Divisão das obras do autor
Convencionou-se dividir a obra de Machado
de Assis em duas fases: uma chamada – de forma imprópria – de romântica
e a segunda fase, a da maturidade, ou realista. Dizemos que a primeira é
impropriamente chamada de romântica, pois já é possível observar muito
do Machado de Assis maduro, quando vemos uma abordagem psicológica das
personagens, a questão do interesse em meio às ações humanas, o
humor reflexivo (e que leva à reflexão) e a concisão. Tais
características não são encontradas nos romances românticos, salvo
algumas incursões isoladas como uma certa abordagem psicológica em
Senhora de José de
Alencar, por exemplo.
No entanto, não se pode, simplesmente, enquadrar Machado de Assis dentro desta ou daquela escola literária, visto que o autor conseguiu extrapolar qualquer paradigma. Só para exemplificar, tomemos os pais do Realismo e do Naturalismo, Flaubert e Zola. Para o autor de Madame Bovary, o romance deveria narrar-se a si mesmo, dessa forma há uma supressão do narrador, que se esmaeceria durante a narrativa; para o de Thérèse Raquin, a realidade deveria ser explorada em seus mínimos detalhes. Machado, por sua vez, vai além disso, cultivando o incompleto, o elíptico, o fragmentário; intervém na narrativa para conversar com seu leitor ora para filosofar, ora para comentar o romance.
Verificam-se, no conjunto de sua obra, elementos
a)
clássicos: concisão, equilíbrio, universalismo;
b)
românticos: narrativas convencionais;
c)
realistas: crítica dos valores sociais e morais, objetividade;
d)
impressionistas: recriação do passado por meio de flashs da memória.
É possível, inclusive, encontrar em Machado de Assis uma antecipação da
própria estética moderna com sua estrutura fragmentária, a não
linearidade, o gosto pelo elíptico, a metalinguagem, a não-conclusão, o
que permite várias leituras e interpretações.
Dom Casmurro
Órfão de pai, criado com desvelo pela mãe (D. Glória), protegido do
mundo pelo círculo doméstico e familiar – tia Justina (viúva), tio Cosme
(advogado), José Dias (agregado) –, é destinado à vida sacerdotal, em
cumprimento a uma antiga promessa que fizera sua mãe caso tivesse um
segundo filho, já que o primeiro morrera ao nascer.
A proximidade, a convivência e a idade haviam feito com que os dois
vizinhos e amigos criassem afeição um pelo outro. D. Glória, ao
saber disto, fica alarmada e decide apressar o cumprimento da promessa.
Bentinho pede ajuda a José Dias para impedir que D. Glória cumprisse sua
decisão. Apesar de sofrer com a separação, a mãe envia o filho para o
seminário.
No seminário, Bentinho conhece Ezequiel de Souza Escobar e tornam-se
amigos e confidentes. Capitu, por sua vez, começara a freqüentar,
assiduamente, a casa de D.Glória, começando uma afeição recíproca entre
as duas
José Dias sugere a D. Glória que adotasse algum órfão e lhe custeasse os
estudos, já que prometera a Deus dar-lhe um sacerdote, mas não este
tivesse de ser necessariamente seu filho. Bento deixa o seminário.
Bentinho forma-se em Direito e casa-se com Capitu. Além disso, estreita
a sua amizade com Escobar, que acabara se casando com Sancha, amiga de
Capitu. O escritório de advogacia progride e a felicidade do casal seria
completa não fosse a demora em nascer um filho. Isto faz com que ambos
sintam inveja de Escobar e Sancha, que tinham tido uma filha, Anos mais
tarde, do casamento de Bentinho e Capitu nasce Ezequiel.
Escobar, que gostava de nadar, morre e, durante seu enterro, Bentinho
julga estranha a forma como Capitu contempla o cadáver. A partir daí, os
ciúmes vão aumentando e precipita-se a crise. À medida que cresce,
Ezequiel se torna cada vez mais parecido com Escobar. Bentinho, cego de
ciúme, chega a planejar o assassinato da esposa e do filho, seguido pelo
seu suicídio, mas não tem coragem.
Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois. Ezequiel,
homem formado, volta ao Brasil para visitar o pai. Este, simplesmente,
constata a semelhança entre e antigo colega de seminário. Ezequiel parte
para uma viagem de estudos científicos no Oriente Médio, já que era
apaixonado da arqueologia, mas onze meses depois morre de uma febre
tifóide em Jerusalém, onde é enterrado.
Bento isola-se e procura
atar as duas pontas da vida, e
restaurar na velhice a adolescência.
Quando o narrador Bentinho se propõe a atar as duas pontas da vida, e
restaurar na velhice a adolescência,
revela-nos que o memorialista do Engenho Novo buscará, simplesmente,
fazer uma autobiografia sua, utilizando inclusive para essa
concretização a reprodução do ambiente de sua infância e juventude,
representada na casa de Matacavalos. No entanto, logo veremos que toda
essa representação não passará de um expediente que revelará um quadro
de ciúme doentio, beirando mesmo a uma psicopatologia. Isso fica claro
quando se propõe a nos demonstrar sua lisura, enquanto homem de bem,
membro de uma classe social dominadora em uma sociedade patriarcal. Para
isso, empregará todos os meios narrativos de que dispõe para alijar-se
de seus complexos que o levaram à infelicidade em sua vida pessoal, cujo
aspecto externo mais preeminente foi a destruição de seu casamento.
Podemos dizer que as raízes de seu mal remonta-se a sua infância em
Matacavalos, mais especificamente a segunda gestação de D. Glória, sua
mãe, que, ao perder o primeiro filho, desespera-se e investe tudo para
que o segundo rebento vingasse e, para isso, vale-se dos céus: promete
entregar o filho ao sacerdócio se o mesmo fosse um varão.
(...) Minha mãe era temente a Deus; sabes disto, e das suas práticas
religiosas, e da fé pura que as animava. Nem ignoras que a minha
carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido.
Tudo está contado oportunamente. Outrossim, sabes que, para o fim de
apertar o vínculo moral da obrigação, confiou os seus projetos e motivos
a parentes e familiares. A promessa, feita com fervor, aceita com
misericórdia, foi guardada por ela, com alegria, no mais íntimo do
coração. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a
mamar. Meu pai, se vivesse, é possível que alterasse os planos, e, como
tinha a vocação da política, é provável que me encaminhasse somente à
política, embora os dois ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis, e
mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. Mas
meu pai morrera sem saber nada, e ela ficou diante do contrato, como
única devedora.
(Assis,
Machado. D. Casmurro. São Paulo, Ática, 1995, p. 113)
O menino torna-se motivo de temores e desejos antes mesmo de nascer.
Ainda em sua infância, por volta dos três anos, falece o pai. Bento
perde, dessa forma, a representação da figura paterna, fundamental na
formação, no desenvolvimento e construção moral, social, emocional e
psicológica da criança. Isso pode trazer algumas implicações: ou a
criança torna-se aversiva às ordens dadas por representantes femininos,
ou leva-a a ver na figura materna algo além de seu paradigma,
configurando-se inclusive uma situação edipiana, já que é a figura do
pai que quebrará a simbiose mãe-bebê.
Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido
morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo
vingasse, prometendo, se fosse varão, metê-lo na igreja. Talvez
esperasse uma menina. Não disse nada a meu pai, nem antes, nem depois de
me dar à luz; contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola, mas
enviuvou antes disso. Viúva, sentiu o terror de separar-se de mim; mas
era tão devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação,
confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos
separássemos o mais tarde possível, fez-me aprender em casa primeiras
letras, latim e doutrina, por aquele padre Cabral, velho amigo do tio
Cosme, que ia lá jogar às noites. (op. cit.
pp. 25-26)
Para piorar ainda mais a situação de nosso protagonista-narrador, havia naquele ambiente doméstico um ambiente propício para o ócio, devido ao grande número de escravos que orbitavam em torno do futuro senhor.
Estávamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço; chegou-se
a nós e esperou.
— É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está?
— Está socando milho, sim, senhor.
— Você ainda se lembra da roça, Tomás?
— Alembra, sim, senhor.
— Bem, vá-se embora.
Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquele José,
aquele outro Damião...
— Todas as letras do alfabeto, interrompeu Escobar.
Com efeito, eram diferentes letras, e só então reparei nisto; apontei
ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por
um apelido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação como
Pedro Benguela, Antônio Moçambique...
— E estão todos aqui em casa? perguntou ele.
— Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era
possível ter todos
Bentinho, portanto, crescera sozinho numa casa cercada de adultos, muitos dos quais recalcados. Torna-se, dessa forma, um menino introvertido e sonhador, cujos devaneios misturavam-se com a realidade.
Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O
ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros
desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse.
Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir
ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. "Sua Majestade pedindo, mamãe cede",
pensei comigo.
Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que
sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E
logo me achei em casa, à esperar, até que ouvi os batedores e o piquete
de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda a gente chegava às
janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa porta,
o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: "O
Imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será?" A nossa
família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão.
Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, — não
me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos, — pedia a minha mãe que
me não fizesse padre, — e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.
(op. cit.
pp. 48-49)
Há, de forma semelhante, uma inconstância nos humores do menino de Matacavalos, reflexo de seus devaneios e de sua imaturidade frente a seus sentimentos. Estes oscilam entre a alegria histérica e um tristeza profunda, mas sem aparente – para aqueles que o observam – razão.
(...) O vigário confessou a doente, deu-lhe a comunhão e os
santos óleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos
molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor era
comunicativa em si mesma; complicada da lembrança de minha mãe, doeu-me
mais, e, quando enfim pensei em Capitu, senti um ímpeto de soluçar
também, enfiei pelo corredor, e ouvi alguém dizer-me:
— Não chore assim!
A imagem de Capitu ia comigo, e a minha imaginação, assim como lhe
atribuíra lágrimas, há pouco, assim lhe encheu a boca de riso agora;
vi-a escrever no muro, falar-me, andar à volta, com os braços no ar;
ouvi distintamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a voz
era dela. As tochas acesas, tão lúgubres na ocasião, tinham-me ares de
um lustre nupcial... Que era lustre nupcial? Não sei; era alguma coisa
contrária à morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta nova sensação
me dominou tanto que José Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz
baixa:
— Não ria assim!
Fiquei sério depressa. Era o momento da saída.(...) (op.
cit. pp. 51-52)
Por estar centrado em um mundo infantil, exteriorizado não só pela fecundidade de suas fantasias, as quais mesclavam com a realidade, o despertar de sua sexualidade foi tardio. Essa lenta descoberta, faz com o narrador apresente-se menos capaz, inclusive, que a vizinha. Diminui-se, vê sua inferioridade, apela para ela.
Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado, as
alterações do gesto e até a pirueta, que apenas lhe contara. Pedia o som
das palavras. Era minuciosa e atenta; a narração e o diálogo, tudo
parecia remoer consigo. Também se pode dizer que conferia, rotulava e
pregava na memória a minha exposição. Esta imagem é porventura melhor
que a outra, mas a ótima delas é nenhuma. Capitu era Capitu, isto é, uma
criatura muito particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o
não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem
incutir na alma do leitor, à força de repetição.
(op. cit.
p. 52)
O amalgamento de todos esses sentimentos – a inconstância em seu
humor, a exteriorização de seus devaneios, sua imaturidade frente a seus
sentimentos, a timidez, a constante oscilação entre a alegria histérica
e um tristeza profunda – servirão de suporte para o sentimento síntese
da obra: o ciúme
(vide, abaixo o quadro de Otelo
de Shakespeare!)
Este será expresso em todo o decorrer da obra ora por fatos,
aparentemente, insignificantes, ora por meio de fatos marcantes,
demonstrando a crescente e constante paranóia do narrador. Essa já lhe
era latente, é possível discenir isso ao vermos o liame
entre imaginação, fantasia, quando sua crença e certeza
torna-se vagas e imprecisas e aquilo que eram dúvidas podem
transformar-se em idéias supervalorizadas ou delirantes.
a) Quando na visita de José Dias ao seminário:
— Capitu como vai?
(...)
— Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo, enquanto não
pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo.
A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites,
produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão
violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas
o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e
partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se
entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória,
chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as pancadas
do coração naquele instante. (op. cit. pp. 93-94)
b) Devido ao dandy sob a janela de Capitu:
Escapei ao agregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas
não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu
falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama, e rolava comigo, e
chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver
Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me
já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria
perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito
desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei
por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles.
Da cama ouvi a voz dela, que viera passar o resto da tarde com minha mãe,
e naturalmente comigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o
abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitu ria alto, falava
alto, como se me avisasse; eu continuava surdo, a sós comigo e o meu
desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço,
enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue...
(op. cit.
p. 109)
c) Durante os bailes:
(...) Na Glória era uma das nossas recreações; também cantava, mas pouco
e raro, por não ter voz; um dia chegou a entender que era melhor não
cantar nada e cumpriu o alvitre. De dançar gostava, e enfeitava-se com
amor quando ia a um baile; os braços é que... Os braços merecem um
período.
Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, não creio
que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de
menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no mármore,
donde vieram, ou nas mãos do divino escultor. Eram os mais belos da
noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as
outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos
das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse, quando vi
que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de
os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e
aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem
confiei candidamente os meus tédios; concordou logo comigo.
(op. cit. pp.
140-141)
d) Durante o enterro de Escobar:
Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se
do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens
choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva,
parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali.
A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o
cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem
algumas lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as
depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de
carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a
retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o
defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes
e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o
nadador da manhã. (op.
cit. pp. 160-161)
Um simples olhar selará toda a história de uma tentativa de felicidade
do narrador. Não temos diante de nós, no entanto, um mero olhar
mas um de ressaca. Não havia mais dúvidas da infidelidade da mulher,
pois a prova final – em sua visão paranóica – despontou-se ali no
velório de seu melhor amigo, também ele tragado pela ressaca.
— O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao
pé de mim.
— Você entra no mar amanhã?
— Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que
é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes
pulmões, disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.
(op.
cit. p. 157)
(...)
Ouvia-se o mar forte, — como já se ouvia de casa, — a ressaca era grande
e, a distância, viam-se crescer as ondas. Capitu e prima Justina, que
iam adiante, detiveram-se numa das voltas da praia, e fomos conversando
os quatro; mas eu conversava mal. Não havia meio de esquecer
inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos.
(op. cit. pp. 157-158)
A partir desse momento, sua vida e de sua família viram um inferno:
ignora a mulher, sente repulsa pelo filho. A idéia de suicídio faz-se
presente a todo momento, chega mesmo a comprar veneno e a escrever
cartas de despedida:
Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante pé, e meti-me no
gabinete; iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas
de camisa, e escrevi ainda uma carta, a última, dirigida a Capitu.
Nenhuma das outras era para ela; senti necessidade de lhe dizer uma
palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dois textos.
O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. O segundo continha só o
necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as
lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só de Escobar e da
necessidade de morrer. (op.
cit. p. 171)
Ao assitir a Otelo
enxerga-se no mesmo e vê que não ele é que
tinha de morrer, mas Capitu. Faz, também ele, de seus momentos uma peça
de teatro em que se torna ator, um mero coadjuvante que tem de
representar papéis que não o seu próprio:
O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. Até
lá, não tendo esquecido de todo a minha história romana, lembrou-me que
Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha
Platão comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que era narrada a
vida do célebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco tempo, e, para
em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé. Nem era só imitá-lo nisso; tinha
necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como ele precisara
dos sentimentos do filósofo, para intrepidamente morrer.
(op. cit. p. 172)
Mas, diante de seus devaneios e inconstância, eis que surge a figura do
filho diante de si, o fruto do pecado de sua mulher e de seu melhor
amigo, Ezequiel. Ele é que deveria perecer:
Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a
entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor
lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio... Mas não
sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por
mim a beijar doidamente a cabeça do menino.
(op. cit.
p. 173)
Apesar de não ter-lhe dado o veneno mortal, deu-lhe um bem pior: o
moral, o da destruição, o mesmo amargor que tivera de carregar durante
toda a vida, quando seu filho na alegria dos beijos recebidos exclama
pelo pai:
— Papai! papai! exclamava Ezequiel.
— Não, não, eu não sou teu pai! (op.
cit. p. 173)
Capitu ouvira a conversa entre os dois. Estupefata diante dessa acusação,
nada mais lhe restaria a não ser a separação. Mas antes expõe ao marido
a que ponto chega a loucura de seu ciúme:
— Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!
(op.
cit. p. 175)
Resta ainda ao narrador manter as aparências diante da sociedade, por
isso viaja com a mulher e o filho para a Suiça, porém os deixa ali. O
tempo passa e mal responde as cartas enviadas. Capitu foi apagada de sua
vida, mas não o ciúme que sentia por ela, pois esse se avivou com a
visita do filho que viera da Europa.
É nesse momento que cita a morte da mulher, mas apenas dedicou-lhe
apenas algumas linhas no romance a esse respeito. O mesmo se dá com
Ezequiel que acaba morrendo na Palestina.
Resta a pergunta: diante do abordado, vale a pena insistir em perguntar
se Capitu traiu ou não a Bentinho?
O fio do Machado estava afiado, por isso o menino nascido no Morro do
Livramento conseguiu, como poucos, quebrar certos paradigmas, revelar um
retrato moral de sua época, num trabalho de perfeição estética,
empregado as palavras – ou sua ausência – de maneira magistral não
empregando o lugar-comum, mas mostrando que também era possível fazer
literatura refinada num país periférico como o Brasil.
Personagens
Intertextualidade: dados explicitativos
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
Para Schopenhauer, a vontade
é a raiz metafísica do mundo e da conduta humana; ao mesmo tempo, e a fonte de todos os sofrimentos. Sua filosofia é, assim, profundamente pessimista, pois a vontade é concebida em seu sistema como algo sem nenhuma meta ou finalidade, um querer irracional e inconsciente. Sendo um mal inerente à existência do homem, ela gera a dor; aquilo que se conhece como felicidade seria apenas a interrupção temporária de um processo de infelicidade e a lembrança de um sofrimento passado criaria a ilusão de um bem presente. Dessa forma, o prazer é tão-somente um momento fugaz de ausência de dor, logo não existe satisfação durável. Todo prazer é ponto de partida de novas aspirações, sempre obstadas e sempre em luta por sua realização: “Viver é sofrer”.
William Shakespeare (1564-1616)
A história gira em torno da traição e da inveja: Iago, alferes de Otelo, trama uma forma de contar a Brabâncio, senador de Veneza, que sua filha, Desdêmona, tinha se casado com Otelo: queria vingar-se do general por ter promovido Cássio, jovem soldado, não a ele.
O pai da jovem, ao tomar ciência que sua filha havia fugido para se casar com o mouro, foi à procura dele para matá-lo, quando chega um comunicado de Veneza, convocando-os para uma reunião de caráter urgente no senado.
Brabâncio, aproveita a ocasião para acusar Otelo de induzir Desdêmona a casar-se com ele por meio de bruxaria. Em sua defesa, relata sua história de amor, o que foi confirmado pela própria Desdêmona. É inocentado e dirige-se à Chipre.
Iago concebe um outro plano de vingança e, sendo profundo conhecedor da natureza humana, sabia que, dos tormentos que afligem a alma, o ciúme é o mais intolerável. Sabia também que entre os amigos de Otelo, Cássio era o que mais possuía sua confiança, mas devido a sua beleza e eloqüência, era o tipo de homem capaz de despertar o ciúme de um homem de idade avançada, como Otelo, casado com uma jovem e bela mulher.
Sob pretexto de lealdade e estima ao general, Iago induziu Cássio, responsável por manter a ordem e a paz, a se embriagar e envolver-se em uma briga, durante uma festa em que os habitantes da ilha ofereceram a Otelo. Quando o mouro soube do acontecido, destituiu Cássio de seu posto. Iago começa a jogar Cássio contra Otelo, dissimulando certo repúdio a atitude do general, e que Cássio deveria pedir a Desdêmona que convencesse o marido a devolver-lhe seu posto. Cássio aceita a sugestão.
Iago insinua a Otelo que Cássio e sua esposa teriam um caso. Otelo começa a desconfiar de Desdêmona, que havia sido presenteada pelo marido com um lenço de linho herdado da mãe. Iago sabendo disso e tendo encontrado o lenço, que Desdêmona perdera, disse a Otelo que sua mulher havia presenteado seu amante com ele. Otelo enciumado pergunta a esposa sobre o lenço, mas ela ignorava que esse estivesse com Iago. Este coloca o lenço dentro do quarto de Cássio para que ele o encontrasse, mas antes esconde Otelo que ouve sua conversa com Cássio (a respeito de outra mulher, Bianca, sua amante, não a de Desdêmona, fato desconhecido por Otelo.)
Otelo, descontrolado, procura sua esposa acreditando que o traíra e matou-a em seu quarto.
Luciano de Samósata (125-181)
Escritor grego de origem síria, cujas obras representam interesse tanto da literatura quanto da filosofia. Polígrafo, escreveu tanto diálogos satíricos e filosóficos, quanto narrativas ficcionais, históricas, ensaios, críticas e tratados de retórica. Possuía um estilo libertário e fantasioso, utilizando-se, sistematicamente, da paródia.
Sua obra mais conhecida são os Diálogos dos Mortos, cuja personagem central, Menipo, ridiculariza o mundo dos vivos:
Os mortos para Plutão, contra Menipo
CRESO: Plutão, não estamos mais suportando o Menipo, esse cão aí, como nosso vizinho. Por isso, ou você o instala em algum outro canto, ou nós nos mudaremos para um outro lugar.
PLUTÃO:O que está ele fazendo de anormal, se é um morto como vocês?
CRESO: Cada vez que nos lamentamos e gememos, com a lembrança das coisas lá de cima — o Midas aí, do seu ouro, o Sardanápalo, da sua luxúria, e eu, Creso, dos meus tesouros — ele ri e nos vitupera, chamando-nos de escravos e de escória. E às vezes até atrapalha nossos gemidos com umas cantorias. Em suma, ele é um chato!
PLUTÃO: O que é isso que eles estão dizendo, Menipo?
MENIPO: A verdade, Plutão. Eu os detesto, por que são uns ordinários, uns miseráveis! Não lhes bastou tre vivido uma vida abominável, e mesmo depois de mortos ainda conservam na lembrança as coisas lá de cima e não se desapegam delas. É por isso que eu me divirto, azucrinando-os.
PLUTÃO: Mas não é preciso. Eles estão penando, privados de seus bens. E não de poucos!
MENIPO: Você também está ficando doido, Plutão, dando apoio às lamúrias dessa gente?
PLUTÃO: De jeito nenhum. Eu não queria era que vocês se desentendessem.
MENIPO: Pois bem. Vocês, os piores dentre lídios, frígios e assírios, decidam-se, por que eu não vou parar. Seja lá para onde forem, eu vou atrás, cantarolando e zombando de vocês.
CRESO: Isso não é um exagero?
MENIPO: Não. Exagero é o que faziam vocês, exigindo reverências, abusando de homens livres, sem sequer sonhar com a morte. É por isso que vão gemer, privados de tudo aquilo.
CRESO: De muitos e magníficos bens, ó deuses!
MIDAS: E eu, de quanto ouro!
SARDANÁPALO: E eu, de quanta luxúria!
MENIPO: Muito bem! Continuem assim! Fiquem chorando vocês que eu vou fazendo o acompanhamento, cantarolando sem parar o "conhece-te a ti mesmo". É um acalanto que combina bem com semelhantes choradeiras.
(Dezotti, Maria Celeste C.
Luciano. Diálogos dos Mortos. São Paulo, Hucitec, 1996, p. 53-7.)

