangue parte do pé direito e do
calcanhar esquerdo: um único prego perfurou os dois pés,
cruzados um sobre o outro.
Aparece também claramente uma chaga profunda na altura do pulso
esquerdo. O pulso direito está encoberto pela mão esquerda, pois
cruzaram as mãos diante do corpo antes de sepultar o cadáver;
mas também aparece, em duas direções, o sangue que correu
abundantemente do pulso esquerdo ao longo do antebraço. Não
contradiz este dado a tradição cristã e os artistas, que sempre
representaram Jesus crucificado pela palma das mãos?
Na verdade, o Evangelho não diz que Jesus foi crucificado pela
palma das mãos. Quando Jesus se dirige a Tomé e lhe diz que olhe
as suas mãos, não quer dizer que exclua os punhos, os quais,
como se sabe, fazem parte das mãos (carpo). Por outro lado, a
palavra hebraica
Yad,
usada na profecia messiânica –
trespassaram-lhe as mãos e os pés (SI 22, 16)
–, era usada com grande variedade de aplicações, chegando a
designar o antebraço e até o cotovelo.
Os crucificados não eram pregados na cruz atravessando-lhes a
palma da mão, pois desse modo as mãos se rasgariam e o corpo
certamente se desprenderia da cruz. No pulso localiza-se o
espaço de Destot que, atravessado pelo prego e amparado nos
ossos que o rodeiam, pode sustentar o peso do corpo e
permitir-lhe os movimentos necessários para a frente e para trás.
Figura 6 – As mãos dos Sudário. Percebe-se claramente a marca do
cravo no pulso, e as duas direções do fluxo de sangue nos braços
devidas às diferentes posições do corpo na Cruz. Os polegares
não aparecem, pois estão encolhidos.
Durante muito tempo, uma observação atenta do lençol teria
levado à conclusão de que o homem do Sudário tinha apenas quatro
dedos: não se descobriam sinais do polegar. Foi um cirurgião de
Paris, o Dr. Barbet, quem achou a explicação: um prego
introduzido no espaço de Destot secciona ou prejudica
necessariamente o nervo mediano, o nervo que flexiona os
polegares, fazendo-os encolher-se para o interior da mão.
Pesquisas recentes, feitas por computador, obtiveram imagens em
que se observa que os polegares do homem do Sudário estão
presentes na figura, mas dobrados bem junto da palma da mão.
O espaço de Destot só foi descrito anatomicamente no século XIX.
Como poderia um pintor ou um eventual falsificador saber das
conseqüências que um prego nele cravado provocaria no polegar,
de modo a reproduzi-las na mortalha?
A MORTE
O homem do Sudário morreu por crucifixão, isto é, em
conseqüência da asfixia que dela resultou. A posição de um
crucificado, com os braços presos no alto e o corpo pendurado
dos mesmos, acaba por dificultar os movimentos da caixa torácica,
iniciando um processo de asfixia. Para respirar, o condenado
precisa erguer o corpo, flexionando os braços e apoiando-se
tanto quanto possível nas pernas, esticando-as ao máximo para
que o corpo suba.
O Sudário indica tanto a posição normal como a posição erguida:
esta, resultante do esforço para respirar, aquela indicando a
posição caída, determinada pelo cansaço. Dois fluxos de sangue,
com uma divergência aproximada de 10 graus, se percebem
imediatamente nos antebraços, especialmente no braço esquerdo,
indicando as duas posições do corpo (fig. 6).
Mas esse movimento para cima e para baixo tem um limite
determinado pelo esgotamento muscular e pela dor das feridas
abertas pelos pregos. O esforço muscular contínuo faz surgir
cãibras, contrações tetânicas dos músculos peitorais e
intercostais que, pela acumulação de ácido láctico, vão-se
tornando rígidos: o condenado vai tendo cada vez maior
dificuldade em respirar, sobretudo em expirar, e ainda que
consiga reerguer-se para aliviar a pressão que sente nos
músculos do peito, recai logo na posição baixa e a asfixia
começa novamente. A isto deve acrescentar-se que a posição do
corpo favorece a concentração de sangue nas pernas e na cavidade
abdominal, com o que diminui o volume sanguíneo que chega aos
pulmões.
O homem de Turim conserva os traços dessa morte por asfixia,
principalmente o peito dilatado por não poder soltar o ar e o
ventre inchado pelo acúmulo de sangue (fig. 1).
Uma coincidência importante entre a linguagem do Sudário e o
relato evangélico é que o homem do Sudário não teve as pernas
quebradas. Diz São João:
Como era dia da Preparação (da Páscoa), para que os corpos não
ficassem na cruz em dia de sábado, por ser grande dia aquele
sábado, os judeus rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as
pernas e os tirassem. Vieram, pois, os soldados e quebraram as
pernas ao primeiro e ao outro que com ele estava crucificado.
Chegando a Jesus, como o viram já morto, não lhe quebraram as
pernas...
(19,31-34).
É sabido que os crucificados podiam sobreviver por muitas horas
e mesmo dias, e que, para apressar-lhes a morte, era freqüente
quebrarem-lhes as pernas pelo tornozelo: a morte sobrevinha
então rapidamente, não só pela hemorragia, mas principalmente
porque deixavam de poder apoiar-se nos pés para conseguirem
erguer-se e respirar.
Mas Jesus – como o homem de Turim – é levantado sobre a cruz num
estado de fraqueza extrema pela violência da flagelação a que
foi submetido. Os maus tratos, as pancadas e socos, e sobretudo
a flagelação – uma flagelação selvagem – provocaram não só
hemorragias externas, mas internas, e provavelmente o líquido
hemorrágico foi comprimindo os pulmões e acelerou a morte por
asfixia, em conseqüência do derrame pleural.
O certo é que Jesus morreu antes do que a maioria dos
crucificados e antes do que os outros dois que foram supliciados
juntamente com Ele. Conta São Marcos que, quando José de
Arimatéia se dirigiu à presença de Pilatos e lhe pediu o corpo
de Jesus, Pilatos admirou-se de que ele tivesse morrido tão
depressa, ao ponto de ter chamado o centurião para que lhe
confirmasse a notícia (Mc 15, 43-45).
UMA LANÇA ABRIU-LHE O LADO
Uma das comprovações mais comoventes do Sudário é a marca de uma
ferida no peito causada por uma lança.
O quarto evangelista, São João, que foi testemunha ocular,
relata que, depois de Jesus ter morrido, um soldado romano lhe
atravessou o peito com uma lança para certificar-se de que já
estava morto e não era preciso apressar-lhe a morte:
Chegando a Jesus, como o viram já morto, não lhe quebraram as
pernas, mas um dos soldados atravessou-lhe o lado com uma lança
e imediatamente saiu sangue e água. E o Apóstolo acrescenta
solenemente: Aquele que o viu dá testemunho, e o seu testemunho
é verdadeiro; ele sabe que diz a verdade, para que todos vós
creiais
(19, 30-35).
O Sudário mostra uma ferida no flanco direito (fig. 8), causada
por uma lança do tipo usado pelos soldados romanos no século I
da nossa era: sem ganchos que alargassem a ferida e sem nervuras
de reforço, tal como as que se utilizavam em motins para ferir
depressa e mortalmente, de modo a retirar a arma e visar
imediatamente outro adversário.
O golpe foi dado no lado direito, exatamente como os soldados
romanos eram treinados a fazer para atingir os adversários, que
protegiam o lado esquerdo, o do coração, com um escudo.
A ferida tem 4 cms. – largura máxima das lanças romanas – e
atingiu o hemitórax entre a 5ª. e a 6ª. costelas, a 13 cm do
esterno.
Percebe-se claramente que a lançada foi desferida depois da
morte, porque a ferida ficou aberta, o que não sucederia se
fosse feita em pessoa viva. Por outro lado, há indícios de que o
sangue saiu sem força, o que dá a entender que o coração já
estava parado.
Sobre o tecido, vê-se uma dupla mancha: uma de sangue e outra,
quase incolor, que se tornou bem visível quando se usaram raios
ultravioletas na observação (fig. 8). Os dois líquidos correram
abundantemente até formarem uma espécie de círculo em torno dos
rins 11 (fig. 1).
Como vimos, o quarto evangelista afirma que da ferida saiu
imediatamente sangue e água. O sangue procedia do coração e
talvez de hematomas causados pelas hemorragias internas a que
antes nos referimos. Quanto ao que São João chama água e que
corresponderia à mancha incolor observada no pano, é muito
provavelmente uma mistura de soro sanguíneo – resultante dos
hematomas – e de líquido pericárdico, situado dentro do saco
pericárdico que envolve o coração. Este líquido é tanto mais
abundante quanto maior e mais abundante for o sofrimento da
pessoa; constitui até uma prova usada em medicina legal para
saber se a vítima foi seviciada antes de morrer.
A constatação de São João, de uma precisão extraordinária,
mostra que Cristo sofreu muitíssimo durante a sua paixão.
OUTRAS COINCIDÊNCIAS
O Sudário revela ainda que o homem nele amortalhado deve ter
recebido pancadas violentas no rosto, pois se percebe um inchaço
notável em torno do olho direito (fig. 9), além de várias
escoriações. Ocorre espontaneamente pensar no que relata São
Mateus:
Cuspiram-lhe então na face, bateram-lhe com os punhos e
deram-lhe tapas dizendo: Adivinha, ó Cristo: quem te bateu?
(Mt 26, 67-68).
No nariz, nota-se uma dupla ferida, assim como uma deformação da
borda, ocasionada provavelmente por uma ruptura ou deslocamento
da parte cartilaginosa (fig. 9). Os joelhos, por sua vez,
revelam cortes e escoriações. O esquerdo apresenta uma ferida
maior.
É muito provável que uma queda de bruços tenha provocado essas
lesões. Imaginemos as condições em que o homem do Sudário foi
levado ao local do suplício: com as mãos atadas ao travessão
horizontal da cruz; extremamente debilitado em conseqüência da
flagelação, dos socos e pontapés, etc; vestido com uma túnica em
que era fácil ter pisado, na posição inclinada que o peso da
cruz o obrigava a adotar.
Estes sinais no tecido parecem confirmar uma antiga tradição,
segundo a qual Cristo teria caído várias vezes na sua caminhada
para o monte Calvário. A própria alusão do Evangelho de Marcos a
um certo Simão de Cirene que, passando por ali, foi requisitado
para levar a cruz (15, 20-21), parece depor no sentido da
extrema fraqueza e possíveis quedas de Cristo na subida até o
local da execução.
E também de mencionar, por se tratar de uma exceção, que o homem
do Sudário transportou a cruz vestido. Não era comum os
condenados irem vestidos à crucifixão (1). Tanto São Marcos como
São Mateus dizem que Jesus foi ao Calvário com as próprias
vestes
e São João refere que os soldados as dividiram em quatro partes,
uma para cada soldado, e lançaram sortes sobre a túnica, que era
inconsútil, para ver a quem cabia (Mt 27, 31; Mc 15, 20; Jo
19,23).
Ora, o Sudário revela que as lesões provocadas nos ombros pela
flagelação foram relativamente pequenas. Sem dúvida teriam sido
maiores se a cruz tivesse sido transportada sobre os ombros nus,
sem nada que amortecesse o atrito da madeira (fig. 1). Outra
coincidência significativa com o relato evangélico.
O SEPULTAMENTO
Como já vimos, os romanos reservavam a crucifixão aos que
tivessem cometido um crime grave ou um delito contra o Estado
romano. Normalmente, o corpo dos executados não era reclamado
por ninguém, sendo jogado na vala comum. Sem lençol.
Ora Jesus, crucificado como um escravo, foi condenado por
Pilatos sob a acusação de ter conspirado contra o Estado romano.
E, no entanto, escapou à vala comum. Seu corpo foi reclamado por
um homem influente, José de Arimatéia, um discípulo secreto, que
o envolveu num lençol novo, limpo, e o enterrou num túmulo que
tinha comprado para si, próximo do lugar da crucifixão. Estes os
dados precisos que nos chegaram através do Evangelho de São João.
O homem do Sudário também foi enterrado num lençol fino que,
segundo se calcula, teria custado inúmeras horas de trabalho. Ë
um detalhe que faz pensar efetivamente em José de Arimatéia, que
sepultou Jesus e era um homem rico.
Mas há ainda um outro aspecto que parece quadrar com o que nos
dizem os Evangelhos: a abundância de vestígios de sangue, a
indicar claramente que o corpo não foi lavado antes de ser
amortalhado, ao contrário do que era costume entre os judeus (At
9,37).
O corpo de Jesus recebeu sinais claros de respeito e distinção,
como ser envolvido num lençol de linho e colocado num sepulcro
novo, não em vala comum. No entanto, omitiram algo elementar
entre os judeus: lavar o corpo antes de sepultá-lo.
O relato de São João permite-nos compreender por que isso
aconteceu:
"Tomaram, pois, o corpo de Jesus e envolveram-no em faixas de
linho com os aromas, conforme é costume sepultar entre os judeus.
Havia perto do lugar onde foi crucificado um horto, e no horto
um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora depositado. Ali,
pois, depuseram Jesus, por causa do dia da Preparação dos judeus..."
(19, 40-42).
Vê-se assim a causa da omissão. Estava prestes a começar o
grande Sábado pascal em que, como aliás em qualquer sábado, que
é o dia santo dos judeus, se proibiam rigorosamente os trabalhos
manuais. Por isso era preciso enterrar Jesus antes do pôr do sol
da sexta-feira, e por isso não puderam lavar o corpo do Senhor:
não havia tempo.
Isto explica também que, no primeiro dia útil, isto é, o domingo,
as santas mulheres tivessem ido ao sepulcro, levando os aromas
que haviam preparado, a fim de completar o trabalho deixado a
meio na sexta-feira santa.
A RESSURREIÇÃO
O evangelista continua: ao amanhecer do primeiro dia da semana –
o domingo –, Maria de Magdala encontra o túmulo aberto, corre a
avisar Pedro, e este, com João, o discípulo que Jesus amava,
corre também para o sepulcro; e ambos observam que o lençol se
encontra “vazio”, manifestamente sem conter o volume de um corpo.
Depois, o próprio Cristo aparece a Maria Madalena, que ficara
chorando ao pé do sepulcro (Jo 20, 14), e por fim aos próprios
Apóstolos:
Chegada a tarde daquele primeiro dia, estando fechadas as portas
do lugar onde, por temor dos judeus, se achavam os discípulos,
veio Jesus e, posto no meio deles, disse-lhes: "A paz seja
convosco". E em dizendo isto mostrou-lhes as mãos e o lado, e os
discípulos alegraram-se vendo o Senhor
(Jo 20, 19-20).
Este o fato histórico que os Evangelhos nos relatam: a
ressurreição de Jesus, testemunhada pelos Apóstolos e pelas
santas mulheres, e ainda, como relata São Paulo, por muitos
outros e por mais de quinhentos irmãos de uma só vez (1 Cor 15,
3-8).
O Sudário de Turim, que lança tanta luz sobre a paixão e morte
de Cristo, numa sucessão espantosa de coincidências, terá também
algo a dizer-nos sobre a sua ressurreição?
Fixemo-nos em três ponderações de vulto.
O corpo não se decompôs
O corpo envolvido no Sudário achava-se em estado absoluto de
enrijecimento causado pela morte (rigor
mortis),
e os patologistas estão em condições de afirmar que estava sem
vida.
Ora, o corpo humano, ao cabo de cerca de trinta horas, começa a
deixar sobre os panos que o envolvem uma espécie de pequenos
cristais resultantes dos fenômenos que ocorrem no cadáver depois
desse tempo, especialmente pela decomposição cadavérica. Mas os
especialistas que estudaram o Sudário não encontraram o menor
indício desses cristais entre as fibras do tecido. Isto indica
que o lençol fúnebre não esteve muitos dias em contacto com o
corpo sepultado.
O corpo não foi retirado por meios humanos normais
Mas o corpo poderia ter sido retirado da mortalha pelos próprios
discípulos, como aliás se tentou propalar na ocasião (cfr. Mt
28, 13).
Os cientistas fizeram uma análise minuciosa do lençol e
concluíram que por nenhum meio humano normal se teria conseguido
separar uma ferida e o pano unido a ela, depois que o sangue
secou, sem arrancar pequenas partículas do corpo, sem desfazer a
correção anatômica da figura e a integridade estrutural das
manchas de sangue e dos coágulos sanguíneos: as manchas ter-se-iam
desfeito e espalhado. Todavia, encontram-se intactas (figs. 2 e
4).
A separação natural deixaria no tecido sinais de fibras de linho
que, grudadas à ferida e ao sangue, teriam sido repuxadas ao
separar-se o cadáver da mortalha que o envolvera. A observação
microscópica não captou nenhum desses indícios: depois de
aumentados 32 vezes, o centro e as bordas das manchas de sangue
não revelaram nenhum sinal de repuxamento das fibras.
A origem da figura
É sabido que os cientistas não conseguiram desvendar o mistério
relativo ao processo técnico que teria originado a formação da
figura do Sudário. As conclusões científicas apenas nos dizem
como é que esta não foi gravada no tecido: não foi pintada, não
foi formada por contacto direto – à exceção das manchas de
sangue – nem mediante vapores ou qualquer outro processo
conhecido no nosso século e muito menos no século XIV.
Segundo vimos, a teoria mais plausível de todas é a da
chamuscadura ocasionada por calor ou por uma luz intensa. Mas o
que teria causado essa chamuscadura? Como é que o corpo de um
cadáver pode produzir calor ou luz? Não resta outra hipótese
senão a de que, ao ressuscitar, o corpo de Cristo irradiasse
esse calor ou essa luz (fig. 11). O Sudário não diz que Cristo
ressuscitou, mas não só não se opõe à ressurreição, como parece
apontar para esse fato histórico como a explicação mais
plausível para a formação da figura impressa no lençol.
CONCLUSÕES
As coincidências
Vale a pena enumerar sucintamente as coincidências existentes
entre o homem do Sudário e Jesus de Nazaré:
1. A partir do séc. VII, passa-se a adotar na arte religiosa um
único modelo para representar Jesus, no qual se distinguem pelo
menos 15 detalhes que se encontram na figura do Sudário.
2. A figura estampada no lençol representa um semita com barba e
cabelo comprido e entrançado, como se usava na Palestina no
tempo de Cristo.
3. A brutal flagelação, insólita em condenados à crucifixão,
executada com o
flagrum
romano; este castigo não era aplicado aos cidadãos romanos.
4. A coroação de espinhos, circunstância igualmente insólita.
5. O homem do Sudário não foi despido até o lugar da execução, o
que também não era usual.
6. As pernas não foram quebradas, ao contrário do que se fazia
nos casos de crucifixão, para apressar a morte do condenado.
7. Uma lança de forma igual à que usavam os soldados romanos
atravessa o lado direito, após a morte.
8. O crucificado não foi enterrado na vala comum, mas sepultado
individualmente e com uma peça de linho cara.
9. Foi sepultado cuidadosamente, mas não lhe lavaram o corpo.
10. O cadáver abandonou o lençol fúnebre antes de entrar em
decomposição.
A sabedoria de Deus
Diversos especialistas de renome aplicaram a estes dados o
cálculo de probabilidades, para saber qual a probabilidade de
que o homem do Sudário não fosse Jesus Cristo. Para uns, é de um
para um octilhão, isto é, de 1 para 1027 (a unidade
seguida de vinte e sete zeros). Para os mais prudentes, é de um
para 262 bilhões. Pode-se dizer que a probabilidade é tão
insignificante que, na prática, é como se não existisse.
A conclusão que se impõe é a de que, à vista dos fatos, a
explicação mais plausível, a única satisfatória é que o homem do
Sudário é Jesus de Nazaré, e que o Lençol de Turim é o lençol
fúnebre com que José de Arimatéia e Nicodemos envolveram o corpo
de Cristo. O paralelismo entre o tecido e os testemunhos
evangélicos é perfeito: nada a mais, nada a menos. No dizer de
Jean-Charles Thomas, "o Sudário é como um quinto Evangelho,
inteiramente centrado na Paixão e na Ressurreição de Cristo, que
representam o coração da mensagem cristã" (2). Um Evangelho
escrito com caracteres de sangue.
Yves Delage, professor de Anatomia na Sorbonne, membro da
Academia Francesa e agnóstico confesso, concluiu já em 1902 que
o Sudário era o lençol de Jesus. Severamente criticado, teve a
seguinte observação: "Injetou-se desnecessariamente um problema
religioso num assunto que, em si, é puramente científico, e o
resultado foi que os sentimentos se excitaram e a razão foi
posta de parte. Se, em vez de Cristo, se tratasse de outra
pessoa, como um Sargão, um Aquiles ou um dos Faraós, ninguém
teria pensado em fazer a mínima objeção" (3).
Ë de admirar a sabedoria de Deus, que vem em socorro do homem
num século em que a ciência e o áudio-visual conquistaram um
lugar preponderante nas nossas maneiras de pensar. Nesta nova
fase da humanidade, Deus, por assim dizer, dá-se a ver, a
observar, a investigar, a fotografar, fortalecendo a fé pela
ciência.
Ninguém é coagido a crer: Jesus não constrangeu ninguém a segui-Lo.
Mas ninguém pode ficar insensível; e os que fogem dele, esses
sabem muito bem que fogem – ao menos provisoriamente, porque
ninguém pode fugir para sempre do olhar de Deus.
Jaime Espinosa
- Sacerdote e médico. Foi professor de Medicina Legal na
Pontifícia Universidade Católica, e é estudioso do tema.