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Todo texto escrito deve levar em conta os princípios e as regras estabelecidas...

 

 

 

 

 

 Tabela de morfologia

 

Toda a morfologia da Língua Portuguesa resumida e de forma clara e acessível a todos.

 

 

 

 

 

 

Exercícios de gramática

Vários exercícios de gramática para aprofundamento e para fixação dos conteúdos apresentados.

 

 

 

 

 

 

Análise de obras literárias

Obras literárias consagradas de forma acessível e analisadas por meio de mapas conceituais.

 

 

 

 

 

 

Técnicas de redação

Por meio de desvios do padrão culto, disponibilizamos apostilas para que se possa apreender e aprender a escrever textos dissertativos...

 

 

 

 

 

 

Ferdinand Saussure

 

Comentários acerca do Curso de Linguística geral de forma clara e acessível.

 

 

 

 

 

 

ICONOFOTOLOGIA: PRESSUPOSTOS 2

 

REPRESENTAÇÃO IMAGÉTICA NO SÉCULO XVII/ LEITURA

E INTERPRETAÇÃO ICONOLÓGICA

 


 
Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão

 

Verificaremos alguns exemplos de imagens/conceitos – anteriormente abordados a partir de alguns elementos pictóricos e emblemáticos –, agora por meio de poemas de diversos autores do Seiscentismo alemão, para que possamos nos familiarizar com os mesmos e com a projeção imagética que os leitores dos Seiscentos faziam.

 

 

Penitência (Buβe)

 

Angelus Silesius

 

Die Christenheit verwundert sich

Ob deiner tiefen Buße,

Daß du so frei und offentlich

Dem Herren fielst zu Fuße

 

(Silesius. Cherubinischer Wandersmann, p. 228)

 

 [A cristandade admira-se de tua profunda penitência/ já que caíste tão livre e publicamente aos pés do Senhor]

 

 

Simon Dach

 

 Der Herr ist dir versühnt, er hat mit dir Gedult,

Vnd schätzt die Busse mehr als alle deine Schuld

 

                                             (Dach. Geistliche Lieder. Trostgedichte.  p. 456)

 

[O Senhor expiou-te, Ele tem paciência contigo/ E considera a penitência mais que toda tua culpa.]

 

 

 

 

Pecado, penitência, lágrimas (Sünde, Buβe, Weine)

 

Angelus Silesius

 

a) Die geistlichen Jahreszeiten

 

Der Winter ist die Sünd, die Buße Frühlingszeit,

Der Sommer Gnadenstand, der Herbst Vollkommenheit.

 

(Silesius. Cherubinischer Wandersmann, p. 142)

 

[As estações espirituais

O inverno é o pecado; a penitência, a primavera,/ O verão, estado de graça; o outono, perfeição.]

 

 

b)   Ans Kreuze Christi

 

Schau, deine Sünden sinds, die Christum, unsern Gott,

So unbarmherzig verdammen bis in Tod.

Jedoch verzweifle nicht, bist du nur Magdalen,

So kannst du seliglich bei seinem Kreuze stehn.

 

(Silesius. Cherubinischer Wandersmann, p. 605)

 

[À cruz de Cristo

Veja, são estes teus pecados, o Cristo Nosso Deus,/ tão cruelmente condenaram à morte. No entanto, não te desesperes, tu és Madalena apenas,/ Assim tu podes ficar próximo à sua cruz)

 

 

Paul Gerhardt

 

Ach, wein auch du, o Menschenkind,

Und traure über deine Sünd;

Halt doch von deinen Lastern ein

Und mache dich durch Buße rein.

 

(Gerhardt, op. cit, p  123).

 

[Ah! Chora tu também, oh criança humana,/ Pranteia sobre teu pecado;/ têm , afinal, domínio de teus vícios/  e purifica-te por meio de penitência.]

 

 

 

Arrependimento dos pecados (Das Bereuen der Sünden)

 

 

Angelus Silesius

 

a)  Laß mich nur solche Gnad und Huld,

Wie Magdalen, erlangen

Und Ablaß meiner Sünd und Schuld

Aus deinem Mund empfangen.

 

(Silesius, op. cit. p. 177)

 

[Deixa-me somente alcançar, como Madalena,/ Graça e mercê, e receber/  De meus pecados e culpa/ O perdão de tua boca]

 

b) Du Balsamritz, du Rosentür,

Du reicher Mund, durch den sich mir

Mein Heilstrom ausgegossen.

Ach, wasch doch ab und schweif geschwind

Von meiner Brust weg alle Sünd.

 

(Ibidem, p. 508)

 

[Tu fissura balsâmica, tu porta de rosas,/ Tu rica boca, por cujo meio/ Verte-se-me o rio da salvação./ Ah, então lava e afasta, rapidamente,/ De meu peito todo pecado.]

 

 

Sigmund von Birken

 

a)    Ach die Ursach war auch ich,

Ich und meine Sünde:

Diese hat gemartert dich,

Nicht das Heidgesinde.

Jesu, lehr bedenken mich

Diß mit Buß und Reue;

Hilf, daß ich mit Sünde dich

Martre nicht aufs neue.

 

(Birken, Geistliche Lieder,  p. 92)

 

[Ai! eu também fui a causa/ Eu e meu pecado/ Que te martirizou,/ Não a coorte pagã./ Jesus, lembra-me desse ensinamento/ Com  penitência e arrependimento;/ Ajuda que não te martirize de novo com pecados.]

 

b) O Grosser Gott, ich klage dir mit Reu

Die Ungedult, so mich besessen,

Die wider dich sich setzet ohne Scheu

Dir Gnaden denket abzupressen,

Die für und für

Den deinen hier

Nach meinem Willen will abmessen.

 

(Ibidem, p. 23)

 

[Ó grande Deus, lamento diante de Ti, arrependido/ A impaciência que me possui,/ Que se coloca contra Ti, sem pudor/ Tencionando tirar misericórdia de Ti,/ Que sempre/ com os Teus aqui/ Quer se medir pela minha vontade.]

 

 

Amor a Deus (Liebe zu Gott)

 

 

Angelus Silesius

 

Ich will dich lieben, meine Krone,

Ich will dich lieben, meinen Gott,

Ich will dich lieben ohne Lohne

Auch in der allergrößten Not.

Ich will dich lieben, schönstes Licht,

Bis mir das Herze bricht

 

(Silesius, op. cit., p. 48)

 

[Eu quero amar-te, minha coroa,/ Eu quero amar-te, meu Deus,/ Eu quero amar-te sem soldo/ Mesmo na maior penúria,/ Eu quero amar-te, lindíssima luz,/ Até romper meu coração.]

 

 

Gerhard Tersteegen      

                    

Gott lieben ist der Seelen Leben,

Gott lieben ist der Sinne Tod;

Lieb Gott, doch liebe nichts daneben,

Sonst schmeckst du nicht dies Himmelbrot!

                                                 

  (Tersteegen, p. 635)

 

[Amar Deus é vida da alma,/ Amar Deus é morte dos sentidos;/  Deus amar,/ Ama a Deus, mas não ame nada além disso, / Senão não provarás esse pão do céu.]

 

 

 

Obediência (Gehorsam)

 

 

Paul Gerhardt

 

Dem Meer und Wind

Gehorsam sind,

Gibst sich zum Dienst und wird ein Knecht der Sünder.

Du, Gottes Sohn,

Wirst Erd und Ton,

Gering und schwach wie wir und unsre Kinder.

 

(Gerhardt: Gedichte, p.17)

 

[Ao mar e ao vento/ Sois obedientes,/ Dai-te ao serviço e tornas-te servo dos pecadores./ Tu, filho de Deus,/ Tornas-te terra e barro,/ Ínfimo e fraco como nós e nossos filhos]

 

 

Simon Dach

 

a)    Wir kommen alle gleich

Gebohren in ein Reich,

Da niemand sich muß sperren.

Doch Gott gehorsam seyn,

Dies machet uns allein

Zu unsern eignen Herren.

 

                                   (Dach. Geistliche Lieder. Trostgedichte.  p. 605)    

 

[Chegamos todos, igualmente/ Nascidos em um Reino,/ Em que ninguém será barrado./ Mas ser obediente a Deus,/ É isso que, apenas,/ Nos faz senhores de nós.]

 

 

b) Was that er nach der Zeit nicht überall für Zeichen,

Es muste die Natur ihm stets gehorsam weichen,

Er macht' aus Wasser Wein und in der Hungers-Noht

Fünff tausent Männer satt, und hatte sieben Brodt,

Hat aber Hunger selbst wol viertzig Tag erlitten,

Mit Blösse, Kält' und Durst und Dürfftigkeit gestritten (...).

 

(Ibidem, p. 392).

 

[O que ele, no tempo não realizou com sinais,/ Sempre a natureza, obediente, teve que ceder diante dele,/ De água, fez vinho e na miséria da fome/ Saciou cinco mil homens tendo sete pães/ Mas Ele próprio sofreu com a fome por quarenta dias/ Tendo lutado contra a nudez, frio e sede e privação.]

 

 

 

Os textos poéticos verificados são apenas alguns exemplos de conceitos/imagens que, evidentemente não foram empregados somente nos Seiscentos, mas em outros períodos literários, contudo a ευάργεια, a imagem que salta diante de nossos olhos, foi o diferencial maior, pois no período em questão, voltado a um conceito mimético não à originalidade, buscava-a como um dos objetivos da descrição. (Cf. Seligmann-Silva, in Laooconte, 1998, pp. 59-60). Quando, por exemplo, Clemens Brentano (1778/1842) utiliza conceitos semelhantes aos empregados no período barroco, a realidade e a Weltanschauung da Europa já eram outras, a μίμησις era relegada ao limbo pictórico. A pintura, por exemplo, não queria mais ser uma arte a reapresentar o mundo na tela, ou seja, sua função não seria mais a de ser um simulacro do real, mas o de apresentar na tela um mundo como tal, o da expressão. Lentamente vemos que, na arte, a representação cede seu espaço à apresentação. (Cf. Couchot, op. cit., p. 52)

 

Assim se expressa Brentano – poeta romântico alemão de ascendência italiana – acerca dos conceitos Buße e Sünd:

 

 

Clemens Brentano [1]

 

a)  Wann abends uns die braune Nacht

Im Schatten schwarz verkleidet,

Und ich dann meine Sünd' betracht,

Groß Not mein Herz erleidet.

Von lauter Leid, von Traurigkeit,

Mein Augen mir fast rinnen,

Zu'n Sternen auf (...)

 

 (Brentano. Ausgewählte Gedichte, p. 566.).

 

[Quando a parda noite ao ocaso/ reveste-nos em sombras escuras,/ E então eu contemplo meus pecados/ Meu coração sofre grandes infortúnios./ Quase meus olhos de ruidoso sofrimento e de tristeza se vertem/ em direção às estrelas.]

 

 

b)  Du mußt wohl Buße üben,

Weil du die Blicke senkst.

       

      (Ibidem, p. 163)

 

[Tu bem precisas exercitar a penitência, pois abaixas tua mirada.]

 

 

 

 

Nesse caso, todo o referencial emblemático pouco tinha a dizer a este poeta, as imagens evocadas já não faziam parte intrínseca da sociedade em que estava inserido. O mesmo pode ser dito do poema de Luise Hensel (1798-1876), contemporânea de Clemens Brentano[2], sobre Maria Madalena. Vale a pena lermos e visualizarmos suas imagens:

 

 

An St. Maria Magdalena:

 

                                                             (Am Morgen der ersten Beichte)

 

Erfleh' mit Lieb' und Thränen,

Du strenge Büßerin,

Daß ich mit reinem Sehnen

Nach Jesu strebe hin!

Daß ich zu Seinen Füßen

Verzeihung mög' erflehn,

In Thränen ganz zerfließen,

In Reue ganz vergehn.

 

Ich hab' Ihn viel gekränket

Und hab' es wohl gewußt;

Mein Herz hab' ich ertränket

In Erden-Schmerz und -Lust.

Ich hab' Ihn oft vergessen,

Den ich doch früh erkannt,

Und habe ganz vermessen

Mich von Ihm abgewandt.

 

O, gieb mir Deine Reue

Und Deine Thränenfluth,

O, gieb mir Deine Treue

Und Deiner Liebe Gluth,

Bis Er mir neues Leben

Mit diesen Worten giebt:

»Geh' hin, dir ist vergeben,

Weil du so viel geliebt.«

 

                (Hensel, Lieder, p. 226)

 

[A Santa Maria Madalena (Na manhã da primeira confissão)

Implora com amor e lágrimas, / Tu, austera penitente; / Que eu com puro desejo/ A Jesus almeje! / Que eu a Seus pés/ Perdão queira implorar, / Em lágrimas me derramar inteira, / Em arrependimento sofrer inteira./ Eu O magoei muito/ E bem sabia disso;/ Meu coração afoguei/ Em dor e prazer mundanos./ Muitas vezes O esqueci,/ Esse que cedo reconheci,/ E d’Ele me afastei abruptamente./ Oh, dá-me teu arrependimento/ E teu regato de lágrimas/ Oh, dá-me tua fidelidade/ E a chama de teu amor,/ Até Ele me dar nova vida/ Com essas palavras:/ “Vá, estás perdoada,/ Porque muito amaste”.]

 

 

Vemos que o eu lírico diz Erfleh' mit Lieb' und Thränen, no entanto ao empregar Tränen não haveria, necessariamente, uma outra acepção que não fosse o pesar e a tristeza, talvez por também ter pecado, ou considerar-se pecador. A partir desse modo de sentir-se, pode-se estabelecer a correlação entre a palavra Thränen e o título (dedicatória?) da obra, cujo mote se baseia na passagem bíblica em que Maria Madalena, supostamente, teria lavado os pés de Jesus com suas lágrimas e secando-os com seus cabelos para, com esse gesto, suplicar (erflehen) perdão por seus pecados. Não há nada além dessa correlação entre o eu lírico e a personagem retratada, ou seja, o eu lírico sabe que se cair aos pés de Jesus (zu Seinen Füßen) com contrição e amor, cuja exterioridade são as lágrimas, alcançará seu intento, assim como Maria Madalena também o lograra. Dessa forma, Thränen seria a demonstração sincera da vontade que o eu lírico tem de ser perdoado, é a sua verdade, sua necessidade; provavelmente, isso se dê por meio de um padre (Am Morgen der ersten Beichte), quando também ouvirá as palavras que o Mestre dirigiu à mulher que lhe lavou os pés: Geh’ hin, dir ist vergeben, weil du so viel geliebt.

 

Não se trata, portanto, de uma mera imitação do texto bíblico ou de textos de períodos anteriores, com a mesma temática, mas da aproximação/identificação do eu lírico com a figura bíblica, quando enxerga nela um modelo a ser seguido (enquanto um eu que busca se espelhar num outro eu), não um paradigma a ser imitado (enquanto modelo epistemológico, nos moldes da literatura seiscentista). Por isso, dizemos que não há nada além disso, ou seja, as lágrimas podem ser, efetivamente, lágrimas, porque a poesia romântica pretendia estar inserida no reino da criação, da ποίησις, cuja natureza é unicamente realidade (Novalis, apud Duarte, op. cit., p. 293) nem que para isso tenha de, a partir dessa realidade, recriá-la (Cf.: Paz, op. cit., p.50); desse modo, dirigia-se contra a concepção mecânica da μίμησις da representação enquanto modelo epistemológico do fazer artístico. Vemos que esse eu reflete sua experiência diante do mundo, mas não se preocupa tão-somente com um outro eu-paradigma, com a imitação de conceitos preestabelecidos nem mesmo da natureza. Essa imitação difere do conceito de Einbildungskraft (na verdade, capacidade/força da imaginação) – de Fichte – quando para descrever o processo poiético criativo de um Eu substantivado em contraposição a um não-Eu, o filósofo opta por excluir da subjetividade a própria natureza (Cf.: ibidem, p. 292). Talvez por isso Novalis, por sua vez, visse na representação verdadeira, perfeita a fonte da superstição e do erro (Novalis, apud Seligmann-Silva, 2004, p. 98), pois essa não expressa a verdade de um eu diante da força auto-poiética proporcionada pela poesia que, para os românticos, não quer ser a reprodução de um real qualquer, mas da absoluta verdade. (Cf.: Ibidem, p. 294) Essa, ao apoiar-se na experiência poética – que não difere da identificação com a ‘realidade da realidade’expressa-se e comunica-se pela imagem (Paz, op. cit. p.50) evocada e emanada no poema via λόγος, transmutando o homem e convertendo-o, ele mesmo, em imagem: eis o momento de agraciamento, de reconciliação consigo mesmo, pois quando se faz imagem, faz-se o outro (Ibidem, p. 50): o eu lírico torna-se Madalena, ela escuta o que ela quer ouvir, já que no Evangelho de Lucas temos: Dir sind deine Sünden vergeben.(...) Dein glaube hat dir geholfen; geh hin in Frieden! (Lc 7, 48 e 50)[3], não Geh' hin, dir ist vergeben, Weil du so viel geliebt: eis o que nunca aconteceria, por exemplo, no Seiscentismo, quando inexistia a originalidade cometida por Hensel.

 

As lágrimas podem não ser lágrimas, principalmente quando tratamos de modelos literários não voltados à originalidade como os do Seiscentismo, bem como ser representadas por outras imagens/conceitos, cuja significação perpassa o conceito de tristeza/alegria relacionados com o ato de lacrimejar. Pode-se exemplificar isso com a imagem de Pedro Mena, considerada anteriormente, em cuja significação podia-se ler Sündenbekenntnis und die Lossprechung als Reinigungsbad der Seele[4]. (Biedermann, 1999, p. 115) O ato em si da purgação dos pecados resultaria em lágrimas como resultado exterior do Reue von Befleckungen[5] (ibidem, p. 115), perpassando, portanto, a tristeza como emoção: não há aqui a perda de algo ou de alguém de que se gostava, não é o resultado do egoísmo, da insegurança, da baixa auto-estima, da inveja ou da desilusão – podendo ser, evidentemente, a causa primeira do pecado, cujo resultado tenham sido elas próprias –, mas o resultado da limpeza da alma que, arrependida e perdoada, é levada à compunção. Por ter essa expressividade e essa dimensão, nem sempre a palavra lágrima foi utilizada pelos poetas daquele momento, pois buscavam-se formas mais engenhosas, como a utilização da palavra pérola. Podemos citar muitos exemplos:

 

 

 

Pérolas (Perlen)

 

Benjamim Neukirch

 

Noch wie die mutter selbst aus ihrer hertzens-see

Das saltz der thränen läst als rundte perlen fliessen.

 

(Neukirch. Gedichte, p. 121)

 

[Ainda como a própria mãe deixa escorrer de seu coração-mar o sal das lágrimas como pérolas arredondadas.]

 

 

 

Daniel Caspar von Lohenstein

 

So weinen sie vor leid/ daß sich ein theil entfernen

Von liebes-ästen soll. Die göldnen wiesen-sternen/

Der erde gelbes haar/ die edlen blumen fühl'n

Der liebe zauber-werck in ihren wurtzeln spiel'n/

Die perlen ihres thaus sind bittre liebes-thränen;

Der kräfftige geruch ist ihr verliebtes sehnen/

Und ihrer seuffzen hauch: der farbe purpur-blut

Auff ihren knospen ist die lichte liebes-glut.

 

(Lohenstein. Gedichte, p. 80)

 

[Então choram de dor/ que precisam se afastar um pouco/ Dos ramos do amor. As estrelas-prado/ do cabelo dourado da Terra/ As nobres flores sentem/ A obra da magia do amor em suas raízes brincam/ As pérolas de seu orvalho são lágrimas de amor amargas;/ O forte odor é da cor púrpura/ Sobre os botões é a suave brasa do amor.]

 

 

Johann Klaj

 

             Ich habe nun gesungen/

was mein versprechen war/

Ach hätt ich soviel Zungen

Als augenblick im Jahr/

Soviel deß Staubs der Sonnen/

der Tropffen in den Bronnen

der Sternen an den Blauen/

der Perlen in den Tauen/

deß Wildes in den Wäldern

 

           (Klaj. Redeoratorien, p. 445)

 

[Eu cantei agora/ o que era minha promessa/ Tivesse eu tantas línguas/ quanto um ano tem momentos/ Tanta poeira do sol/ dos pingos na fonte das estrelas no azul/ das pérolas no orvalho/ da caça nas florestas.]

 

 

Christian Hoffmann von Hoffmannswaldau

 

a)  Der wunder-starcke safft/ der süsse thau der seelen/

So um rubinen fleußt/ und hier auff perlen steht/

Gibt deutlich zu verstehn/ daß in der augen hölen

Die reitzung öffters schläfft/ hier memahls

 

(Hoffmannswaldau. Gedichte aus Neukirchs Anthologie Bd. 1, p. 98)

 

[O sumo forte e milagroso/ doce orvalho das almas/ que corre em volta dos rubis/ e aqui está sobre pérolas/ Mostra claramente/ que nas órbitas do olho/ o estímulo, muitas vezes dorme/ aqui, nunca.]

 

b)  Die thränen stehen dir wie perlen im gesichte/

Und fliessen wie crystall durch wangen/ mund und brust

 

(Hoffmannswaldau. Gedichte aus Neukirchs Anthologie Bd. 2, p. 11)

 

[As lágrimas estão em seu rosto como pérolas/ e correm como cristal pelas faces,/ por boca e peito.]

 

c)  Vor Freuden tritt mir itzt das Wasser ins Gesichte,

Und rollet unvermerckt wie Perlen ums Papier

 

(Hoffmannswaldau: Sinnreiche Heldenbriefe, p. 79)

 

[De alegria sobe-me a água ao rosto,/ e rola despercebido pelo papel como pérolas.]

 

 

  

Andreas Gryphius

 

Der ists durch den sich Gott mit Menschen wil verbinden/

Diß ist der Perlen-Thau/ der frischen Morgenröth:

Der die verwelckte Seel erfrischt/ was liegt/ erhöht.

Diß ist der Trost durch den wir Muth im Zagen finden:

 

(Gryphius. Sonette, p. 329)

 

[É através dele que Deus quer se unir ao homem/ É o orvalho de pérolas/ da fresca aurora matinal:/ Que refresca a alma murcha/ que o que está deitado/ ergue./ É o consolo pelo qual encontramos coragem no desespero.]

 

 



Figura 1:

Une perle das sa cocque au dessous du soleil,

de Daniel de la Feuille, 1691.

 

 

 

Catharina Regina von Greiffenberg

Du wurdest von dem Bach der Trübsal sehr geweicht /

und littest stöß' und schläg' / O Jammer! von den bösen.

Solch köstlich Wasser labt das fast-verschmachte Herz:

dein Perlen-Blut-Safft stillt / der Seelen Sündenschmerz.

 

(Greiffenberg. Geistliche Sonnette: Lieder und Gedichte, p. 199)

 

[Foste muito marcado pelo riacho da tristeza/ e sofreste golpes e ataques/ Ó tristeza! Pelos maus./ Tal saborosa água refestela o coração/ quase fenecido:/ teu sumo de sangue e pérolas sacia/ a dor pecaminosa das almas.]

 

 

 

A fascinação pelas pérolas remonta à Antiguidade[6] e devido a sua pureza e origem misteriosas, muitas civilizações tentaram explicar sua procedência: uns acreditavam ser ou uma gota de orvalho ou uma lágrima da lua que caía dentro da ostra; um presente dos deuses mandado à terra; e, por representar pureza, muitos povos utilizavam-nas nos mortos para demonstrar sua inocência na vida post mortem, à semelhança da moeda de Caronte. Dessa forma, não é difícil compreender o porquê de a pérola ter se tornado uma alegoria da pureza, simbolizada pelas lágrimas via purgação como dito anteriormente, tendo utilizada, inclusive, na alegoria cristã:

 

 

Es gibt eine Muschel im Meer, die heißt Purpurmuschel. Sie steigt vom Meeresgrunde auf..., öffnet ihren Mund und trinkt den himmlischen Tau und den Strahl der Sonne (conforme a fig. 19), des Mondes und der Sterne und bringt so die Perle zustande aus den oberen Lichtern... Die beiden Schalen der Muscheln werden verglichen mit dem Alten und dem Neuen Testament, die Perle mit unserem Heiland Jesus Christus. (Biedermann, 1999, p. 826)

 

[Há uma ostra no mar chamada de ostra púrpura. Ela sobe do fundo do mar... abre sua boca e bebe do orvalho do céu e o raio de sol, da lua e das estrelas e então faz a pérola a partir das luzes do alto... Ambas as conchas da ostra podem ser comparadas ao Velho e ao Novo Testamento, a pérola com nosso Salvador Jesus Cristo.]

 

 

Vale salientar, no entanto, que a palavra pérola como utilização alegórica perpassa o Seiscentismo e adentra no Romantismo alemão, demonstrando, provavelmente, sua força imagética cristalizada:

 

 

Achim von Arnim

 

a)  Kinder, ja nicht zu ihr dränget,

Perlen deuten ja auf Thränen

Ja die Hand nicht aus dem Kahne

In dem kühlen Wasser hänget (...)

       

(Arnim. Ausgewählte Gedichte, p. 25.)

 

[Crianças, não ide até ela,/ pérolas apontam para lágrimas/ Do barco não pendurem/ a mão na fresca água.]

 

b)  Da meine Thränen an den Perlen glänzen,

Der alten Fabelsage innre Wahrheit,

Daß jene Perlen Thränen sind der Meeresgeister,

Die ahnend großes Unheil uns verkünden.

                                          

 (ibidem, p. 488)

 

[Quando minhas lágrimas em pérolas brilham/ A verdade interna da velha fábula,/ De que aquelas lágrimas são pérolas dos espíritos marinhos,/ Que como prenúncio, nos anunciam grande infortúnio.]

 

 

Clemens Brentano

 

Halt, halt, ihr scheinend Perlen klar,

Ihr tausend Licht und Fackel,

Halt, halt, ihr wohlgezündte Schar,

Ihr Feur und Flamm' ohn' Makel,

                                                      

(Brentano. Ausgewählte Gedichte, p. 566)

 

[Parem, parem pérolas claras e reluzentes,/ Mil luzes e tochas/ Parem, parem, turba incendiada,/  Fogo e chama sem mácula.]

 

 

Joseph von Eichendorff

 

Da löst' sie Kranz und Spangen,

Und über ihr Angesicht

Perlen und Tränen rannen,

Man unterschied sie nicht.

 

(Eichendorff. Gedichte (Ausgabe 1841), p. 603)

 

[Eis que solta guirlanda e fivelas/ E sobre o rosto/ Escorriam pérolas e lágrimas,/ Não se poderia diferenciá-las.]

 

 

Friedrich Rückert

 

Rosengeschmeide

 

Die Rose meiner Liebe,

Der keine Sonne scheint;

Daß sie nicht schmucklos bliebe,

Hat Perlen sich geweint.

 

Sie trägt als Brustgeschmeide

Der Thränen Perlenschnur.

Des Schmuckes mich entkleide

Die hohe Sonne nur.

 

Die Perlen alle wollen

Vergehn vor Ungeduld,

Bis sie zergehen sollen

An Blicken deiner Huld.

                     

 (Rückert. Wanderung, p. 88)

 

[Enfeite de rosas

A rosa do meu amor,/ Para quem nenhum sol brilha;/ Para que não ficasse desonrada,/ Chorou pérolas./  Como enfeite no peito, colar de pérolas de lágrimas/ Que o enfeite me tire/ Apenas o sol a pino./  As pérolas todas querem/ fenecer de impaciência/ Até se dissolverem/ Diante dos olhares de tua benevolência.]

 

 

 

Quando passa a ser empregado, esporadicamente, em momentos literários ulteriores[7]:

 

 

Otto Julius Bierbaum

 

Denn aus Gold sind deine Lippen, - seltsam,

Bernsteingoldig deine Augen, - seltsam,

Und dein Nabel eine weiße Perle.

 

(Bierbaum. Ausgewählte Gedichte, p. 49)

 

[Pois de ouro são teus lábios – curioso,/ De ouro-resina teus olhos, curioso,/ E teu umbigo uma pérola branca.]

 

 

Luise Büchner

 

Ihr ganzes Wesen funkelt,   

Ein blitzender Demant -

Jolanthe ist der Perle

Anmuth'gem Schmuck verwandt.

 

  (Büchner. Frauenherz, p.152)

 

[Todo o seu ser resplandece,/ Como um diamante que brilha/ Jolanta parente é/ Do enfeite belo da pérola.]

 

 

Richard Dehmel

 

Was glühst du, Rubin, von versunkenen Stunden?

Was blickst du, Perle, so bleich im Gold?

                                                                   

   (Dehmel. Aber die Liebe, p.190)

 

[Por que ardes, rubi, lembrando horas passadas?/ Por que miras, pérola, tão pálida em meio ao ouro?]

 

 

Franz Grillparzer

 

Die Perle hat doch auch kein Ohr,

Der Demant keinen Mund,

Der Blick des Goldes winkend nur

Gibt Wunsch nach Freiheit kund.

                                      

(Grillparzer. Gedichte, p. 354)

 

[Mas a pérola também não tem ouvido,/ O diamante não tem boca,/ Apenas o olhar do ouro, que acena,/ Noticia o desejo de liberdade.]

 

 

Heinrich Heine

 

Mein Herz gleicht ganz dem Meere,

Hat Sturm und Ebb' und Flut,

Und manche schöne Perle

In seiner Tiefe ruht.

 

                                       (Heine. Buch der Lieder, p. 193)

 

[Meu coração parece o mar,/ Tem tempestade, maré baixa e alta,/ E uma ou outra pérola/ Repousa em sua profundeza.]

 

 

 

Johann Gottfried Herder

 

Die schönste Perle blinkt auf seinem Angesichte,

Der Mühe Lohn, o mehr als Kronen werth!

                                        

  (Herder. Gedichte, p. 53)

 

[A mais bela pérola brilha em sua face,/ a recompensa pelo esforço, mais vale, ó que coroas!]

 

 

 

Além de ser empregada parafraseando a passagem bíblica: Não dêem aos cães o que é santo, nem atirem pérolas aos porcos[8]; eles poderiam pisá-las com os pés e, virando-se, despedaçar vocês (Mt 7,6), conforme os exemplos:

 

 

Ada Christen

 

Alle Herzen, alle Menschen

Hatten sich von mir gewandt,

Und mit Abscheu alle Lippen

Meinen Namen bald genannt.

 

Da kam Einer, sah in's Antlitz,

In das thränenblasse mir:

»Unter Schweinen,« sprach er traurig,

»Fand die Perle ich an Dir.«

 

(Christen. Lieder einer Verlorenen, p. 31)

 

[Todos os corações, todos os homens/ Afastavam-se de mim,/ E com repulsa todos os lábios/ Pronunciavam meu nome./  Eis que veio um, olhou-me na face/ Que estava pálida de lágrimas:/ “Entre porcos”, disse, triste,/ Encontrei a pérola em ti”.]

 

 

 

 

Amor Pagão & Amor Divino

 

            O dia 26 de dezembro de 2004 ficará marcado na história da humanidade como o dia em que o mar não só avançou em direção a terra, como também varreu a vida de quase trezentas mil pessoas. Evidentemente, não que esse tenha sido o maior ou o pior tsunami por que a humanidade passou, mas as cenas foram vistas in loco por muitas pessoas ao redor do globo e ao mesmo tempo. Todos nós vimos pessoas atônitas, desesperadas, sem saber o que fazer: não havia, no entanto, nada a fazer. Muitas nunca imaginariam que o espetáculo que estavam presenciando – as ondas no quebra mar – seria o último: seguiu-se uma verdadeira hecatombe.

 

 

Foto 1

Sheraton Grande Laguna Phuket, Tailândia, s/n, 2004

 

A televisão bombardeou-nos com muitas imagens, com muitas cenas que chegavam a todo o momento e que nos impressionavam: como foi possível isso? Diante de tanta tecnologia, como aceitar que uma tragédia dessas não pudesse ter sido, pelo menos, prenunciada com algumas horas de antecedência?

Estávamos no final do ano, tempo em que as pessoas, normalmente, reúnem-se com a família, com os amigos e querem, via catarse, esquecer os problemas e preocupações do ano que se encerra, por meio da festa, da alegria, preparando-se para um novo ano. Ainda estávamos comemorando, quando vimos que o pior estava acontecendo no outro lado do mundo: não queremos nos lembrar de que também somos suscetíveis a esses acontecimentos, de que a vida está ligada por um pequeno fio que nos prende, mas que pode se romper com facilidade. Fazemos questão de não nos lembrarmos de nossa pequenez, afinal já conquistamos muito: o homem vive quase cem anos, a medicina está cada vez mais adiantada, a tecnologia nos cerca de todos os lados – inclusive para nos mostrar que, apesar de todas essas conquistas humanas, ainda somos fracos e nossa força é nada diante da força da natureza a que estamos submetidos. Eis que a fotografia nos prova tal fato: sim, realmente a cena aconteceu; sim, realmente, isso pode nos acontecer.

 

Foto 2

 Sheraton Grande Laguna Phuket, Tailândia, s/n, 2004.


O homem das fotos 1 e 2 está sendo arrastado pela força da água que avança sobre um hotel de luxo em meio a ilhas de pessoas miseráveis que não têm acesso às benesses da τέχυη. O pior é que essas imagens exigem de nós que vejamos outras e mais outras, não nos contentamos com uma, todas chamam, literalmente, nossa atenção. Sabemos e queremos que venham mais e, à semelhança do fototropismo vegetal, tornamo-nos iconotrópicos: sentimos necessidade de mais e mais imagens para podermos (tentar) saciar nosso apetite voraz por elas, mesmo que isso tenha um sabor de indigestão nas festas de fim de ano.

 

Essas imagens tecnológicas não querem, a priori, nos transmitir preceitos morais[9]; apesar de nos transmitir πάθος [pathos], sentimos emoção ao vê-las, somos impelidos a pensar nas crianças, nos velhos e na situação desesperadora que pessoas como nós experimentaram, no entanto estamos longe dos acontecimentos e não nos deixamos (nem queremos) influenciar – além desse πάθος inicial –  por eles: tentamos fingir que isso só acontece com os outros, em países pobres e longínquos, pois a catástrofe não nos reconhece; buscamos, portanto, relegá-la sempre ao outro: ao outro mundo, às outras pessoas e, dessa forma, não só não tememos a morte, como fingimos que ela não existe e que estamos a salvo dela – pelo menos podemos retardá-la ao máximo – devido à técnica[10]. Até o momento em que ela se acerca de nós e mostra-nos seus dentes: trememos e vemos que também nós somos mortais: não há para onde fugir, as ondas se acercam de nós e nos levam. É exatamente isso que vemos na foto 2: um homem sendo arrastado pela força implacável das águas do mar que avançaram sobre tudo, inclusive sobre ele; não é possível fazermos nenhuma outra leitura dela a não ser essa. O que vemos na foto é um acontecimento em seus dois recortes: o temporal e o espacial. A fotografia, enquanto recorte temporal, reduz o tempo não só a um ponto como também o perpassa, perpetuando aquilo que aconteceu somente uma vez (Cf. Dubois, op. cit., p. 174): a cena se perpetuará num continuum enquanto minha memória dela se lembrar, enquanto fizer parte do acervo que tenho em mim, bem como de minhas experiências. No entanto, o fotógrafo ao utilizar seu ato, muitas vezes de forma violenta[11], retém um plano do real em detrimento do que está à sua volta, usando seu poder de corte (Cf.ibidem, p. 178): não é o que vemos nessa foto, pelo contrário, é como se o fotógrafo tentasse salvar o homem que ali estava, arrancando-o da força da natureza.

 

Uma mesma leitura não seria possível, evidentemente, nas obras do Seiscentismo, como a retratada na fig. 2 que, só na aparência, lembraria a temática da foto 2. A leitura que devemos fazer aqui tem de ser alegórica, já que, à diferença da foto em questão, estão inseridos aqui vários preceitos moralizantes; ou seja, vemos exatamente aquilo que não vemos. Além disso, a passagem não se refere nem é dirigido a um eu individual, mas a um eu coletivo que se encontrava na imagem e buscava seguir seus preceitos moralizantes. Para demonstrar isso é mister que façamos uma análise da mesma e suas implicações no modo de ver daqueles que se deixavam influenciar por elas.




Figura 2

 Emblema XI Non me degart tempestas aquae, de Jan Suderman, de 1724.


Na leitura pré-iconográfica desse emblema, podemos levantar alguns aspectos imagéticos:

 

      a)    Vemos uma criança que, aparentemente, foi vítima de um naufrágio, porém o que chama a atenção é o fato de ela estar sozinha e distante do navio em que estava;

 

      b)     Vemos que a criança é auxiliada por um anjo da guarda (essa é a imagem que me vem, quando vejo uma criança em apuros e junto a ela um anjo), talvez resida aí o fato miraculoso de seu salvamento;

 

      c)    É possível vermos uma gigantesca tempestade que se precipita, demonstrada pelos raios que cortam o céu, pelas nuvens escuras e pelo mar agitado;

 

      d)    Vemos um navio afundando.

 

À semelhança da escultura de Mena, ao passarmos para nossa análise iconográfica, também somos impelidos a analisar a figura a partir de uma conotação religiosa, visto que, diante de uma desventura como um naufrágio, vê-se apenas uma criança à deriva que, aparentemente, se salva de forma miraculosa, por meio de um anjo que lhe dá a mão. Aliado a esse fato, vê-se escrito no corpo do emblema uma passagem em latim que diz: Non me demergat tempestas aquæ, neque absorbeat me profundum! e, à continuação, Psal. 68. A passagem bíblica serve, portanto, de mote para a imagem emblemática:

 

 

Salva-me, ó Deus, pois a água está chegando ao meu pescoço. Estou afundando no lodo profundo, sem nada que me segure; vou afundando no mais fundo das águas, e a correnteza me arrastando... Esgotei-me de tanto gritar, minha garganta queima e meus olhos se consomem, esperando por meu Deus. (...) Que a correnteza não me arraste, nem o lodo profundo me engula, e que o poço não feche sobre mim a sua boca. (Sl 69, 1-4 e 16)

 

 

Mas, um acontecimento nos chama a atenção: o fato de a personagem retratada ser uma criança, além de seu afogamento. Se estivesse se afogando, não deveria estar com as mãos espalmadas em direção ao anjo, mas acima da cabeça (talvez como o homem da foto 2 que as têm retesadas – apesar de só nos ser possível ver uma – tentando se agarrar a algo), debatendo-se para tentar se salvar, se é que isso seria possível em meio a uma tempestade dessas proporções e, ainda mais para uma criança; além disso, onde estariam as outras pessoas do navio? Estariam todas mortas? Não há como responder a isso com base na gravura: não temos elementos para isso, a não ser a imagem em si e o mote bíblico. Esse, por sua vez, se refere a um homem adulto, conforme podemos inferir lendo o texto até seu final. Então, surge-nos, novamente, a pergunta: por que uma criança? Pergunta cuja resposta não pode ser dada nem com uma análise preliminar – na leitura pré-iconográfica –, nem mesmo em nossa análise iconográfica, pois faltam-nos elementos iconológicos para poder abarcar toda sua significação imagética.

 


Para podermos compreender o porquê do anjo e da criança que se afoga, temos de conhecer a tradição emblemática holandesa, pois foi, exatamente, na Holanda onde floresceram os chamados emblemas amorosos, que se tornaram destaque na literatura nacional daquele país, quando seus emblemistas resgataram, da Antiguidade, metáforas desgastadas e deram-lhe um novo viço. Nesse resgate, ressurge a figura do Cupido, quando Daniel Heinsius publica, em Amsterdã, seu Emblemata Amatoria, cujo primeiro emblema retrata o deus-menino sobre um leão (fig. 3), além de trazer um hemistíquio de Virgílio: Omnia vincit Amor.

 

Figura 3

 Omnia vincit Amor [O Amor vence tudo], emblema  de Daniel Heinsius, de  1607.

 

A esse respeito, Angelus Silesius assim se expressa ao esboçar um paralelo entre o Cupido e o Menino Jesus:

 

Cupido, blindes Kind,

Pack dich hinweg geschwind

Mit deinen Narrenpfeilen!

Du sollst mein Herz

Mit deinem Scherz

Nunmehr nicht übereilen.

 

(Angelus Silesius, Heilige Seelenlust oder geistliche Hirtenlieder, p. 97)

 

[Cupido, cega criança,/ Sai daqui, rápido/ com suas flechas bobas!/ O meu coração/ Com tua dor/ Não mais surpreenderás.]    

 

 

Heinsius, desse modo, não só fez escola, como também dela mesma bebeu[12], pois vários outros emblemistas também tiveram como mote o Cupido, tamanha havia sido a aceitação da obra, afinal, fixara em forma pictórica conceitos que haviam sido o repertório da poesia lírica durante muito tempo (Praz, 1989, p. 114): é possível ler, em seus emblemas, sobretudo Petrarca e com ele toda a tradição dos poetas latinos, em especial Ovídio, cuja influência havia assegurado a transmissão dos conceitos clássicos do amor durante a Idade Média. (Cf.: ibidem, p. 114)

 

Temos na fig. 4, por exemplo, o primeiro emblema do livro Amorum emblemata de Otto Vaenius, um dos que seguiram os passos de Heinsius em busca do Amor profano, ou poderíamos dizer, do Amor pagão. Nele vemos o Cupido flutuando por entre nuvens e cercado por uma serpente que morde a própria cauda, cujo significado, visto anteriormente, é eternidade. Vaenius utiliza versos de Sêneca na subscriptio desse emblema:

                   

 

          AMOR ÆTERNVS

Nulla dies, tempúsue potest dissoluere amorem,

Néue est, perpetuus sit nisi, verus Amor,

Annulus hoc anguisque tibi curuatus in orbem,

Temporis æterni signa vetusta, notant.

 

 

[Nenhum dia ou tempo pode acabar com o amor e o amor não é real se não eterno. A aliança de casamento e a serpente arqueam-se num círculo, tempo de eternidade, é um sinal disso para você.]



Figura 4

 Amor Aeternus, de OttoVaenius, 1608.


Greiffenberg, para nos falar da eternidade do amor, utiliza-se da imagem de Cristo associada à imagem da fênix:

 

 

Auf dem Stroh die Ewig Liebe brennt und flammet liechter loh /

zündet solches doch nicht an. Solten wir nit auch anheben /

und als rechte Christen-Fönix / uns verbrennen Heilig froh?

                         

(Greiffenberg, op. cit. p. 168)

 

[O Eterno Amor queima na palha e a chama arde mais luz/ mas nada se acende. Será que nós não devemos começar e como o reto Cristo-Fênix nos queimar felizes de santidade?]

 

 

Assim, o amor de Cristo é cotejado à figura mitológica da fênix  (fig. 5) por dois fatores indissociáveis: esta não só ressurge das cinzas, como também necessita do fogo para manter seu perpétuo continuum; Cristo não só ressuscitou em meio às cinzas da humanidade – cuja morte representou e perpassou –, como também o fez devido a seu amor por essa mesma humanidade; e, devido a sua mesma ressurreição, seu amor Rinasce più glorioso, inflamando o coração daqueles que acreditam nessa verdade de forma contínua e perene.

 

Esse Amor eterno e flamejante teria, portanto, como prenúncio – sua interpretação figural – a sarça ardente no deserto (Ex 2, 2): não há como fugir de seu calor que queima sem se consumir mesmo que sejamos palha, mesmo que não queiramos dar o primeiro passo como Moisés, daí o questionamento do eu lírico: Solten wir nit auch anheben/ und als rechte Christen-Fönix / uns verbrennen Heilig froh?

 

Figura 5

 Rinasce piu gloriosa, de Daniel de la Feuille, 1691.

 

Além de Catharina Greiffenberg, essa imagem também pode ser encontrada em:

 

 

Angelus Silesius:

 

a)  Entzünd mein Herz, o keusches Feurr,

Mit deiner heilgen Brunst,

O Speise, komme mir zur Steur

Mit deiner Lieb und Gunst.

Zünd an, verbrenn, vermehr die Glut,

O Jesu, höchst gewünschtes Gut,

Daß ich, dein Phönix, sterb.

 

       (Angelus Silesius. Heilige Seelenlust oder geistliche Hirtenlieder, p. 499)

 

[Inflama meu coração, ó fogo casto/ Com teu fervor sagrado/ Ó alimento, vem a mim/ Com teu amor e favor/ Com teu amor e favor/ Acende, queima, multiplica a brasa/ Ó Jesus, bem altamente desejado,/ Para que eu, teu fênix, morra.]

 

 

b) Ein Phönix soll man sein

 

Ich will ein Phönix sein und mich in Gott verbrennen,

Damit mich nur nichts mehr von ihme könne trennen.

 

(Angelus Silesius. Cherubinischer Wandersmann, p. 477)

 

[Deve-se ser uma fênix

Quero ser uma fênix e consumir-me em Deus/Para que nada mais d’Ele me possa separar]

 

 

Sigmund von Birken

 

Christen wie der Phönix sterben,

Werden lebend in dem Grab.

Wer im Sternenhaus will erben,

Muß die Erde legen ab.

Wann die Sonne eilt der Ruh'

In den Wintertagen zu,

Sie läßt nach dem Untergehen

In der andern Welt sich sehen.

          

 (Birken. Gedichte, p. 20)

 

[Cristãos como a fênix morrem/ Tornam-se vivas no túmulo./ Aquele que quiser herdar no lar das estrelas/ Deve abdicar da Terra./ Quando o sol em direção da paz/ Se dirigie nos dias de inverno,/ Ele, depois de se pôr,/ Mostra-se no outro mundo.]

 

 

Friedrich von Logau

 

Wo Phönix etwa wohnt, wohnt, glaub ich, auch das Glücke,

Von dem man nach dem Ohr und nichts weiß nach dem Blick

Iedoch ich weiß den Ort, wo Glücke macht Bestand,

Den aber niemand kennt, biß dieser wird verbrant.

 

(Logau. Sinngedichte, p. 351)

 

 

[Ali, onde mora a fênix, creio que também mora a felicidade/ Da qual se sabe de ouvido, mas não pelo olhar./ mas eu conheço o lugar onde a felicidade é perene,/ Mas que ninguém conhece até que queime.]

 

 

Daniel Caspar von Lohenstein

 

Hier find die seele den tod und das leben/

Auffgang und untergang/ wiegen und grab.

Hier wird die glut ihr zur speise gegeben/

Und was sie nehret/ das zehret sie ab.

Gleichwie der Phönix von neuem auch lebet/

Wenn er sich zwischen die flammen begräbet.

 

(Lohenstein. Gedichte, p. 106)  

 

[Aqui a alma encontra a morte e a vida/ Ascensão e queda/ berço e túmulo./ Aqui a brasa lhe serve de alimento./ E o que alimenta, a consome./ Assim como a fênix  renasce/ Quando entre chamas se enterra]

 

 

 

Figura 6

Un Pelican donnant à manger à ses perits, de Daniel de la Feulille, de 1691.

 

Apesar de sua relação com o fogo, a fênix deve ser vista por representar a eternidade da alma e a ressurreição de Cristo, pois ela mesma ergue-se das cinzas após três dias. Vale salientar que, muitas vezes na iconografia cristã, a fênix é representada, inclusive, pelo pelicano (fig. 6). Esta ave também é muito simbólica, pois cria-se que, quando não havia como alimentar suas crias, o pelicano arrancava com o próprio bico parte de seu peito para dar-lhes seu sangue. Dessa forma, torna-se símbolo do sacrifício de Cristo assim como o do amor dos pais aos filhos. Angelus Silesius expressa dessa forma essa relação entre o sangue do pelicano e sua relação com o de Cristo:


An den Sünder

 

Wach auf, du toter Christ, schau, unser Pelikan

Sprengt dich mit seinem Blut und Herzenswasser an.

Empfängst du dieses recht mit aufgetanem Mund,

So bist du augenblicks lebendig und gesund.

 

(Angelus Silesius. Cherubinischer Wandersmann, p. 607)

 

[Ao pecador

Acorda, cristão, vê, nosso pelicano/ Te molha com seu sangue e água do coração./ Se a recebes de boca bem aberta,/ Tornas-te vivo e saudável]

 

A representação do elemento fogo não pertence à fênix, mas a outro animal: a salamandra (fig. 7). Ripa apresenta-nos o elemento fogo da seguinte maneira:

 

Mujer que con ambas manos sostiene una vasija que contiene fuego. A un lado se pondrá una Salamandra, que aparece en medio de una hoguera, y al lado contrario un Fénix que también ha de estar ardiendo, sobre el cual se ha de ver un Sol resplandeciente. (Ripa, op. cit., pp. 304-305)

 

 

Dessa forma, não podemos ler “salamandra” como um mero anfíbio, mas a tradição simbólica nos faz vê-la como

 

ein Elementarwesen, das im Element Feuer wohnt, damit dieses nicht unbelebt und unbehütet sei. (...) Sie sind dem Volksglauben zufolge nicht Dämonen, sondern von Gott bestellte Hüter des Elements. (Biedermann, op. cit., p. 920)

 

 

[um ser elementar que reside no elemento fogo, para que este não fique inerte e desprotegido. (...) Segundo a crença popular, não são demônios, mas protetores dos elementos empossados por Deus]

 

 

Ou, segundo Horapolo, representava o homem não queimado pelo fogo (cf.: Horapolo, op. cit., pp. 253-255). Essa acepção faz com que o conceito recebesse contornos cristãos e morais como o amor à constância, quando a Patrística interpretou a constância com que a salamandra enfrenta o fogo com o exemplo dos mártires (Cf.: ibidem, p. 254) nos primórdios do cristianismo, ou ainda uma alusão ao livro de Daniel, que conta a história de três jovens lançados na fornalha por ordem do rei Nabucodonosor. (Dn 3, 21 e 94)

 

Figura 7

 Mea vita per ignem, emblema de Otto Vaenius, 1608.

A salamandra também foi empregada pelos poetas alemães do Seiscentismo, como podemos demonstrar:

 

Angelus Silesius

 

Im Wasser lebt der Fisch, die Pflanzen in der Erden,

Der Vogel in der Luft, die Sonn im Firmament,

Der Salamander muß im Feur erhalten werden,

Im Herzen Jesu ich als meinem Element.

                             

(Angelus Silesius, op. cit., p. 847) .

 

[Na água vive o peixe, as plantas, na terra,/ O pássaro, no ar; o sol, no firmamento,/  A salamandra deve se manter no fogo,/ E no coração de Jesus, eu, como eu meu elemento.]

 

 

Christian Hoffmann von Hoffmannswaldau

 

a)  Du zeigst mir unverstellt die reinen liebes-flammen/

Das feuer/ das durch dich auch mich zugleiche brennt.

Es reimt sich in der welt doch nichts so wohl zusammen/

Als wenn sich eine brunst der andern freundin nennt.

In dieser wollen wir als Salamander leben/

Die tugend trägt uns stets ihr reines öle zu:

 

(Hoffmannswaldau, op. cit., v. 1, p. 55)

 

[Mostra-me sem disfarce as puras chamas do amor/ O fogo, que através de ti também me queimou/ Nada no mundo rima tanto quanto um incêndio se irmana a outro./ Neste, queremos viver como salamandra/ A virtude sempre nos traz seu óleo puro (...)]

 

 

b)  Befrage selbst das heisse licht/

Das aus den hellen augen bricht/

Was feuer es in mir erwecket?

Es schmeltzt der seelen hartes eiß/

Und machet Salamander heiß/

Und ich soll seyn unangestecket?

                          

 (ibidem, p. 156)

 

[Perguntas, tu mesmo, à luz quente/ Que brota dos olhos claros/ Que fogo desperta em mim?/ Derrrete o duro gelo das almas/ E esquenta salamandras/ e eu deixaria de me contaminar?]

 

 

Benjamin Neukirch

 

Was aber bringen uns die thränen endlich ein?

Ein Christ muß in der glut wie Salamander seyn/

Und wie ein palmen-baum auch in der kälte grünen.

Nach sonne folget blitz/ nach regen sonnenschein;

So strahlt des himmels gunst auch wieder nach der pein/

Und läst die thränen offt uns zum ergetzen dienen.

                                   

  (Neukirch, op. cit., p. 128)

 

[Mas, enfim, o que nos trazem as lágrimas?/ O cristão na chama deve ser como a salamandra/ e como a palmeira verdejante no frio./ Ao sol segue-se o raio/ após a chuva, o sol/ Assim também a benevolência celeste se mostra após a dor.]

 

 

 

Ao depararmo-nos com a fig. 7, podemos nos surpreender e questionar o aspecto angelical do Cupido, pois temos a impressão de que o mesmo está ateando fogo a um animal: vemos nas mãos do pequeno deus alado duas tochas e, sob o mesmo uma salamandra (mais parece a imagem de um dragão!) inserida dentro de labaredas. Tal imagem pode parecer-nos absurda, afinal nos é difícil dissociar a imagem do Amor da que temos pertencente à iconologia cristã, quando anjos crianças têm um aspecto angelical e bom – à semelhança do que vemos na fig. 2 – , o que pode surpreender aqueles que veem essas imagens pela primeira vez. Como pode um anjo agir dessa maneira? Mais uma vez, verificamos que, para analisarmos essas imagens e os textos poéticos do período, temos de adentrar, necessariamente, em seu campo iconológico, caso contrário, devido ao ruído, a mensagem não será decodificada. Dessa forma, antes de prosseguirmos nossa análise imagética do Amor pagão, queremos exemplificar possíveis ruídos, para isso vamos contrapor fotos[13] de um lado e emblemas de outro para que, en passant[14], possamos verificar como nossa realidade interfere na recepção imagética do XVII:

a)

Figura 8
Quod cito fit, cito perit [O que chega rapidamente, morre rapidamente], de Otto Vaenius, de 1618





Foto 3
 Queimada, de Marcos Cirano, s/d.


Hoje, certamente, veríamos com restrições o emblema de Vaenius (fig. 8), pois seria até possível – dentro de uma linha especulativa – relacioná-lo a uma defesa das queimadas, afinal vemos um anjo ateando fogo no capim seco (mesmo não estando com tochas nas mãos, não evidencia tristeza, ou pesar, mas um prazer quase mórbido com a cena); ou seja, pode-se levar a crer numa pseudo-aceitação da divindade – representada pelo anjo – nesse ato. Isso, no entanto, demonstraria o que chamamos de politicamente incorreto, algo parecido com o exposto na foto 3, quando um homem executa essa atividade, infelizmente, banal no interior brasileiro, quando se ateia fogo para preparar o solo após a colheita, para uma nova semeadura ou ainda preparar pasto para o gado. Nossa consciência atual de sobrevivência – deixou de ser uma mera preocupação ecológica – não admite mais esse ato, muito menos o exposto por um ser não humano como o representado na fig. 8. Há, é evidente, a legenda que nos diz Quod cito fit, cito perit, no entanto a grande maioria das pessoas não lê mais latim, logo seu efeito é-nos inócuo.

 

Seria factível uma analogia entre as duas imagens como a descrita acima? Evidentemente não. Vemos duas realidades dessemelhantes não só temporal quanto culturalmente: essa consciência ecológica, só para atermo-nos a um aspecto hodierno abordado (o da foto), é algo muito recente na sociedade humana – sempre acreditamos que poderíamos sujeitar e dominar a terra, só nos esquecemos de um mero detalhe: tudo acaba, inclusive o planeta em que estamos inseridos; Vaenius, por exemplo, nunca poderia ter proposto algo que fosse a favor ou contra o que chamamos de queimada, sua preocupação era mostrar a fugacidade da paixão, louca e repentina: Quod cito fit, cito perit. Assim como a paixão humana vem como um fogo abrasador, queimando o coração do homem; assim, ele vai embora, como o fogo na palha, daí a utilização do Cupido para essa representação. Ripa, por sua vez, ao descrever o Amor, cita-nos Sêneca:

 

 

 

Tiene en los hombros alas/ y armadas las manos con arco y con saetas,/ y en un haz, bien sujetas/ lleva las llamas que por el universo/ va luego esparciendo, hasta el punto de que con su ardor/ todo corazón enciende./ Y siendo en muy poco diferente del humano uso, de Vulcano y de Venus ha nacido/ ostentando en el Cielo el más sublime estado./ Amor es vicio de la mente insana:/ cuando se mueve de su esfera propia/ incendia el ánimo, y nace en sus verdes años/ a edad en la que mucho puede, aunque ve poco./ El ocio lo alimenta, y la lascivia  humana,/ mientras se mantiene lejana/ la mala suerte con sus graves daños/ desplegando sus tristes alas, y mientras la buena y feliz (fortuna) está presente/ trayendo consigo cuanto tiene en su rico seno./ Mas si ésta viene a menos/ cuando el ciego deseo al mal consiente, / el fuego que antes ardía enteramente se extingue,/ perdiendo pronto amor toda su fuerza. (Sêneca, apud Ripa, op. cit, p. 94)

           

 

 

El fuego que antes ardía enteramente se extingue, perdiendo pronto amor toda su fuerza: essa é a acepção do emblema de Vaenius, ou seja, o fogo sequer é fogo, mas o desejo espalhado pelo universo cujo calor incendeia o coração dos homens. Dessa forma vemos uma relação estabelecida entre o fogo que consome rapidamente a palha com a própria brevidade da felicidade, fato muito explorado nos Seiscentos de várias maneiras como na relação estabelecida entre a vela e os mosquitos que, inebriados pela luz, morrem pela atração fatal desta[15]. Vaenius nos mostra essa relação prazer/dor, em seu emblema 52 (na fig. 9), sob o olhar atento do Amor e cuja subscriptio diz:

 

 

BREVIS ET DAMNOSA VOLVPTAS.

Lumina delectant culices, perimuntaque petita;
Sic nobis spes est optima caussa mali.
Qui circumuolitat deceptus Amoris ad ignis,
Numquid naturam papilionis habet?

 

Figura 9

 Emblema 52, Breve & damnosa voluptas, de Otto Vaenius, 1608

[Pernilongos amam a luz, mas morrem quando dela se aproximam. Do mesmo modo nossa maior esperança é a causa de nossa desgraça. Quem decide voar para o fogo do amor,ele não se assemelhará a uma mariposa?]

 

b)

 

 

Figura 10

 Emblema 10, In oeanam vivo, de Daniël Heinsius, de 1616.



 Foto 4

Tortura em Abu Ghraib, s/a/d

 

Mais chocante seria o outro emblema (fig. 10), quando não só vemos um homem sendo torturado, como também um outro sendo queimado vivo, e o pior é que, em ambos os casos, os torturadores são anjos (Cupidos). Não pude deixar de rememorar, a partir desse emblema, as torturas sofridas pelos prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib, quando os anjos libertadores estadunidenses livrariam o país do demônio Saddam e torturaram, de forma vil (como se houvesse outra forma de tortura), prisioneiros de guerra como o da foto 4. Logicamente, isso não passa de uma mera associação, para encontrarmos aqui um ponto em comum: o emprego metafórico da palavra anjo. Nem os estadunidenses são os auto-propagados anjos da justiça nem os anjos torturadores são anjos na acepção cristã. No caso do emblema de Heinsius temos, na verdade, uma auto imputação da tortura, visto que o amor nos tortura na medida em que nos tornamos seus prisioneiros, quando nos apaixonamos, daí os Cupidos serem os torturadores, afinal são eles que nos flecham com as setas do amor.  Muito diferente da foto, pois nessa vemos não uma auto imputação – como se fosse possível escolher quando e como ser flechado –, pelo contrário, a partir de dados concretos da cultura dos subjugados (mundo islâmico), imputam-se torturas de ordem sexual e moral. A tortura poderia não ser real: não há sangue, nem equimoses, mas vê-se um tormento de ordem ética, busca-se a humilhação, a subjugação dos que já estão subjugados.

Hoffmannswaldau, em seu Er ist unglückselig [Ele é um desgraçado], cita inclusive a tortura em um poema, não a decorrente do amor, mas a da alma atormentada pelo sentimento de nulidade diante da vida e de sua efêmera condição:

 

Die schmertzen sind mein tranck/ das unglück meine kost.

Ich muß auff folter-bäncken sitzen/

Und auff den schweren stab des jammers mich nur stützen.

        

(Hoffmannswaldau, Gedichte aus Neukirchs Anthologie, p. 149)

 

[As dores são minha bebida, a infelicidade minha comida. Preciso me sentar na cadeira de tortura e somente no pesado bastão do pranto me escorar.]

 

 

O mesmo sentimento que, provavelmente, os que são torturados sentem diante da dor, da nulidade diante de sua total impotência diante de sua fraqueza:

 

Ich unglückseliger! warum bin ich gebohren?

(...)

Mein leib ist ein spital/ darinn der geist muß krancken;

 Ich bin ein ebenbild der bleichen traurigkeit

(...)                                                       

 (ibidem)

 

 

[Desgraçado eu! Por que nasci? (...) Meu corpo é um hospital, em que o espírito precisa adoecer; Eu sou um retrato da pálida tristeza (...)]

 

 

Em 1615, Vaenius publica Amoris Divini Emblemata e põe freio nas diabruras do Cupido, que passa não mais a representar o deus grego e sua relação com os homens, ora benfazendo-os ora torturando-os, mas assume o papel do Amor Divino, ou seja, o deus pagão é retirado da cena: o cristianismo entrava no palco novamente. Tal acontecimento não era novo, já o havíamos visto desde a Patrística, quando sob os escombros do paganismo os Padres da Igreja alicerçaram as bases da nova religião:

 

 

 

Quanto mais educados no sentido antigo, quanto mais aprofundados na cultura antiga estivessem os escritores cristãos dos tempos patrísticos, tanto mais eles deviam sentir a necessidade de verter o conteúdo do Cristianismo numa forma que não fosse só mera tradução, mas adaptação às suas próprias tradições conceituais e expressivas. (Auerbach, op. cit., /i>p. 63)

 

Figura 11

 Emblema 28, Amoris flagellum dulce, de Otto Vaenius, de 1615.

Poder-se-á dizer que o mesmo aconteceu com os emblemas de Vaenius, ou utilizando as palavras de Praz: Ovidio há sido sucedido por San Agustín. (Praz, 1989, p. 151). Vemos, por exemplo, na fig. 11, o Amor divino – representado pelo anjo em pé e vestido que leva em uma das mãos um ramo que servirá de açoite – e um outro anjo que, na realidade, representará a alma humana. Vemos, agora, que o tormento, a pena, o castigo são representados como Amoris flagellum dulce [O chicote do amor é doce.]:  o amor divino mostra-nos que o sofrimento pode ser doce, aprazível, que é possível sofrer sem dor, visão bem diferente da que havíamos visto, anteriormente, em relação ao Amor pagão. Na subscriptio desse emblema vemos a alusão à correção dada pelos pais a seus filhos:

 

 

A vezes importa al hijo
Mas el azote del padre,
Que el regaço de la madre.

 

 

Justus de Harduwijn em seu Goddelycke wenschen (1629), mostra-nos a punição dada à alma pecadora em seu emblema 4 que também não é vista como tormento, mas como forma de se perdoar os pecados (fig. 12), cujo mote está no salmo 25:

 

            Olha minha fadiga e miséria, e perdoa meus pecados todos. (Sl, 25, 18)

 

Dessa forma, o emblema não deve ser visto como representação de uma mera punição, mas como uma troca: por meio da resignação da alma, esta purga seus pecados, daí seu mote: Vide humilitatem meam [Veja minha humilhação].

 

 

Figura 12

 Emblema 4 Vide humilitatem meam, de Justus de Harduwijn , 1629.

 

Silesius assim se expressa:

                                      

Mittel zur Heiligkeit

Dein Geist sei aufgespannt, dein Herze leer und rein,

Demütig deine Seel, so wirst du heilig sein.

(Angelus Silesius,  Cherubinischer Wandersmann, p. 701)

 

[Meio para a santidade

Teu espírito esteja aberto, teu coração vazio e limpo, Tua alma, humilde, então serás santo]

 

 

Simon Dach não só fala em demütig (humilde) como também em ergiebet (resigna-se) diante do sofrimento:

 

Dieß alles thust du auch bey mir,

Was bin ich wieder schuldig dir?

Ein Hertz was dich nur liebet,

Und dir allein

In Lieb und Pein

Demütig sich ergiebet.

 

(Dach, Geistliche Lieder. Trostgedichte. S. 462

 

[Isso tudo também o fazes comigo/ O que te devo, novamente?/ Um coração que apenas te ama/ e a ti apenas/Em amor e sofrimento/ humilde se entrega.]

 

 

Portanto, ao retornarmos à fig. 2, poderemos observar que o anjo representado no emblema XI de Jan Suderman[16] não é um mensageiro divino, um guardião individual ou ainda uma criatura celestial, mas, na realidade, o próprio Amor Divino que estende suas mãos em auxílio de uma criança. Essas mesmas mãos não se dirigem apenas a uma criança isolada em meio a um naufrágio e com risco iminente de afogamento, mas a toda alma humana que, desprotegida, se assemelha à criança que tem de ser levada pelo braço. Esta não está cercada pelas águas do mar, mas pela vida em tribulação, e por isso não há outras pessoas: só ela, pois o destino de sua vida lhe pertence, ou melhor, pertence a Deus que lhe concede o livre-arbítrio para buscá-lo e abrir-lhe as mãos para que possa aceitar seu pedido de perdão. Daí as mãos abertas e espalmadas em direção ao Amor Divino que a aceita e a acolhe como a criança que corre de encontro ao pai após o dia inteiro ter permanecido no jardim da infância.

 

 

 

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[1] Vale salientar que a religiosidade vista em Brentano começa a se formar quando o poeta reconverte-se ao catolicismo em 1817, provavelmente após o contato que manteve com a mística estigmatizada Anna Katharina Emmerich, sobre quem escreveu Das bittere Leiden unsers Herrn Jesu Christi. Nach den Betrachtungen der Gottseligen Anna Katharina Emmerich, 1833.

[[2] Por quem, inclusive, o poeta foi apaixonado.

[3] Na edição alemã traduzida de Martinho Lutero. Na edição brasileira, que optamos, está: Seus pecados estão perdoados (...) Sua fé salvou você. Vá em paz!.

[4] Conhecimento do pecado e a absolvição como banho de purgação da alma.

[5] Arrependimento das manchas (máculas).

[6] Não só a que consideramos clássica, como os gregos, romanos, inclusive a egípcia, mas também de vários outros povos como os chineses, os hindus, os persas.

[7] Ada Christen, pseudônimo de Christiane Rosalia Friederik, utiliza esse conceito em Einer do livro Lieder einer Verloren (Canções de uma perdida), de 1868. Há, na obra, vários poemas, cujo campo semântico gravita em torno do verbo weinen (chorar), talvez resulte daí sua utilização, não representando, a meu ver, uso corrente naquele momento.

[8] Na tradução de Lutero é utilizado Säue (porcas) não Schweine (porcos).

[9] Até poderíamos vê-los ou mesmo utilizá-los hoje, quando, ao ver tais imagens, falássemos a respeito do efeito estufa, do problema da elevação do nível dos mares, mesmo que não haja nenhuma relação com o tsunami – o fato retratado –, que é devido a fatores externos ao homem como, por exemplo, deslocamentos tectônicos na plataforma submarina ou quando placas mais densas deslizam sobre as menos densas (continentais).

[10] Como veremos, essa era uma visão totalmente antagônica à do homem seiscentista, que fazia sempre questão de colocar a finitude, a morte diante de si, como demonstram as obras do período. Só para citar dois exemplos literários temos: Quevedo ao escrever: comigo levo a terra e a morte (Cf. Maravall, op. cit. p. 269), e Gryphius:  Hier schawt der schwartze Todt zu beyden Augen aub [Aqui a morte negra espreita com ambos os olhos] (Gryphius, op. cit. p. 8).

[11] Como um caçador ou como um predador que caça exatamente o que quer e despreza o restante. Susan Sontag faz uma análise interessante quando compara a câmera fotográfica com as armas em um safári.

[12] Vemos isso quando Hensius, em sua obra de 1613, utiliza o estilo de Vaenius: em vez dos medalhões redondos rodeados de inscrições, encontramos marcos ovalados sem inscrição alguma (Praz, ibidem, p. 115), conforme a figura 20.

13] Como vemos o mundo hoje, nosso paradigma imagético.

[14] Digo de passagem, pois essa será uma análise ulterior dentro da tese.

[15] Vale salientar que esse conceito/imagem será empregado por muitos outros momentos literários, não sendo, portanto exclusivo do período ora abordado.

[16] Que possui, exatamente, a mesma forma do emblema XI de Hermannus Hugo, de 1624; do XI de Justus de Harduwijn, de 1629; demonstrando também que a relação que tinham de plágio era bem diversa da que temos hoje, como já havíamos dito anteriormente.