A poética do século XVII não deve ser entendida como
uma poética de experiências pessoais no sentido contemporâneo, já que se
baseia em formas, temas e conceitos preestabelecidos, mormente na
filosofia e na retórica antigas. A literatura é, nesse momento, uma
representação retoricamente codificada.
O eu lírico “individual” cede espaço a um eu lírico “coletivo”,
seguindo os preceitos sociais vigentes; não há, portanto, plágio, nem
apelo à originalidade − no sentido romântico −, nem empiria, visto que
todos os preceitos já estão determinados na fonte retórica dos
auctores que devem ser imitados, pois não são somente fontes de
saber, mas um tesouro da ciência e da filosofia da vida[1].
Assim, o psicologismo , a força criadora da imaginação do artista − os
gregos sequer conheciam tal conceito, nem possuíam palavras para
exprimir essa idéia[2]
− e sua genialidade individual era de somenos importância, pois o que
importava era sua habilidade técnica − verossímil e retórica − no
emprego das tópicas apropriadas. O poeta, por exemplo, busca a
aemulatio, a superação operada tecnicamente, e é exatamente isso que
o público, que também domina o sistema de prescrições do autor, espera
encontrar: uma repetição, porém recontada de outra forma, pois é essa
que lhe dará prazer.
As relações sociais são igualmente rígidas, não
havendo o conceito contemporâneo de democracia, visto que tal sociedade
está embasada nos privilégios e na demonstração de superioridade de um
estamento sobre o outro. Assim, o tipo humano que melhor representa a
racionalidade do momento é o discreto, ideal de excelência humana, cujos
padrões eram o gênio, o engenho, a prudência, a agudeza, a dissimulação
honesta, o conhecimento de retórica, da poesia, de história e filosofia
antigas. Tais qualidades eram imprescindíveis para se empregar as
técnicas do decoro, normas de conveniência social em que se discernia o
que é melhor para cada momento, cada situação, seja em termos éticos,
retóricos ou políticos. O decoro estabelecia aquilo que deveria ser
“natural” − mesmo que, para o homem do século XXI pareça “artificial” −,
e habitual, impondo limites para a criação artística. Assim, será
considerado decoro, por exemplo, cada gênero ter seu próprio léxico. Mas
quando as preceptivas dadas a determinado gênero não são empregadas
seguindo tais normas, será indecoroso, como por exemplo, utilizar
palavras obscenas no gênero trágico, o que não se aplica à comédia
ou à farsa.
Vemos uma sociedade mecanicista, calcada numa
disciplina e organização maior que a de outros períodos, apesar de seu
aparente aspecto de desordem[3].
Para todos os momentos da vida, haverá sempre uma resposta com cada um
sabendo exatamente qual é o seu papel no palco do mundo. A tópica do ‘grande
teatro do mundo’ converte-se em um instrumento imobilista da maior
eficácia”[4],
por isso todo comportamento barroco tende a ser uma moral da acomodação[5],
já que os poderes sociais servem-se dela para montar mecanismos de
contenção e coerção sociais[6].
A verossimilhança, a partir dessa preceptiva,
consistirá em representar aquilo que se acredita verdadeiro, segundo as
determinações sociais do período, reproduzindo, na estrutura das obras,
as motivações, explicações e prescrições próprias do gênero na qual está
inserida, valendo-se do estilo e do léxico apropriados: ultrapassa-se
aqui a verdade factual e adentra-se a contratual e a social.
Para que isso seja possível, é mister a utilização do
engenho, força do intelecto que compreende dois talentos: perspicácia
dialética e versatilidade retórica. Aquela penetra nas mais distantes e
diminutas circunstâncias de cada assunto, esta confronta
rapidamente todas essas circunstâncias entre si, ou com o assunto. O
resultado desse trabalho intelectual é a agudeza, “modelo cultural de
uma memória social de usos dos signos partilhada coletivamente”[7],
que definirá a hierarquização de uma retórica comportamental, bem como o
esquema ordenador das práticas da representação do século XVII, seja nos
livros de emblemas, de empresas, nas preceptivas retórico-poéticas,
na poesia e na pintura, ou na codificação dos gêneros e estilos a que
cada um pertence, adequando-os à grande variedade de tópicas, situações
e comportamentos.
Nota-se que a Retórica aristotélica − a “arte
de falar”, de construir o discurso artisticamente − terá um papel
importante na vida do homem seiscentista, exatamente porque é uma
arte de persuasão, exige técnica, método e conhecimento do público a
quem o discurso destina-se. Para Aristóteles − que quis provar com sua
obra que as rejeições de Platão à retórica eram infundadas, já que este
a havia repudiado, como o fizera com a poética[8]
− “a educação retórica, combinada com o ensino da lógica e da dialética,
devia capacitar o discípulo a influenciar os ouvintes. E, dado o caso,
também ‘tornar mais forte a causa mais fraca’”.[9]
Para que isso fosse possível, trata em sua Retórica dos apotegmas
dos auctores, em cujos poemas havia centenas de milhares de
versos que condensavam experiências psicológicas e regras de vida[10],
largamente utilizados pelos teóricos e poetas barrocos.
Além de Aristóteles, Quintiliano terá grande
influência no século XVII e sua obra Institutio oratoria (95
A.D.), com doze volumes, considerada uma das melhores obras que nos
legou a Antigüidade, é um tratado sobre a educação do homem. Para
Quintiliano, “o homem ideal só pode ser orador, pois só a ele concedeu o
Deus supremo e formador dos mundos o privilégio da fala”. Dessa forma, a
oratória está muito acima da astronomia, da matemática e de outras
ciências[11],
logo deve-se dar importância aos auctores e a seus apotegmas,
chamados por ele de sentenças, que deviam ser “versos mnemônicos”: para
serem guardados de cor, colecionados e dispostos em ordem alfabética
para facilmente serem consultados[12]
e empregados.
A retórica terá uma grande abrangência no século XVII
e dela fará grande utilização o artista, já que toda representação,
codificada retoricamente, implicará seu profundo conhecimento, pois a
arte do período será puramente mimética e sistêmica. Conheciam-se não só
todas as cinco partes da retórica[13],
como as situações em que deveriam ser empregadas seus argumentos. Esses
eram chamados de topoi − tópicas − em grego, e loci communes
− lugar-comum − em latim. Empregavam-se, originalmente, na elaboração de
discursos, entretanto “a poesia também impregnou-se de espírito retórico.
A retórica perdeu, destarte, seu sentido primordial, sua razão de ser.
Por outro lado, penetrou em todos os gêneros literários. (...) Assumem
os topoi uma nova função: transformam-se em clichês de emprego
universal na literatura e espalham-se por todos os terrenos da vida
literária.”[14]
O período também estará impregnado do elemento sacro.
A divindade estará presente em tudo e em todas as relações, o que se
evidencia na leitura que os artistas da época fazem da natureza: nela
tudo tem um significado, até mesmo no ato de proclamar sermões, Deus se
faz presente nas palavras proferidas; som e conceito estão
intrinsecamente unidos, daí crer-se no esconjuro e na maldição. Temos
uma interpretação teológica do mundo e esse é a própria representação do
divino: tudo na natureza tem um significado e o significado das coisas
não só é a Palavra de Deus[15]
como as coisas são portadoras dela.[16]
A Sagrada Escritura − que terá grande influência no
período − possui um senso espiritual e místico − sensus espiritualis
e mysticus −, diferente da literatura profana com
seu sensus litteralis. Dessa forma, aquela com seu sentido
alegórico ensina o significado da história da salvação à alma
cristã e esta nos dá o fato.[18]
A alegoria que transmite o sacro deve ser, forçosamente, complexa e
obscura, porque se consolida em complexos verbais que têm de ser
imutáveis; dessa forma, para o homem do século XVII, a escrita
alfabética teria menos condição de expressar o divino ao contrário dos
hieróglifos.[19]
Assim, “o desejo de assegurar o caráter sagrado da escrita − o conflito
entre a validade sagrada e a inteligibilidade profana está sempre
presente − impele essa escrita a complexos sinais, a hieróglifos. É o
que se passa com o Barroco. Externamente e estilisticamente − na
contundência das formas tipográficas como no exagero das metáforas − a
palavra escrita tende à expressão visual.”[20]
A alegoria será então “o esforço científico para o conhecimento da
Palavra de Deus e portanto a base da Teologia,”[21]
que permeará todas as relações do período, pois ela mesma, “embora uma
convenção como qualquer escrita, era vista como criada, da mesma forma
que a escrita sagrada”.[22]
© Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão
[1] Cf.: CURTIUS, Ernst Robert. p.
95.
[2] Id ibidem. p. 485
[3] Cf.: MARAVALL, José Antonio. p. 126.
[4] Id. ibidem. p. 255.
[5] Cf.: id. ibidem. p. 259.
[6] Cf.: id. ibidem.p. 273.
[7] HANSEN, João Adolfo.
[8] Cf.: CURTIUS, Ernst Robert. p.
103.
[9] Cf.: id. ibidem. p. 102.
[10] Cf.: id. Ibidem. p. 95.
[11] Cf.: id. ibidem. p. 104.
[12]Cf.: id. Ibidem. p. 95.
[13] Como arte (ars), a retórica compreende cinco
partes: inventio, dispositio, elocutio, memoria, actio; e formam
o objeto da retórica (materia artis) três gêneros de eloqüência:
o discurso forense (genus iudiciale), o discurso deliberativo (genus
deliberativum) e o discurso laudatório ou solene (genus
demonstrativum). Havia, entretanto, outros gêneros: o epitalâmio, a
oração fúnebre, o discurso de aniversário, o de consolação, o de
saudação, o de felicitação, entre outros.
[14] CURTIUS,
Ernst Robert. Op. cit p. 109.
[15] Cf.: JÖNS,
Walter Dietrich. p. 31.
[16] Cf.: id
ibidem. p. 32.
[18] Cf.: id
ibidem. p. 30.
[19] Cf.:
BENJAMIM, Walter. p. 197.
[20] Id
ibidem, pp. 197-198.
[21] JÖNS,
Walter Dietrich. p. 31
[22] BENJAMIM, Walter. p.
197.

