Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão
 
 
Apontamentos de linguística
 
 

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO LÉXICO[1] 

 

ETIMOLOGIA

 

Há dois usos que se fazem da palavra etimologia:

 

A etimologia científica é o estudo histórico que investiga a origem das palavras. Ela mostra, tipicamente, que há continuidade entre a forma e o sentido que as palavras têm hoje, e a forma e o sentido que elas apresentavam em fases mais antigas da língua. Por exemplo, a etimologia estabeleceu em bases científicas que a palavra portuguesa decidir se originou da palavra latina decidere, que significava "cortar". Do ponto de vista da forma, as principais mudanças dizem respeito à posição do acento (decídere > decidír) e ao timbre da vogal que identifica a conjugação (decidere > decidir). A mudança de sentido explica-se pelo fato de que, em certo momento, a tomada de decisão foi representada como um corte: quem toma uma decisão, corta uma parte, abre mão de alguma coisa.

 

A etimologia popular é uma prática não científica, por meio da qual as pessoas modificam as palavras de modo a fazer aparecer elementos que expliquem a sua significação. Assim, alguém que diga gosméticos em vez de cosméticos pode estar tentando interpretar esta palavra como "produtos à base de... gosma".

 

Uma definição etimológica é aquela que apresenta o sentido originário de uma palavra; são exemplos de definição etimológica, entre muitos outros:

 

Decidir é cortar

Definir é cercar delimitar

Agonia é luta

Virtude é macheza

 

O léxico da língua portuguesa falada no Brasil compreende palavras de várias origens, incorporadas em épocas diferentes. A parte mais "antiga" é formada de palavras de origem:

 

Latina, como casa, dono, Cláudio, Priscila;

Grega, como palavra, meteorologia, Alexandre, Felipe;

Germânica, como guarda, sabão, Rodrigo, Bernardo;

Árabe, como álgebra, alfinete, algodão, Jamil;

Indígena, como minhoca, botija, Ubirajara, Jurandir;

Africana, como mandinga, acarajé, Janaína;

 

Além dessas origens "mais antigas", o português recebeu palavras das inúmeras línguas com as quais os portugueses entraram em contato, durante as grandes navegações, bem como das línguas européias e asiáticas dos imigrantes que vieram ao Brasil a partir das últimas décadas do século XIX. Em todos os tempos inúmeros "empréstimos" passaram ao português, com inovações técnicas, científicas ou dos costumes.

 

Quando se fala da origem das palavras do português, sempre é bom lembra também que as palavras previamente existentes na língua são o material mais importante e mais usado para criações de novas formas.

 

Muitos verbos que dizem respeito às atividades abstratas originam-se de palavras que indicavam uma ação meramente física. Assim, pensar vem de pensare (pesar, pôr os pesos na balança) achar vem de affare (farejar – o cão que fareja a pista de um animal, acaba por encontrá-lo) etc. Esse procedimento ainda funciona hoje para a criação de novos sentidos, como exemplo, Governo congela preços de medicamentos.

 

 

DEFINIÇÕES

 

Uma definição é um pequeno texto em que se formula o significado de uma palavra. Em geral, ao definir uma palavra, identificamos a classe maior à qual pertencem os objetos que ela nomeia e, em seguida, apontamos as propriedades que distinguem esses objetos no interior dessa classe maior, como nestes exemplos:

 

(1) Monarquia é (2) uma forma de governo (3) em que o poder supremo é exercido por uma só pessoa.

 

(1) Triângulo é (2) um polígono (3) de três lados.

 

(1) palavra que se quer definir      (2) expressão que delimita uma classe maior  

(3) expressão que recorta uma subclasse, dentro da classe maior

 

 

Os verbos que mais aparecem nas definições são: ser, significar, consistir, constituir, etc.

As razões para definir podem ser várias:

 

Aumentar o vocabulário - diante de palavras desconhecidas, pode ser interessante definir para melhor compreensão do que foi dito.

 

Eliminar ambigüidades - quando uma palavra é ambígua em um contexto, isto é, quando não está claro em qual de seus sentidos está sendo usada, convém definir:

(1) para evitar que se tirem conclusões falsas;

(2) para evitar discussões meramente verbais.

 

Tomar exatos os limites de aplicação de palavras conhecidas, mas vagas - Por exemplo: "Neste texto, entenderemos por montanha toda elevação do terreno com mais de 500 metros acima do nível do mar". "Neste contrato,'produto' significa o inseticida PHD, objeto da presente transação comercial"

 

O que uma boa definição não deve ser:

 

Uma mera enumeração de exemplos: " Arranha-céus são, por exemplo, os edifícios tal e tal" (se, por acaso, os dois edifícios ficam na rua principal da cidade, alguém poderia entender que todo prédio da rua principal da cidade é um arranha-céu).

 

Circular: "azul é a cor do que é azul" ou "Confiança é a qualidade de quem confia".

 

Obscura - uma definição é obscura quando usa termos mais difíceis do que a palavra que pretende definir, possivelmente desconhecidos da pessoa a quem se destina etc. "Quimioterapia é uma forma de tratamento oncológico [...]" (possivelmente as pessoas que não sabem o que é quimioterapia, sabem menos ainda o que significa "oncológico").

 

Demasiado ampla: "Sapato é uma coisa que se põe nos pés" (as meias também cobrem os pés). "Ônibus é um veículo motorizado que transporta passageiros" (essa definição serve também para táxi etc.)

Demasiado estreita: "Bonde é o veículo que circula no Parque Taquaral, em Campinas" (no mundo, existem outros bondes, além do que circula aos domingos na Lagoa do Taquaral em Campinas)

 

Figurada: "A arquitetura é música congelada", "Uma árvore é um cabide de folhas", "Um pente é um caçador de piolhos"

 

Negativa quando pode ser positiva: "Um divã não é uma cama nem uma cadeira" (a avó do presidente do Senado também não é uma cama nem uma cadeira).

 

O que é o que é?

As adivinhas são às vezes um jogo em que se dá a definição de uma palavra, pedindo que as pessoas envolvidas na brincadeira descubram a própria palavra. Aqui vão algumas adivinhas bastante conhecidas, procure responder.

 

a) Tem dente mas não come, tem barba mas não é homem.

b) Redondinho, redondão, abre e fecha sem cordão.

c) Corre no mato, pára na terra.

d) Quando entra em casa, fica com a cabeça de fora.

e) Cai de pé e corre deitado.

f) Tem asa, mas não é ave, tem bico, mas não é pássaro.

g) Eu fui feito com pancada, só sirvo se for bem torto. Vou procurar quem está vivo, espetadinho num morto.

h) Sob a terra ela nasceu, sem a camisa a deixaram; todos aqueles que a feriram, a chorar logo ficaram.

 

Há definições jocosas do tipo:

a) Assadeira de frango é televisão de cachorro;

b) Pente é caçador de piolhos.

 

São comuns na imprensa manifestações de profissionais liberais transmitindo aos leitores informações sob questões técnicas de interesse social. O texto a seguir, de autoria de um advogado, elabora uma distinção relevante para definir as responsabilidades de uma certa categoria social, em caso de insucesso:

 

(...) os processos judiciais contra médicos são complexos em razão da dificuldade de aferição da culpa pelo dano sofrido. A responsabilidade civil dos médicos em ações de indenização é, em geral, de meios e não de resultado. A obrigação de meios ocorre quando um profissional assume prestar um serviço ao qual dedicará toda a sua atenção, cuidado e conhecimento através das regras consagradas pela prática médica, sem se comprometer com a obtenção de um certo resultado. A obrigação do resultado é aquela em que o profissional se compromete a realizar um certo fim, a alcançar um determinado resultado. As exceções consagradas pela jurisprudência são a cirurgia estética embelezadora e a anestesia, atos médicos tidos como obrigações de resultado. Desde que o ordenamento jurídico brasileiro, a doutrina e a jurisprudência consagraram a necessidade da prova de culpa para aquele que pretenda uma indenização por ato ilícito de outrem, a prova desta mesma culpa, no caso dos médicos, tendo obrigação geral de meios, reside na comprovação de que o profissional agiu com falta de cuidado ou deixou de aplicar a prática dos recursos usuais da ciência médica aplicáveis ao caso concreto (Rafael Maines, "Responsabilidades". Diário Catarinense, 25.8.2001.)

 

a) Diga, sucintamente, qual é a distinção apresentada no texto, e como ela afeta a categoria profissional em questão.

 

b) Imagine que você mandou consertar um equipamento qualquer, mas o conserto não foi bem-sucedido. Formule uma breve reclamação, partindo do princípio de que a firma responsável pelo conserto tinha obrigação de meios, não de resultados.

 

c) Nos dicionários, as palavras aparecem em geral associadas a vários sentidos. Para consagrar, o dicionário Houaiss anota, entre outros, os seguintes: "1. Investir( -se) de caráter ou funções sagradas, dedicando( -se), por meio de um rito, a uma ou mais de uma divindade; sagrar. 2. Entre os católicos e em certas seitas protestantes, operar a transubstanciação pelo rito da Eucaristia. 3. Oferecer(-se) a Deus, a um santo etc. por meio de voto ou promessa [...] 4. Aclamar, eleger, promover,elevar. 5. Reconhecer como legítimo: acolher, sancionar. 6. jurar pela hóstia consagrada".

 

Supondo que você tenha dúvidas sobre o sentido de "consagradas" ("Exceções consagradas") e "consagraram" ("a doutrina e a jurisprudência consagraram"), em qual das definições se apoiaria para aproximar-se da acepção que essas palavras têm no texto?

 

 

SINONÍMIA

 

Os sinônimos são palavras de sentido próximo, que se prestam, ocasionalmente, para descrever as mesmas coisas e as mesmas situações. Mas é sabido que não existem sinônimos perfeitos: assim, a escolha entre dois sinônimos acaba dependendo de vários fatores a serem explorados.

 

A escolha entre dois ou mais sinônimos obedece a vários fatores:

 

A fidelidade às características regionais da fala: sentinela é a palavra usada em Minas Gerais para indicar a prática que, em São Paulo (e em muitas outras regiões do Brasil) se denomina velório. Conforme a região, não é possível usar livremente uma palavra pela outra, sem correr o risco de não ser compreendido;

 

A preocupação de ressaltar diferenças de sentido, que podem assumir grande importância num discurso mais técnico: para as pessoas comuns, furto e roubo são exatamente a mesma coisa; para a lei, há uma diferença: no roubo a vítima sempre sofre algum tipo de violência;

 

A preocupação de ressaltar diferenças entre os objetos de que se fala: as palavras mandioca, aipim e macaxeira são às vezes lembradas como os nomes para uma mesma raiz, da qual grande parte da população brasileira tira sua alimentação. Mas isso é apenas parte da história. Em muitas regiões, dois desses termos são usados para distinguir plantas que são cultivadas e preparadas de maneiras diferentes.

 

O grau de formalismo da fala: uma atividade desagradável pode ser qualificada de chata, aborrecida ou mofina, mas é pouco provável que a primeira dessas expressões apareça num discurso de posse de um ministro (situação de fala altamente formal), e é pouco provável que a última expressão apareça num diálogo de adolescentes (situação de fala informal).

 

A preocupação em destacar, no objeto descrito, certos aspectos de forma ou função: um mesmo prédio pode ser descrito, em momentos diferentes, como uma casa, a sede de um clube, o local de um crime etc.

Leia o poema e observe que, nos significados abaixo, foram transcritos apenas os sinônimos adequados para cada palavra, de acordo com o texto.

 

A morte do jangadeiro

 

Ao sopro do terral, abrindo a vela,

Na esteira azul das águas arrastada,

Segue veloz a intrépida jangada,

Entre os uivos do mar que se encapela.

 

Prudente, o jangadeiro se acastela

Contra os mil incidentes da jornada;

Fazem-Ihe, entanto, guerra encarniçada,

O vento, a chuva, os raios, a procela.

 

Súbito, um raio o prostra e, furioso,

Da jangada o despeja n'água escura;

E em brancos véus de espuma o desditoso

 

Envolve e traga a onda intumescida,

Dando-lhe, assim, mortalha e sepultura

O mesmo mar que o pão lhe dera em vida.

 

Padre Antônio Tomás. Príncipe dos poetas cearenses. Fortaleza, Tipografia Paulina, 1950.

 

terral - terrestre, vento que sopra da terra para o mar

intrépida - destemida, corajosa

(se) encapela - (se) agita, (se) encrespa

(se) acastela - (se) previne

encarniçada - raivosa, violenta, irada

procela - tempestade marítima

prostra - abate

desditoso - infeliz, desventurado

traga - engole, faz desaparecer

intumescida - inchada, avolumada, crescida

 

Assim, no dicionário, aparecem vários significados de cada palavra. E necessário escolher apenas aqueles que sejam mais apropriados ao contexto em que a palavra se insere. Abaixo, compare alguns verbetes do dicionário com os significados da página anterior e veja que só foram copiados os sinônimos apropriados ao texto.

 

Encapelar, v.t. Levantar ondas; encrespar (o mar); agitar.

Acastelar, v.t. Fortificar com castelo; construir como castelo; fortificar; p. fortificar-se; prevenir-se; precaver-se, encastelar-se.

Prostrar, v.t. Lançar por terra; humilhar; abater; enfraquecer; debilitar; lançar-se de bruço no chão; humilhar-se.

Tragar, v.t. Devorar; beber; engolir de um trago; engolir com avidez e sem mastigar; agüentar; tolerar; fazer desaparecer; engolir a fumaça do tabaco.

 

 

ANTONÍMIA

 

Informalmente, as pessoas costumam chamar de antônimas quaisquer palavras ou expressões que podem ser colocadas em oposição: nascer vs. morrer, ir vs. vir, grande vs. pequeno etc. Os antônimos costumam ser comparados aos pares e entre dois antônimos que formam par há sempre uma propriedade em comum. Assim, grande e pequeno indicam tamanho; ir e vir indicam deslocamento; nascer e morrer são os dois extremos do mesmo processo de viver etc.

 

Os antônimos formam pares que se referem a realidades "opostas":

 

Ações: perdi o lápis, mas em compensação achei uma nota de 10 reais.

Qualidades: a sopa estava quente, mas o café estava frio.

Relações: o gato estava embaixo da mesa; a gaiola do canário estava sobre a mesa.

 

A "oposição" existente entre dois antônimos pode ter fundamentos diferentes:

 

diferentes posições numa mesma escala. Ex. quente e frio representam duas posições na escala da temperatura.

início e fim de um mesmo processo: florescer e murchar.

diferentes papéis numa mesma ação: bater e apanhar.

 

Encontramos antônimos entre:

substantivos: bondade versus maldade

adjetivos: duro versus mole

verbos: dar versus receber

advérbios: lá versus cá

preposições: sobre versus sob

etc.

 

Costuma-se pensar na antonímia como uma relação de oposição que diz respeito às palavras, no sistema da língua. Mas os textos podem construir oposições entre palavras e expressões que, normalmente, não consideraríamos como antônimas.

O quereres

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

Caetano Veloso

 

 

ARCAÍSMOS

 

Chamamos de arcaísmos as expressões que, tendo já sido de uso corrente na língua, caíram em desuso; quando usadas, refletem um estado de língua mais antigo. Os arcaísmos são pouco comuns na fala corrente; aparecem mais freqüentemente na literatura, em especial naqueles gêneros em que as obras do passado continuam servindo de referência à produção dos autores contemporâneos e em autores que fazem do arcaísmo um recurso de estilo.

 

É possível encontrar arcaísmos em todos os domínios da língua: vocabulário, morfologia, sintaxe... Constituem arcaísmo:

 

No léxico, o uso de certas palavras, por exemplo, coita por angústia, mil-réis ou contos de réis por reais etc.

 

Na morfologia: formas "antigas", com o artigo definido el: el rei e certos particípios passados que sobrevivem apenas em frases feitas (ex. teúda e manteúda).

 

Na sintaxe: a anteposição do pronome átono à palavra que o "atrai", como na fórmula "Esta São Paulo onde eu me criei", recorrente nos discursos de campanha do então candidato a governador Jânio Quadros.

 

Com freqüência, o arcaísmo consiste em usar uma palavra com um sentido que ela já teve, mas que hoje não é corrente: se alguém usar, hoje em dia, a palavra formidável com o sentido de "assustador", estará falando como os escritores do século XVI.

 

Com freqüência "as falas mais tipicamente regionais continuam usando formas e expressões que, do ponto de vista da língua brasileira comum seriam arcaicas. As razões por que as palavras e construções se tornam arcaicas são várias:

 

- Os objetos, técnicas e hábitos correspondentes caíram em desuso;

- A palavra perdeu a ligação com outras que tinham origem comum.

 

A língua sofreu um processo de "regularização" que fez desaparecer formas parcialmente diferenciadas. Em uma fase muito antiga da língua portuguesa, o feminino de senhor era senhor (isso mesmo: os trovadores medievais qualificavam sua amada de "fremosa mia senhor") e os adjetivos terminados em -ês formavam o feminino em -ês (isso mesmo: uma princesa leonês) - essas formas modificaram-se mais tarde para receber a terminação -a, que hoje é a terminação generalizada dos femininos: formosa senhora, princesa leonesa.

 

Exemplos de arcaísmos:

  • OrtográficosFrancez (francês), gráo (grau), hymno (hino).

  • MorfológicosCidadoa (feminino com desinência em -oa, em vez de -ãCidadã), pagado (em vez de “pago”), recebel-o (pronome oblíquo “o” em vez de “lo” nas flexões verbais – Recebê-lo).

  • VocabularesAvença (“Concórdia”. O antônimo “desavença” permanece em uso), cáspite! (puxa! caramba!), leixar (deixar).

  • SintáticosComeçar cantar (começar a cantar), todos homens (todos os homens), Joaquim vindo de São Paulo para Barretos... (em vez de “Vindo Joaquim de São Paulo para Barretos”...).

  • Semânticoscatar (“olhar”. Sentido atual mais comum: “pegar”, “escolher um a um”), Formidável (“amedrontador”. O sentido atual é “excelente”, “magnífico”).

Algumas formas arcaicas ainda resistem em falares regionais. No Brasil, observam-se, especialmente no Nordeste, pronúncias como fruita (fruta), malinar (verbo formado a partir de malino, atual “maligno”), vĩo (vinho), testemunhas vivas de usos lingüísticos de séculos atrás.

Muitas são as palavras que, mesmo registradas no Aurélio, apresentam na linguagem popular  uma significação diferente:

 

 

Aurélio

popular

biboca

cova, casebre

batente

bruaca

bolsa

boca muito grande

cabroeira

coletivo de cabras

multidão

cubar

avaliar ou medir

observar disfarçadamente

copiar

Alpendre

sala de visitas

magote

grande quantidade

grupo de desocupados

tipóia

mulher ordinária

rede velha ou pequena

 

Veja como foi escrito, originalmente, este famoso soneto de Olavo Bilac ( Via Láctea XIII).

XIII

Ora (direis) ouvir estrellas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no emtanto,
Que, para ouvil-as, muita vez desperto
E abro as janellas, pallido de espanto...

E conversamos toda a noite, emquanto
A via-láctea, como um pallio aberto,
Scintilla. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céo deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com ellas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão comtigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendel-as!
Pois só quem ama póde ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrellas.

 

 NEOLOGISMO

É um fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova, ou na atribuição de novo sentido a uma antiga; pode ser um comportamento espontâneo próprio do ser humano ou meramente artificial para fins pejorativos.

O neologismo está muito presente, atualmente, nas discussões e/ou assuntos ligados ao campo da Internet; é possível observá-lo com muita frequência em salas de bate-papo (chat), no orkut (redes sociais) ou mesmo nos e-mails pessoais. Alguns exemplos conhecidos: rs ou lol (risada), vc (você), blz (beleza), dd tc (de onde teclas?), fx (fixe), etc.

Os neologismos muitas vezes constroem-se com auxílio dos mecanismos usuais de produção lexical, como a composição (justaposição, aglutinação, prefixação) e a derivação, geralmente por sufixação, como os exemplos brasileiros "petismo" (de PT) e "pefelista" (de PFL), ou os exemplos portugueses "Cavaquista" (de Cavaco) ou "Soarista" (de Soares).

Um exemplo prático, muito usado no Brasil, é o caso do termo "refri" onde se faz uso de um neologismo, uma vez que esta palavra é uma criação relativamente recente. Outro exemplo pode ser Renatear: agir da mesma forma que Renata. Dizer o que ela diria em determinada situação.

 

No decorrer da história, a Língua Portuguesa vem sofrendo constantes modificações. Ela é dinâmica e, portanto, renova-se constantemente. Essas transformações consistem não só na alteração fonética das palavras, mas também na introdução ou criação de novas frases e vocábulos, ou ainda na reintegração de palavras arcaicas do idioma que, na sua grande maioria, possuem novas significações. Os neologismos podem ser criações da própria língua, ou incorporações de termos estrangeiros ao idioma. Segundo a Gramática Normativa da Língua Portuguesa, de Francisco da Silva Bueno, o neologismo (que significa: palavra nova) pode ser classificado em várias espécies:


I - Neologismo literário


Os escritores criam palavras novas ou dão novos significados às palavras já existentes, no entanto, esse artifício é usado somente para fins puramente literários, artísticos ou estilísticos. Exemplos:

 

ð  Necrotério – criação de Taunay, grande romancista brasileiro. Necrotério (gr. Nelcros + terion). Construção onde se depositam os cadáveres; local onde os cadáveres são expostos para identificação; lugar onde jazem os cadáveres que vão ser autopsiados. Esta palavra foi criada para substituir o francesismo morge.

ð  Vesperal (espetáculo) - S.M. Neologismo feito por Cláudio de Sousa para substituir  Matinee.

ð  Convescote – S.M. Bras. Piquenique; criação de Castro Lopes, assim como, cardápio (menu).

 

ð  Vocabulário de Guimarães Rosa:

  • Nhô: Senhor

  • Capiau: homem caipira

  • Sarilho: ação de mover um pau ou arma rapidamente em volta para afastar os circunstantes.

  • Adro: área de terreno em frente da fachada de igrejas católicas, onde antigamente se tinha o costume de enterrar cadáveres.

  • Siá: Senhora

  • Unhaca: unha-de-fome

  • Pachorrenta: falta de pressa; devagar.

  • Biboca: buraco produzido por enxurrada; cova.

  • Alarido: gritaria de pessoas que brigam, lamentam, choram.

 

II - Neologismos científicos ou técnicos


Todas as nomenclaturas das ciências novas: os nomes das máquinas, aparelhos, invenções, a linguagem da Química, da Eletrodinâmica, da Telegrafia, da Radiotelegrafia, da Aviação. Exemplos:

ð  Aeromoça – tripulante que nos aviões serve as refeições aos passageiros e lhes presta outros serviços.

ð  Táxi (forma reduzida de taxímetro) - automóvel de aluguel ou qualquer veículo de frete; registro de preço a pagar, em função do tempo em que é alugado o veículo.

ð  Microfone - S.M. (gr. Mikros + phone). Aparelho de intensificação do som, inventado por Hughes: aparelho eletrostático de ondas sonoras que transforma as ondas de pressão em força eletromagnética.

ð  Telefone – S.M. [gr. Tele (longe) + phone (som, voz)]. Aparelho que permite a transmissão de voz através de fios e disposições elétricas.

 

Nota: há neologismos científicos ou técnicos que são formados a partir de siglas: CPF, CPI, ONG, CD; um caso muito conhecido é o do neologismo LASER (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation) ou também a sigla AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrome) e DST (Doença Sexualmente Transmissível).


III - Neologismo popular


Em sua necessidade de expressão, o povo cria novos termos ou dá novos significados a termos já conhecidos. Exemplos:

 

ð  Gato - S.M. Ligação clandestina de eletricidade. Ex. No morro da Rocinha, a maior favela da América Latina, a maioria dos barracos tem a sua energia elétrica sustentada por gatos.

ð  Prensadão - S.M. O substantivo cachorro quente, nome relacionado ao sanduíche de pão com salsichas, quando prensado em uma chapa quente recebe o nome de prensado. Numa pesquisa de campo constatou-se que, quando o suposto cachorro quente prensado possui medidas maiores que as do padrão, recebe o nome de prensadão. Ex. Eu quero um prensadão completo!

ð  Laranja – S.M. Falso proprietário. Ex. Pedro serviu de laranja para o estelionato.

ð  Embuchar - V.T. significa engravidar. Ex. Joaquina “ta embuchada” de três meses.

ð  Mané – S.M. Indivíduo inepto, indolente, desleixado, negligente, palerma. Também se diz mané-coco, manema e manembro. Ex. Não dá bola pra esse mané!

ð  Papudo - Adj. Fanfarrão, gabola, garganta. Ex. Você é muito papudo!

 


IV - Neologismo completo


Este nome refere-se ao neologismo que é criação quanto à forma e criação quanto ao sentido. Exemplos:

=> Necrotério - relaciona-se somente ao lugar onde se expõem os cadáveres que vão ser autopsiados ou identificados.

=> Microfone - relaciona-se somente ao dispositivo que, no posto transmissor, capta o som que vai ser levado aos receptores através de ondas hertzianas.

 

V - Neologismo incompleto


Assim denominam-se os vocábulos já existentes na língua que tomaram novas significações. Exemplos:

=> Formidável - Adj. Este vocábulo já teve o sentido de temível, terrível, que inspira grande temor, perigoso. Hoje é usado basicamente com o sentido de maravilhoso, acima do comum, admirável, excelente.

=> Papudo - Adj. Aquele que tem papo grande. Atualmente aplicado ao individuo fanfarrão, gabola.

 
=> Picareta – S.F. Instrumento de ferro com duas pontas que serve para escavar a terra e arrancar pedras. Hoje este termo vem sendo mais aplicado ao individuo de má índole, insinuante, tratante.



VI - Neologismo estrangeiro

 
São palavras que adotamos de outras línguas por nos faltarem vernáculas; a tendência mais comum é a de escrevê-las de maneira aportuguesada. Exemplos:


=> Futebol - S.M. Do inglês foot-ball

=> Abajur-S. M. É o francês abat-jour.

=> Bebê – S.M. Criancinha vem do francês bébé. Antigamente foi o nome de um anão da corte de Estanislau Leczynski. Pode ter sido também originada de palavra inglesa baby.

=> Carpete – S.M. Do inglês carpet; tapete que reveste inteiramente um cômodo, em geral afixado ou colado ao chão.

=> Bracelete – S.M. pulseira. Fr. Bracelet

=> Buquê – S.M. ramo de flores. Fr. Bouquet.

=> Skate – S.M. Prancha com rodinhas, se escreve exatamente como no original.

=> Bicicleta – S.F. velocípede de duas rodas. Fr. Bicyclette

=> Bife – S.M. Posta de carne de vaca, do inglês beef.

=> Bidê – S.M. criado mudo. Fr. Bidet

=> Xérox – (cherocs).Do inglês xerox. Nome registrado, arte gráfica, fotocópia.

=> Shopping - reunião de lojas comerciais, serviços de utilidade pública, casas de espetáculo, etc., em um só conjunto arquitetônico.

=> Show – espetáculo de teatro, radio, televisão, etc. geralmente de grande montagem, que se destina à diversão.

 

Causas do neologismo


A principal causa é a necessidade de expressão: Com o surgimento de novas invenções, novos objetos, novos conceitos, enfim, novas idéias; faz-se necessário o aparecimento de novos nomes que se adaptem ao significado daquilo que os representa. Se não há nenhum vocábulo que possa ser adaptado, é imprescindível criar-se um, uma nova palavra, algo especial.


Outro fator é a inclinação do espírito humano para especificar, classificar, catalogar, ou mesmo positivar as diferenças existentes entre os seres, dando a cada uma delas o devido nome, algo que corresponda a essa necessidade de clareza e de especificação. Exemplos: Papudo, mane, picareta.


Para que o neologismo vença e se radique na língua basta uma só condição: ser necessário a uma precisão do espírito humano. Mas se tal necessidade não existe, poderá manter-se por meses, desaparecendo, certamente, apesar de todos os esforços dos autores.


Nota: para que o neologismo radique na língua é necessário que haja necessidade no emprego do termo a uma expressão, tais termos não foram aceitos, pois não correspondiam a uma necessidade e expressão. Outra causa é a rapidez da expressão: em lugar de expressão bastante longa - “apresentar felicitações” - diz-se logo - “felicitar” - e aparece assim o neologismo.


Os neologismos científicos e literários são feitos do grego e do latim, muitas vezes combinados com o idioma pátrio: televisão (tele= grego; visão= português), gasogênio (gás= germânico; gênio= grego), glossofone (ambos gregos). Quando o neologismo é formado de elementos pertencentes a uma mesma língua, diz-se que está bem feito; quando os elementos são de idiomas diferentes, diz-se que é híbrido. Hibridismo é, pois, a formação de um vocábulo com elementos de diversas línguas: gasogênio, televisão, mandão-mirim. Os neologismos populares são todos adaptações de termos já existentes na língua e, portanto, de origem vernácula.

 

Conclusão

É comum que, com o tempo e o uso, determinados termos ou expressões neológicas se enraízem ou não na língua. Portanto, não se deve impedi-los de transitar livremente, pois, contribuem para o enriquecimento e evolução do idioma e, conforme a necessidade ou não, naturalmente tais termos terão parte efetiva no uso comum do vernáculo. Conforme as palavras de Francisco da Silveira Bueno: “o uso é o senhor da língua”.

 

Neologismo  
Manuel Bandeira

 

Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teodora.

 

ESTRANGEIRISMOS

 

Ao longo de sua história (que começa pouco antes do movimento do trovadorismo, fortemente influenciado pela poesia provençal), a língua portuguesa sofreu a influência das numerosas línguas com que esteve em contato. Essa influência se fez sentir pela incorporação de palavras e construções que representam, em geral, um enriquecimento.

 

Nenhuma língua escapa de sofrer influências externas; no patrimônio lexical mais antigo da língua portuguesa já se encontram palavras criadas em outras línguas, em particular o provençal, o espanhol e o árabe. Outras línguas que exerceram influência sobre o português do Brasil são o francês, o italiano e o alemão, além, é claro, das línguas africanas e das línguas indígenas brasileiras. A língua que exerce hoje a mais forte influência sobre o português do Brasil é o inglês.

 

As formas derivadas de línguas estrangeiras são reconhecidas por algum tempo como tais. Paulatinamente, as formas estrangeiras adotam pronúncia e grafia mais "vernáculas", e começam a dar origem a novas palavras e expressões com feições também vernáculas. Nesse ponto do processo, já é quase impossível distingui-las das formas que foram criadas dentro da própria língua.

 

De tempos em tempos, a incorporação de palavras estrangeiras foi vista como um problema por gramáticos, escritores e políticos: os mesmos argumentos foram então usados (de maneira pouco convincente, e, afinal, sem resultados práticos) para provar que as palavras estrangeiras "corrompem" a língua portuguesa e constituem um vício de linguagem - o barbarismo - que deve ser combatido a todo preço.

 

PROJETO DE LEI N°1676, DE 1999 (Do Sr. ALDO REBELO)

 

Dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa e dá outras providências.

 

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º Nos termos do caput do art. 13, e com base no caput, I, § 1° e § 4° do art. 216 da Constituição Federal, a língua portuguesa:

I- é o idioma oficial da República Federativa do Brasil;

II- é forma de expressão oral e escrita do povo brasileiro, tanto no padrão culto como nos moldes populares;

III- constitui bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro.

Parágrafo único. Considerando o disposto no caput, I, II e III deste artigo, a língua portuguesa é um dos elementos da integração nacional brasileira, concorrendo, juntamente com outros fatores, para a definição da soberania do Brasil como nação.

 

Art. 2º Ao Poder Público, com a colaboração da comunidade, no intuito de promover, proteger e defender a língua portuguesa, incumbe:

I- melhorar as condições de ensino e de aprendizagem da língua portuguesa em todos os graus, níveis e modalidades da educação nacional;

II- incentivar o estudo e a pesquisa sobre os modos normativos e populares de expressão oral e escrita do povo brasileiro;

III- realizar campanhas e certames educativos sobre o uso da língua portuguesa, destinados a estudantes, professores e cidadãos em geral;

IV- incentivar a difusão do idioma português, dentro e fora do País;

V- fomentar a participação do Brasil na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa;

VI- atualizar, com base em parecer da Academia Brasileira de Letras, as normas do Formulário Ortográfico, com vistas ao aportuguesamento e à inclusão de vocábulos de origem estrangeira no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa

§ 1º Os meios de comunicação de massa e as instituições de ensino deverão, na forma desta lei, participar ativamente da realização prática dos objetivos listados nos incisos anteriores.

§ 2º À Academia Brasileira de Letras incumbe, por tradição, o papel de guardiã dos elementos constitutivos da língua portuguesa usada no Brasil.

 

Art. 3º É obrigatório o uso da língua portuguesa por brasileiros natos e naturalizados, e pelos estrangeiros residentes no País há mais de 1 (um) ano, nos seguintes domínios socioculturais:

I- no ensino e na aprendizagem;

II- no trabalho;

III- nas relações jurídicas;

IV- na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica oficial;

V- na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica em eventos públicos nacionais;

VI- nos meios de comunicação de massa;

VII- na produção e no consumo de bens, produtos e serviços;

VIII- na publicidade de bens, produtos e serviços.

§ 1º A disposição do caput, I- VIII deste artigo não se aplica:

I- a situações que decorram da livre manifestação do pensamento e da livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, nos termos dos incisos IV e IX do art. 5º da Constituição Federal;

II- a situações que decorram de força legal ou de interesse nacional;

III- a comunicações e informações destinadas a estrangeiros, no Brasil ou no exterior;

IV- a membros das comunidades indígenas nacionais;

V- ao ensino e à aprendizagem das línguas estrangeiras;

VI- a palavras e expressões em língua estrangeira consagradas pelo uso, registradas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa;

VII- a palavras e expressões em língua estrangeira que decorram de razão social, marca ou patente legalmente constituída.

§ 2º A regulamentação desta lei cuidará das situações que possam demandar:

I- tradução, simultânea ou não, para a língua portuguesa;

II- uso concorrente, em igualdade de condições, da língua portuguesa com a língua ou línguas estrangeiras.

 

Art. 4º Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira, ressalvados os casos excepcionados nesta lei e na sua regulamentação, será considerado lesivo ao patrimônio cultural brasileiro, punível na forma da lei.

Parágrafo único. Para efeito do que dispõe o caput deste artigo, considerar-se-á:

I- prática abusiva, se a palavra ou expressão em língua estrangeira tiver equivalente em língua portuguesa;

II- prática enganosa, se a palavra ou expressão em língua estrangeira puder induzir qualquer pessoa, física ou jurídica, a erro ou ilusão de qualquer espécie;

III- prática danosa ao patrimônio cultural, se a palavra ou expressão em língua estrangeira puder, de algum modo, descaracterizar qualquer elemento da cultura brasileira.

Art. 5º Toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira posta em uso no território nacional ou em repartição brasileira no exterior a partir da data da publicação desta lei, ressalvados os casos excepcionados nesta lei e na sua regulamentação, terá que ser substituída por palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data de registro da ocorrência.

Parágrafo único. Para efeito do que dispõe o caput deste artigo, na inexistência de palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa, admitir-se-á o aportuguesamento da palavra ou expressão em língua estrangeira ou o neologismo próprio que venha a ser criado.

 

Art. 6º. A regulamentação desta lei tratará das sanções administrativas a serem aplicadas àquele, pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que descumprir qualquer disposição desta lei.

 

Art. 7º A regulamentação desta lei tratará das sanções premiais a serem aplicadas àquele, pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que se dispuser, espontaneamente, a alterar o uso já estabelecido de palavra ou expressão em língua estrangeira por palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa.

 

Art. 8º À Academia Brasileira de Letras, com a colaboração dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, de órgãos que cumprem funções essenciais à justiça e de instituições de ensino, pesquisa e extensão universitária, incumbe realizar estudos que visem a subsidiar a regulamentação desta lei.

 

Art. 9º O Poder Executivo regulamentará esta lei no prazo máximo de 1 (um) ano a contar da data de sua publicação.

 

Art. 10. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

JUSTIFICATIVA

A História nos ensina que uma das formas de dominação de um povo sobre outro se dá pela imposição da língua. Por quê? Porque é o modo mais eficiente, apesar de geralmente lento, para impor toda uma cultura - seus valores, tradições, costumes, inclusive o modelo socioeconômico e o regime político.

Foi assim no antigo oriente, no mundo greco-romano e na época dos grandes descobrimentos. E hoje, com a marcha acelerada da globalização, o fenômeno parece se repetir, claro que de modo não violento; ao contrário, dá-se de maneira insinuante, mas que não deixa de ser impertinente e insidiosa, o que o torna preocupante, sobretudo quando se manifesta de forma abusiva, muitas vezes enganosa, e até mesmo lesiva à língua como patrimônio cultural.

De fato, estamos a assistir a uma verdadeira descaracterização da língua portuguesa, tal a invasão indiscriminada e desnecessária de estrangeirismos - como "holding", "recall", "franchise", "coffee-break", "self-service" - e de aportuguesamentos de gosto duvidoso, em geral despropositados - como "startar", "printar", "bidar", "atachar", "database". E isso vem ocorrendo com voracidade e rapidez tão espantosas que não é exagero supor que estamos na iminência de comprometer, quem sabe até truncar, a comunicação oral e escrita com o nosso homem simples do campo, não afeito às palavras e expressões importadas, em geral do inglês norte-americano, que dominam o nosso cotidiano, sobretudo a produção, o consumo e a publicidade de bens, produtos e serviços, para não falar das palavras e expressões estrangeiras que nos chegam pela informática, pelos meios de comunicação de massa e pelos modismos em geral.

Ora, um dos elementos mais marcantes da nossa identidade nacional reside justamente no fato de termos um imenso território com uma só língua, esta plenamente compreensível por todos os brasileiros de qualquer rincão, independentemente do nível de instrução e das peculiaridades regionais de fala e escrita. Esse - um autêntico milagre brasileiro - está hoje seriamente ameaçado.

Que obrigação tem um cidadão brasileiro de entender, por exemplo, que uma mercadoria "on sale" significa que esteja em liquidação? Ou que "50% off" quer dizer 50% a menos no preço? Isso não é apenas abusivo; tende a ser enganoso. E à medida que tais práticas se avolumam (atualmente de uso corrente no comércio das grandes cidades), tornam-se também danosas ao patrimônio cultural representado pela língua.

O absurdo da tendência que está sendo exemplificada permeia até mesmo a comunicação oral e escrita oficial. É raro o documento que sai impresso, por via eletrônica, com todos os sinais gráficos da nossa língua; até mesmo numa cédula de identidade ou num talão de cheques estamos nos habituando com um "Jose" - sem acentuação! E o que falar do serviço de "clipping" da Secretaria de Comunicação Social da Câmara dos Deputados, ou da "newsletter" da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano da Presidência da República, ou, ainda, das milhares de máquinas de "personal banking" do Banco do Brasil - Banco DO BRASIL - espalhadas por todo o País?

O mais grave é que contamos com palavras e expressões na língua portuguesa perfeitamente utilizáveis no lugar daquelas (na sua quase totalidade) que nos chegam importadas, e são incorporadas à língua falada e escrita sem nenhum critério lingüístico, ou, pelo menos, sem o menor espírito de crítica e de valor estético.

O nosso idioma oficial (Constituição Federal, art. 13, caput) passa, portanto, por uma transformação sem precedentes históricos, pois que esta não se ajusta aos processos universalmente aceitos, e até desejáveis, de evolução das línguas, de que é bom exemplo um termo que acabo de usar - caput, de origem latina, consagrado pelo uso desde o Direito Romano.

Como explicar esse fenômeno indesejável, ameaçador de um dos elementos mais vitais do nosso patrimônio cultural - a língua materna -, que vem ocorrendo com intensidade crescente ao longo dos últimos 10 a 20 anos? Como explicá-lo senão pela ignorância, pela falta de senso crítico e estético, e até mesmo pela falta de auto-estima?

Parece-me que é chegado o momento de romper com tamanha complacência cultural, e, assim, conscientizar a nação de que é preciso agir em prol da língua pátria, mas sem xenofobismo ou intolerância de nenhuma espécie. É preciso agir com espírito de abertura e criatividade, para enfrentar - com conhecimento, sensibilidade e altivez - a inevitável, e claro que desejável, interpenetração cultural que marca o nosso tempo globalizante. Esse é o único modo de participar de valores culturais globais sem comprometer os locais.

A propósito, MACHADO DE ASSIS, nosso escritor maior, deixou-nos, já em 1873, a seguinte lição: "Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade." (IN: CELSO CUNHA, Língua Portuguesa e Realidade Brasileira, Rio de Janeiro, Edições Tempo Brasileiro Ltda., 1981, p. 25 - na ortografia original de 1968).

Os caminhos para a ação, desde que com equilíbrio machadiano, são muitos, e estão abertos, como apontado por EDIRUALD DE MELLO, no seu artigo O português falado no Brasil: problemas e possíveis soluções, publicado em CADERNOS ASLEGIS, n° 4, 1998.

O Projeto de Lei que ora submeto à apreciação dos meus nobres colegas na Câmara dos Deputados representa um desses caminhos.

Trata-se de proposição com caráter geral, a ser regulamentada no pormenor que vier a ser considerado como necessário. Objetiva promover, proteger e defender a língua portuguesa, bem como definir o seu uso em certos domínios socioculturais, a exemplo do que tão bem fez a França com a Lei n° 75-1349, de 1975, substituída pela Lei n° 94-665, de 1994, aprimorada e mais abrangente.

Quer-me parecer que o PL proposto trata com generosidade as exceções, e ainda abre à regulamentação a possibilidade de novas situações excepcionais. Por outro lado, introduz as importantes noções de prática abusiva, prática enganosa e prática danosa, no tocante à língua, que poderão representar eficientes instrumentos na promoção, na proteção e na defesa do idioma pátrio.

A proposta em apreço tem cláusula de sanção administrativa, em caso de descumprimento de qualquer uma de suas provisões, sem prejuízo de outras penalidades cabíveis; e ainda prevê a adoção de sanções premiais, como incentivo à reversão espontânea para o português de palavras e expressões estrangeiras correntemente em uso.

Nos termos do projeto de lei ora apresentado, à Academia Brasileira de Letras continuará cabendo o seu tradicional papel de centro maior de cultivo da língua portuguesa do Brasil.

O momento histórico do País parece-me muito oportuno para a atividade legislativa por mim encetada, e que agora passa a depender da recepção compreensiva e do apoio decisivo da parte dos meus ilustres pares nesta Casa.

A afirmação que acabo de fazer deve ser justificada. Primeiramente, cumpre destacar que a sociedade brasileira já dá sinais claros de descontentamento com a descaracterização a que está sendo submetida a língua portuguesa frente à invasão silenciosa dos estrangeirismos excessivos e desnecessários, como ilustram pronunciamentos de lingüistas, escritores, jornalistas e políticos, e que foram captados com humor na matéria Quero a minha língua de volta!, de autoria do jornalista e poeta JOSÉ ENRIQUE BARREIRO, publicada há pouco tempo no JORNAL DO BRASIL.

Em segundo lugar, há que ser lembrada a reação positiva dos meios de comunicação de massa diante da situação que aqui está sendo discutida. De fato, nunca se viu tantas colunas e artigos em jornais e revistas, como também programas de rádio e televisão, sobre a língua portuguesa, especialmente sobre o seu uso no padrão culto; nesse sentido, também é digno de nota que os manuais de redação, e da redação, dos principais jornais do País se sucedam em inúmeras edições, ao lado de grande variedade de livros sobre o assunto, particularmente a respeito de como evitar erros e dúvidas no português contemporâneo.

Em terceiro lugar, cabe lembrar que atualmente o jovem brasileiro está mais interessado em se expressar corretamente em português, tanto escrita como oralmente, como bem demonstra a matéria de capa - A ciência de escrever bem - da revista ÉPOCA de 14/6/99.

Por fim, mas não porque menos importante, as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil se oferecem como oportunidade ímpar para que discutamos não apenas o período colonial, a formação da nacionalidade, o patrimônio histórico, artístico e cultural da sociedade brasileira, mas também, e muito especialmente, a língua portuguesa como fator de integração nacional, como fruto - tal qual a falamos - da nossa diversidade étnica e do nosso pluralismo racial, como forte expressão da inteligência criativa e da fecundidade intelectual do nosso povo.

Posto isso, posso afirmar que o PL ora submetido à Câmara dos Deputados pretende, com os seus objetivos, tão-somente conscientizar a sociedade brasileira sobre um dos valores mais altos da nossa cultura - a língua portuguesa. Afinal, como tão bem exprimiu um dos nossos maiores lingüistas, NAPOLEÃO MENDES DE ALMEIDA, no Prefácio de sua Gramática Metódica da Língua Portuguesa (28ª ed., São Paulo, Edição Saraiva, 1979), "conhecer a língua portuguesa não é privilégio de gramáticos, senão dever do brasileiro que preza sua nacionalidade. ... A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa, o idioma pátrio?".

Movido por esse espírito, peço toda a atenção dos meus nobres colegas de parlamento no sentido de apoiar a rápida tramitação e aprovação do projeto de lei que tenho a honra de submeter à apreciação desta Casa legislativa.

Sala das Sessões, em 28 de março de 2001.

 Deputado ALDO REBELO

 

Anglicismo 

Anglicismos são palavras provenientes do inglês e usadas em português, seja devido à necessidade de designar objectos ou fenómenos novos, para os quais não existe designação adequada na nossa língua, seja por uma série de motivos de carácter sociológico (ignorância da língua portuguesa, dificuldades em traduções inglês-português, aculturação, vontade de parecer "distinto", etc.) que levam à preferência por palavras inglesas, em detrimento das portuguesas.

Tanto o português de Portugal como o do Brasil incorporaram um número considerável de anglicismos em décadas recentes, embora nem sempre os mesmos. Alguns anglicismos foram aportuguesados, outros permaneceram com a sua grafia original.

 

Usos de palavras ou expressões originais da lígua inglesa

- browser (navegador, leitor de hipertexto);

- cowboy (vaqueiro; no estilo do Velho Oeste nos EUA): filme de cowboy;

- drag queen (travesti, homem vestido de mulher)

- hit (sucesso, grande sucesso: canção que faz sucesso – Música);

- homecenter (loja enorme para materiais de construções)

- home theather (cinema em casa)

- home video (vídeo doméstico)

- link (ligação - em informática): links externos (ligações externas);

- mouse (periférico de computador, em informática);

- play (reproduzir, tocar; reprodução: de música ou vídeo);

- performance (desempenho): A alta performance de um computador (o alto desempenho de...)

- piercing (perfuração ornamental: em orelhas, dentes, umbigos etc)

- ranking (classificação, quadro classificatório);

- remake (regravação – Música)

- remix (novo arranjo – Música);

- shopping center ou apenas shopping (centro de compras);

- single (compacto: versão pequena, com 2 ou 4 músicas, dos obsoletos discos LP);

- site (sítio, em informática);  site oficial (sítio oficial)

- skate (prancha de rodas)

Uso de palavras inglesas aportuguesadas (de uso aceito em geral)

- bife (pedaço de carne de gado; de "beef"; no entanto, bife é dito "steak", em inglês, e "beef" é usado em inglês com o sentido de carne bovina);

- futebol (de football”, usado na Inglaterra e em todo o mundo anglofônico, EXCETO nos EUA, onde o futebol que conhecemos é dito como “soccer”, e a palavra “football” é traduzida em português como “futebol americano”, um tipo diferente do soccer, famoso esporte em que se usa uma bola oval)

- handebol (jogo semelhante ao basquete; de handball);

- tênis ou ténis (esporte) (de "tennis");

- tênis ou ténis (calçado) (de "tennis shoe");

- videoclipe (ou clipe) (de “videoclip”);

 

Galicismo

Galicismo ou francesismo é um vício de linguagem em que se usa palavra, expressão ou construção proveniente do francês ao invés de uma equivalente vernácula. No início do século XX, uma época em que a França exerceu forte influência sobre as elites brasileiras, muitos gramáticos condenaram o uso de palavras e construções transpostas diretamente do francês, carcterizando esse uso como "galicismo".


Uso de palavras francesas aportuguesadas

ð  avalanche

ð  boite para boate

ð  ballet para balé

ð  baton para batom

ð  bibelot para bibelô

ð  bidet para bidê

ð  brevet para brevê

ð  bouquet para buquê

ð  boutique para butique

ð  buffet para bufê

ð  champagne para champanha

ð  chalet para chalé

ð  camelot para camelô

ð  camionette para camioneta (br. camionete)

ð  carnet para carnê

ð  chic para chique

ð  cognac para conhaque

ð  complot para complô

ð  coupon para cupom

ð  crochet para crochê

ð  dossier para dossiê

ð  édredon para edredom, edredão

ð  escroc para escroque

ð  filet para filé

ð  gaffe para gafe

ð  garage para garagem

ð  garçon para garçom, garção

ð  glacé para glacê

ð  guichet para guichê

ð  guidon para guidom, guidão

ð  maçon para maçom

ð  madame para madama

ð  mayonnaise para maionese

ð  maquillage para maquiagem, maquilagem

ð  marron para marrom

ð  matinée para matinê

ð  omelette para omeleta, omelete

ð  pioerrot para pierrô

ð  pivot para pivô

ð  purée para purê

ð  rouge para ruge

ð  sabotage para sabotagem

ð  toilette para toalete


 

Os germanismos

 

Palavras derivadas do alemão moderno. Não são muito numerosos no português do Brasil. Em compensação, muitos nomes de pessoa que têm uma larga tradição em nossa língua, provêm do germânico, língua a partir da qual se formou o alemão. Veja o significado original de alguns deles.

ð  Bernardo < hera (urso) + hardll, (forte) = urso forte ou forte como um urso

ð  Fernando < *frithll (paz) + *nanth (audacioso) = audacioso na paz

ð  Guilherme, fem. Wi1ma < vilja (vontade) + helm (elmo)

ð  Leonardo < lev (leão) + hardu = leão forte ou forte como um leão

ð  Rogério < hroti (fama) + ger (dardo) = famoso por seu dardo

 

Italianismo

 

Ao longo dos séculos, o italiano transmitiu ao português uma série de palavras que denominam:

ð  Instrumentos musicais (violino, viola, violoncelo, piano, corneta...)

ð  Modos de executar a música (adagio, andante etc.)

ð  Comidas (salame, mortadela, macarrão, pizza etc.)

É de origem italiana o cumprimento "tchau", derivado da forma italiana ciao, que na origem significava algo como "criado seu, escravo seu".

 

A tendência das palavras recebidas de outras línguas é serem reconhecidas, num primeiro momento, como palavras estrangeiras, porque soam diferentes e se escrevem segundo a grafia da língua de origem. Aos poucos acontece uma “adaptação” tanto da pronúncia como da grafia; com isso, as palavras “importadas” acabam por confundir-se com as palavras mais antigas da língua.

 

 

AMBIGUIDADES

 

 “Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”

(Carlos Drummond de Andrade, 1999)

 

Ao tratar-se da ambigüidade lexical não é possível deixar de fazer referência às dificuldades encontradas, dentro dos estudos lingüísticos, para diferenciar duas de suas distintas e importantes manifestações: a polissemia e a homonímia. A primeira delas pode ser vista como a capacidade que uma palavra tem de assumir significados diferentes, embora mantendo entre eles uma relação semântica básica. Em uma representação homonímica, ao contrário, ter-se-íam palavras que, embora grafadas da mesma maneira, não mantêm qualquer relacionamento semântico entre si. Recorrendo a exemplos a homonímia seria facilmente percebida em frases como: “Maria sentou-se no banco da praça para ler um romance. (banco no sentido de assento); O banco só abre às 10 horas da manhã para atendimento externo (banco como uma instituição financeira)”. Para representar o fenômeno da polissemia, o mesmo autor apresenta alguns dos diversos significados que podem ser atribuídos à palavra quente: irritado, radioativo, pessoa de sorte, apimentado e sensual.

 

Ambigüidade é a característica das sentenças que apresentam mais de um sentido. Um bom teste para saber se uma sentença tem mais de um sentido consiste em propor a ela duas reformulações, inventando em seguida uma situação em que a primeira reformulação seja verdadeira e a segunda falsa ou inaplicável. Tomemos como exemplo esta manchete de jornal (FSP, 17.10.1996)

 

Ladrões inovam no ataque a mulheres em carros

 

  • Primeira reformulação: "Os ladrões descobrem novas maneiras de atacar mulheres motoristas."

  • Segunda reformulação: "Ladrões que atacam de carro descobrem novas maneiras de atacar mulheres."

 

Situação-teste: Imagine que essa frase fosse usada em 1940, quando as mulheres não dirigiam. A primeira reformulação não se aplicaria, a segunda poderia ser verdadeira. Pode-se então concluir que a manchete em questão é ambígua.

 

 

Os fatores linguísticos da ambiguidade são muitos. Eis alguns:

 

ð  A sentença aceita duas análises sintáticas diferentes:

Ex. Ambulante vende clandestino no centro (FSP, 2.8.1998)

["Ambulante vende clandestinamente..." / "Clandestino é vendido no centro"].

 

ð  Um mesmo pronome aceita dois antecedentes:

Ex. Duquesa de York diz que nobreza quer manchar sua imagem (Hoje em Dia - BH, 20.1.1996) ["[...] manchar a imagem da duquesa"/"[...] manchar a imagem da nobreza"];

 

ð  Uma mesma palavra tem dois sentidos diferentes

 

ð  Um mesmo operador se aplica de duas maneiras sentença

Ex. Palmeiras só empatou com Bahia pelo Brasileiro – 1996 (FSP; 11.8.1996)

["Jogando contra o Bahia pelo Brasileiro de 1996, o Palmeiras não vai além do empate" / " A única ocasião em que o Palmeiras empatou com o Bahia até hoje foi durante o Campeonato Brasileiro de 1996”]

 

=> Uma mesma seqüência de palavras pode ou não ser interpretada como uma frase feita.

Ex: A - O Senhor Guimarães caiu das nuvens.

B - Ficou surpreso com alguma coisa?

A - Não, caiu das nuvens mesmo. O avião em que ele voava sofreu uma pane.

 

Além dos fatores que chamamos aqui de lingüísticos, a ambigüidade pode derivar de nossa dificuldade em decidir se as palavras foram usadas “literalmente” ou de maneira indireta (por exemplo: para fazer ironia). Todos nós já passamos pela difícil situação de não saber se determinada frase nos foi dita ironicamente, ou se continha alguma indireta.

 

 

HOMONÍMIA

 

Palavras homônimas são aquelas que se pronunciam da mesma maneira, mas têm significados distintos e são percebidas como diferentes pelos falantes da língua. O exemplo clássico é o substantivo feminino manga: ora nome de uma fruta, ora nome da parte de certas peças de roupa que cobrem os braços (ou parte dos braços).

 

Há homônimos que pertencem à mesma classe gramatical e homônimos que pertencem a classes gramaticais diferentes:

ð  banco (de jardim) e banco (casa de crédito) são ambos substantivos.

ð  passe (de ônibus) e passe (de um jogador a outro, no futebol) são ambos.

ð  substantivos que se opõem à forma passe ("por favor, passe o açucareiro"), imperativo e subjuntivo do verbo passar.

ð  pia (lavatório) é um substantivo; ele pia (uma das tantas vozes de piar) é um verbo; pia (piedosa) é um adjetivo.

 

Há homônimos que se escrevem da mesma maneira e outros que se escrevem de maneiras diferentes:

ð  cinto e sinto

ð  sessão (de cinema), seção (repartição de um órgão público) e cessão (de direitos)

ð  cerrado e serrado

 

Há casos em que o uso de uma palavra pela outra leva a problemas de comunicação, alguns trágicos, outros cômicos. Mas comumente o contexto elimina as possíveis dúvidas causadas pela homonímia. Assim, a frase como:

 

O Marquinho desperdiçou o passe.

 

muda de sentido quando é inserida num contexto maior, por exemplo,

 

 O Marquinho desperdiçou o passe. Subiu no ônibus errado.

O Marquinho desperdiçou o passe. Na hora de chutar; chutou uma touceira de grama

 

Além disso, a frase

 

As balas estão acabando.

 

assume sentidos diferentes se for pronunciada pelos participantes de um tiroteio ou pelo vendedor de doces que abastece a cantina da escola.

 

Você encontrará a seguir algumas palavras de duplo sentido, que começam com diferentes letras do alfabeto.

 

ð  abrigo (conjunto de moleton / albergue)

ð  batida (bebida que mistura cachaça e suco de fruta / colisão de automóveis)

ð  canela (parte da perna / tempero)

ð  dado (instrumento de jogo / informação)

ð  entrevar (tolher os movimentos / cobrir de trevas)

ð  frango (ave / gol sofrido por Incompetência do goleiro)

ð  grama (medida de peso / relva)

ð  lima (fruta / ferramenta)

ð  mangueira (tubo de borracha/árvore)

ð  namorado (peixe/parceiro da namorada)

ð  oração (discurso / reza)

ð  pena (castigo / cobertura do corpo das aves)

ð  zebra (animal/acontecimento inesperado)

 

As homônimas podem ser:

·         Homógrafas heterofônicas ( ou homógrafas) - são as palavras iguais na escrita e diferentes na pronúncia.


Ex.: gosto (substantivo) - gosto (1.ª pess.sing. pres. ind. - verbo gostar)
Conserto (substantivo) - conserto (1.ª pess.sing. pres. ind. - verbo consertar)

·         Homófonas heterográficas ( ou homófonas) - são as palavras iguais na pronúncia e diferentes na escrita.


Ex.: cela (substantivo) - sela ( verbo)
Cessão (substantivo) - sessão (substantivo)
Cerrar (verbo) - serrar ( verbo)

Cesta = utensílio de vime, etc.
Sexta = ordinal referente a seis.

Cheque = papel com ordem de pagamento
Xeque = lance no jogo de xadrez, ex-soberano da ex-Pérsia (atual Irã), perigo 

Cocho = vasilha, recipiente onde secolocam alimentos ou água, para animais
Coxo = que manca de uma perna 

Concerto = harmonia, acordo, espetáculo
Conserto = ato de consertar, remendar

Coser = costurar
Cozer = cozinhar 

Empoçar = formar poça
Empossar = dar posse a

Intercessão = ato de interceder
Interseção = ponto onde duas linhas se cruzam

Ruço = pardacento, cimento; alourado
Russo = relativo a Rússia

Tacha = pequeno prego, tacho grande
Taxa = imposto, juros.

Tachar = censurar
Taxar = regular, determinar a taxa

Homófonas homográficas ( ou homônimos perfeitos) - são as palavras iguais na pronúncia e na escrita.

Ex.: cura (verbo) - cura ( substantivo)
Verão ( verbo) - verão ( substantivo)
Cedo ( verbo ) - cedo (advérbio)

 

Paronímia

 

É a relação que se estabelece entre duas ou mais palavras que possuem significados diferentes, mas são muito parecidas na pronúncia e na escrita - PARÔNIMOS.

Ex.: cavaleiro - cavalheiro
Absolver - absorver
Comprimento - cumprimento

 

 

POLISSEMIA

 

Fala-se em "polissemia" a propósito dos diferentes sentidos de uma mesma palavra que são percebidos como extensões de um sentido básico.

 

A polissemia se opõe à homonímia: para que haja polissemia, é preciso que haja uma só palavra; para que haja homonímia, é preciso que haja mais de uma palavra. Há continuidade entre os vários sentidos que assume uma palavra ou construção polissêmica entre os sentidos próprios de palavras homônimas, há descontinuidade.

 

Além das palavras, a polissemia afeta a maioria das construções gramaticais: um bom exemplo é o chamado "aumentativo" dos nomes: se pensarmos nas razões pelas quais alguém poderia ser chamado de Paulão, em vez de Paulo, encontraremos explicações como "porque é alto", "porque é grande", "porque é grosseiro", "porque é desajeitado" e até mesmo "porque é uma pessoa com quem todos se sentem à vontade". Normalmente é difícil dizer até que ponto vale cada uma dessas explicações. Da idéia de tamanho passa-se à de um certo modo de ser e de relacionar-se.

 

Um dos problemas que todo dicionarista enfrenta é o de organizar os sentidos das palavras na forma de verbetes. Normalmente, o dicionarista usa verbetes diferentes para dar conta da homonímia e, no interior de cada verbete, trata dos casos de polissemia. Veja o que acontece no recorte abaixo. extraído do Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. de Adalberto Prado e Silva e outros.

 

velar 1, v. (l.velare).1. Tr. dir. e pron. Cobrir(-5e)com véu; A dama velou o rosto. Velara-se pudicamente. 2. Tr. dir. Encobrir, ocultar, tapar: O pintor velou a impressionante tela. 3. Tr. dir. Pint. Por velatura em. 4. Tr. Dir. Fot. lmpressionar excessiva ou inoportunamente: A luz velou o filme. 5. Pron. Encobrir-se. ocultar-se: Velou-se a estrela por trás das nuvens. 6. Tr. Dir. Tornar sombrio; tornar menos brilhante ou menos claro pela interposição de um corpo; empanar: Uma faixa escura velara a cena.

 

“Se observarmos as frases:

 

A maçã está podre e o pêssego está bom.

Ele é um bom rapaz.

Conseguimos um bom resultado.

Não estás bom da cabeça.

 

Tiraremos a conclusão de que temos uma mesma palavra (ou significante) – bom (do latim < bonu) – que apresenta em cada frase uma acepção algo diferente, mas cujo sentido original é o mesmo.

 

significado 1 (= ileso, são)

significado 2 (= generoso)

significado 3 (= valioso)

significado 4 (estar doido, variar)

 

Ao consultarmos um dicionário, verificamos que a maioria das palavras são polissémicas, isto é, contêm várias acepções. Só o contexto em que cada palavra se encontra nos permite determinar com exatidão qual o seu significado, e resolver assim casos de ambigüidade na interpretação dessa palavra.

 

A organização expressiva do contexto (existência da metáfora, metonímia, etc.) explora e põe em evidência as possibilidades polissêmicas de uma palavra.

 

Vamos ver mais dois exemplos de palavras polissêmicas em contexto.  O último exemplo de cada palavra mostra-a num contexto claramente figurado:

Viam-se muitas estrelas, no céu, esta noite.

A Rita é a estrela da companhia.

 

Ela tem o chapéu na cabeça.

Ela vinha à cabeça do grupo que entrou na sala.

Ela é muito inteligente, é a cabeça do grupo.»

(Pinto 1994: 190)

 

NU


(1) Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(2) Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

(3) Mas a noite é nua,

E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite. 

(4) Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

(5) Teus exíguos seios
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –

(6) Brilham. Ah, teus seios?
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

(7) Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

(8) Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

(9) Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...


Bandeira, M. (2002). Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro.

“Nu. Adj. 1. Privado de vestuário; despido, desnudo. 2. Sem cobertura; exposto, descoberto. 3. Descalço: pés nus . 4. Sem folhas. 5. Sem vegetação; escalvado. 6. Desguarnecido, desornado, desataviado. 7. Sem nada; vazio. 8. Destituído, carecente. 9. Sem afetação; simples, sincero, franco. 10. Não disfarçado; patente, evidente. 11. Tosco, grosseiro. 12. Desembainhado (a espada). [Fem.: nua.S.m. 13. Aquele que não tem o que vestir. 14. Nudez (1). 15. Art. Plást. V. nu artístico.

 

O que distingue polissemia de homonímia?

 

São conceitos bem distintos; contudo, quem nem sempre colabora docilmente é o material a que eles se aplicam- as palavras, as infinitas e misteriosas palavras. Pensa no vocábulo manga: existe alguma relação entre a fruta e a manga da camisa? Trata-se de um só vocábulo com dois sentidos, ou são dois vocábulos diferentes com a mesma forma? Quando um vocábulo representa mais de um significado, chamamos isso de polissemia. Quando dois vocábulos diferentes, de origens e significados diversos, terminam convergindo para a mesma configuração fonológica e ortográfica, chamamos de homonímia.

 

Um bom exemplo de vocábulo polissêmico (do Grego poli, "muitos", e sema, "significado") é letra, que tem no mínimo três significados bem conhecidos: (1) um dos sinais gráficos do alfabeto; (2) o texto de uma canção; (3) um título de crédito. Para a maioria dos falantes não parece difícil ligar entre si esses três significados, já que todos eles estão relacionados pela idéia de escrita.

 

Quando, no entanto, não conseguimos estabelecer uma relação satisfatória entre os significados - como no caso da manga -, há forte probabilidade de que estejamos diante de um par de vocábulos homônimos. Uma rápida investigação no dicionário confirma nossa intuição: a fruta vem do Malaio "manga", enquanto a parte da vestimenta vem do Latim "manica". Um bom dicionário deveria tentar distinguir os casos de homonímia dos casos de polissemia: manga mereceria dois verbetes diferentes, enquanto os vários significados de letra seriam relacionados no corpo do mesmo verbete. No entanto, como nem sempre é fácil decidir se estamos diante de um ou de outro caso (pensem nos cravos da florista, no cravo que faz par com a canela no doce, nos cravos que pregaram Cristo na cruz, na música de cravo de Bach e de Scarlatti e nos cravos da pele - como classificar?), a maioria dos dicionaristas limita-se a relacionar e definir cada um dos significados: cravo (1) flor ...; (2) prego ...; (3) instrumento ... - e assim por diante, porque eles sabem que essa informação basta para o usuário comum.

 

É lamentável que seja essa a prática mais difundida nos dicionários nacionais, pois ela termina favorecendo a falsa ligação entre termos de origens distintas e deixando solta a criatividade do leitor para imaginar famílias etimológicas sem fundamento algum, como vem acontecendo, por exemplo, com coito e coitado. Nota que a tarefa não é das mais árduas: enquanto a polissemia está presente em quase todos os verbetes (os lexicógrafos dizem que vocábulos que só têm um significado são raríssimos, geralmente referindo-se a aspectos muito particulares da realidade - lembro de glabro - "sem barba ou sem pêlos", ou de acusma - "alucinação auditiva"), os homônimos não existem em grande número e poderiam ser listados exaustivamente.

 

 

MOTIVAÇÃO ICÔNICA

 

Todo sistema de comunicação é composto por sinais aos quais está associado um sentido. O fundamento da relação sinal/sentido pode ser:

ð  lndicial: baseado na proximidade (a fumaça nos faz pensar em fogo, as pegadas de um animal denunciam sua passagem recente ).

ð  lcônico, baseado na semelhança (a fotografia de uma pessoa nos lembra a pessoa, a maquete de uma represa nos lembra a represa).

ð  Arbitrário, baseado em algum tipo de convenção (a estrela de três pontas, símbolo da marca de automóveis Mercedes, nada tem a ver com as características do produto; o uso da árvore como símbolo da editora Abril também não tem nada a ver com as publicações que ela edita).

 

Nas línguas historicamente constituídas, entre elas o português, encontramos, em proporções diferentes, essas três situações:

ð  São indiciais, por exemplo, os dêiticos;

ð  É arbitrária a grande maioria das palavras e construções;

ð  É icônica uma pequena parte do vocabulário e dos processos gramaticais.

 

Vamos analisar neste capítulo o terceiro caso, considerando palavras e construções gramaticais cuja forma reproduz características das realidades de que falam.

 

As principais manifestações da motivação icônica, na linguagem, são:

ð  A onomatopéia, que geralmente busca reproduzir ritmos e timbres;

ð  O uso da ordem no texto para indicar seqüenciação dos fatos;

ð  A maior proximidade das formas, indicando maior proximidade dos objetos ou conceitos de que se trata.

 

O português do Brasil é rico em nomes criados especialmente para imitar ritmos: telecoteco, balacobaco, esquindô-esquindô. No passado, quando era comuum, mesmo em grandes cidades, as pessoas se reunirem no botequim da esquina para uma batucada; os batuqueiros usavam frases em português como comandos para os diferentes ritmos da percussão. Alguns desses nomes eram neutros, outros eram chulos, mas tinham uma acentuação muito definida e desempenhavam à perfeição a função de identificar um ritmo  como exemplo "Tecutuco não cutuco ".

 

Um efeito icônico (ou indicial?) é obtido quando se alonga além do normal a sílaba tônica de uma palavra. Para encarecer a distância de um lugar, pode-se dizer que ele fica loooooooooooooooooonge; que para chegar a esse lugar a gente aaaaaaaaaaaaaaaanda; que é inevitável chegar cansaaaaaaaaaaaaado. Nas reportagens esportivas transmitidas pelo rádio, esse efeito é explorado na pronúncia da palavra goooooooooooooooool, e outras.

 

Costuma-se atribuir às professoras primárias o hábito de ler as palavras destacando as sílabas, para facilitar o ditado ("o be-bê ba-ba"). Essa maneira de pronunciar recebe por vezes o nome de "staccato". Pronúncias staccato não são, na verdade, exclusividade das professoras primárias. Imagine um pequeno diálogo que termina com as seguintes palavras:

Impossível! I IM-POS-SÍ-VEL!

Só amanhã. I SÓ A-MA-NHÃ!

Que diferença faz a leitura staccato?

 

 

CAMPOS LEXICAIS

 

Constituem um campo lexical as palavras que nomeiam um conjunto de experiências em algum sentido análogas. Os nomes das cores, por exemplo, que se referem a um tipo particular de experiência visual ou os nomes dos animais, que organizam parte de nossa experiência dos seres vivos, constituem campos lexicais.

 

Para organizar um campo lexical, dispomos de pelo menos dois recursos: a chamada análise componencial e a análise por protótipos.

 

A análise componencial parte do princípio de que a significação das palavras pode ser "quebrada" em unidades menores (geralmente chamadas de "componentes" ou "traços semânticos") e que as unidades encontradas na análise de uma determinada palavra reaparecerão em outras palavras. Seria possível, assim, verificar que duas ou mais palavras têm em comum, realizando operações que lembram a fatoração da aritmética. Por exemplo:

 

    quadrado = [ + figura geométrica]

[+ plana]

[+ côncava]

[ + com quatro lados ]

[+ lados iguais]

[+ ângulos iguais]

 

Alguns desses traços são igualmente necessários na caracterização de um triângulo, losango, retângulo, pentágono etc.

 

Na análise por protótipos, identificamos indivíduos que representam melhor toda uma categoria e procuramos entender os demais elementos da categoria a partir da nossa experiência (não traduzida em traços) daqueles indivíduos. Para organizar a categoria de pássaros, por exemplo, podemos tomar como referência o pardal e perguntar-nos quais são os animais que mantêm com ele uma semelhança incontestável: feito este teste, provavelmente diremos que o sabiá é um pássaro, mas o peru não é.

 

 

 

FLEXÃO NOMINAL

 

 

A gramática tradicional reunia sob o nome de "flexão nominal" alguns fenômenos que dizem respeito aos nomes, isto é, aos substantivos e adjetivos a saber: (a) a variação de gênero e de número expressa pelo uso de desinências; (b) a formação dos graus do substantivo e adjetivo, que apelam para sufixos como -inho, -ão, -zarrão, -íssimo, -érrimo.

 

As flexões nominais são aquelas que se aplicam aos substantivos e adjetivos, a saber, as de gênero, número e grau, representadas pelo quadro abaixo:

 

              Flexão                                  Substantivos                      Adjetivos

 

Gênero           Masculino x Feminino                        Avô / Avó                        bom / boa

Porco / porca

Gato / gata

 

Número          Singular x Plural                               Porco / porcos                bom livro / bons livros

gato / gatos

 

Grau              Normal x Diminutivo                         Porco / porquinho         (bonzinho/bonzão)

x Aumentativo                                   porcão (porcaço)

 

Normal x comparativo                                                                  alto / altíssimo

x superlativo

 

Essas variações sempre foram assunto das gramáticas ao passo que os dicionários, tradicionalmente, registram os substantivos e os adjetivos no "grau normal"

 

Além das terminações  típicas ( -a para, para o feminino e -s para o plural), as mudanças de timbre têm um papel importante no reconhecimento do gênero e do número (p.e. porco/porcos -ô / ó ).

 

Para formar o gênero, e o grau, certos substantivos e adjetivos não recorrem à flexão, sendo necessário lançar mão de outras palavras: é o fenômeno da supletividade. É o caso dos exemplos a seguir:

 

Cavalo / égua (a cavala existe, mas é um peixe)

Carneiro / ovelha

 

Bom / boníssimo ou ótimo

Mau / péssimo

 

Há, na língua, alguns "falsos femininos" como

cano / cana

tranco / tranca

porto / porta

 

 

RECONHECIMENTO DE FORMAS DE UM MESMO PARADIGMA FLEXIONAL

 

Como falantes de português, sabemos intuitivamente que certas formas pertencem a um mesmo paradigma flexional. Isso nos permite "juntar" todas as formas que um verbo, um substantivo ou um adjetivo podem assumir. Por exemplo, sabemos que as formas (eu) via, vendo e visto pertencem ao verbo ver. Sabemos também que (eu) vendo, venderei e vendido pertencem ao verbo vender:

 

Para manusear o dicionário, é preciso saber que formas são tradicionalmente escolhidas como representantes de todo um paradigma flexional. As formas que representam um paradigma flexional são:

 

ð  Para os substantivos: o masculino singular; assim, menino se torna representante do paradigma em que encontramos menino, menina, meninos, meninas, menininha, meninão...

ð  Para os verbos: o infinitivo; assim, correr; se torna representante do paradigma em que encontramos eu corro, ele corria, correndo, correrei, se nós corrêssemos etc.

ð  Para os adjetivos: o masculino singular do grau positivo; assim caro se torna representante do paradigma em que encontramos: caro, cara, caríssimo, caríssima, mais caro, menos caro, o mais caro ( de todos) etc.

 

Reconhecer que determinadas formas pertencem a um mesmo paradigma pode ser um meio de lidar com a irregularidade da flexão.

 

 

FORMAÇÃO DE PALAVRAS NOVAS E SENTIDOS NOVOS NA LÍNGUA

 

Enquanto se discute se as palavras de origem estrangeira "corrompem" a língua, o português cria todo dia palavras novas, recorrendo a processos de formação próprios (como a sufixação, a prefixação e a composição) ou atribuindo novos sentidos a palavras previamente existentes.

 

É comum que palavras e expressões já existentes na língua ganhem novos sentidos. A palavra carro, por exemplo, que indicava o carro de bois no século passado, é hoje o termo corrente para indicar o veículo movido por um motor a explosão que, mais refinadamente, é chamado de automóvel.

 

Também é comum formar palavras pela combinação de morfemas, isto é, unidades significativas de dimensões inferiores à palavra. De acordo com um dos principais especialistas no assunto, o Prof. Antônio José Sandman (em Formação de Palavras no Português Brasileiro Contemporâneo, 1989), os processos de formação de palavras mais usados no português atual são, por ordem de importância, a sufixação, a prefixação e a composição que, juntos respondem por cerca de 90% da formação de novas palavras a partir de material já presente na língua. Como exemplos desses processos foram usadas a seguir algumas palavras que, a julgar pelos dicionários, têm menos de 50 anos.

 

Processo Sufixação =>  -ismo / -ista: / -ando / -ento / -ável / -uda / -aço / -ite / -ose / -issimo / -ês / -esco /-arada / -ar /-ir: malufismo, malufista, vestibulando, piolhento, malufento, reitorável, presidenciável, topetudo, panelaço, buzinaço, bandejaço, governite, frescurite, xuxite, sinistrose, candidatíssimo, gatíssima, economês, computadorês, vampiresco, policialesco, filharada, malufar, collorir.

 

Sufixação => -gate / -dromo / -lândia: collorgate, autódromo, sambódromo, malhódromo, camelódromo, fumódromo, Boatolândia, Eletrolândia.

 

Prefixação => anti- / des- / disque- / hiper- / in- / maxi- / macro- / meemicro- / mini- / multi- / não- / sem- / super- / tele- :  anticandidato, descupinização, desempregado, desprefeito (aplicado a Jânio Quadro pelo OESP}; disquepizza, hipermercado, impopular; maxidesvalorização, megainvestidor, microempresa, minimercado, multinacional, o não-governo do Rio, um país não-alinhado, sem terra, sem teto telegaleto, telepizza, televenda, telecompra etc.

 

Composição Substantivo + Substantivo:  DETERMINADO + DETERMINANTE: seguro-desemprego, greve-relâmpago, bolsa-pesquisa, bolsa-estágio, conta-fantasma, funcionário-fantasma, futebol-espetáculo, vale-brinde, vale-refeição.

DETERMINANTE + DETERMINADO: gibiteca, motogincana, pornodeputada, ecoturismo, dinossauromania, cervejólatra, motoboy, motorromeiro.

 

Menos usados, mas ainda assim importantes são as seguintes "formações especiais":

 

Cruzamentos de palavras: Goianobil (Goiânia + Chemobil); Frangarel (Frangueiro + Taffarel);

Baianeiro (baiano + brasileiro); miserite (miséria + holerite)

 

Formações analógicas: videasta (sobre cineasta), tratorata, carreata (sobre passeata), metroviário (sobre ferroviário);

 

Vários tipos de abreviações: melô (por melodrama), multi (nacional), retrô (retrógrado ), confa (por confusão), rebu (por rebuliço), proleta (por proletário), longa (por longa-metragem), beerre (por rodovia federal).

 

 

SUFIXOS

 

Chamamos sufixos às unidades significativas, inferiores à palavra, que se acrescentam "à direita" de um radical, formando novas palavras. O sufixo não é, normalmente, a penúltima ou a última unidade significativa da palavra. Depois do sufixo, as palavras do português podem ainda apresentar uma flexão (de gênero e número, quando se trata de substantivos; de tempo e modo quando se trata de verbos etc.).

 

Os sufixos disponíveis na língua portuguesa são muitos, mas nem todos são igualmente produtivos. Entre os que mais formam palavras nos nossos dias estão:

 

-ismo, -ista: malufismo, malufista

-ose: sinistrose, poliesculhambose

-ando: doutorando, formando

-íssimo: candidatíssimo, gatíssima

-ento: piolhento,pefelento

-ês: economês, politiquês,

-ável: reitorável, presidenciável computadorês

-udo: topetudo, narigudo, sortudo

-esco: vampiresco, policialesco

-aço: ricaço, panelaço, buzinaço, bandejaço

-arada: filharada

-ar: malufar; amarelar

-ite: governite, frescurite, xuxite

-ir: collorir; florir

Menos usados hoje, mas importantes em outras épocas da história da língua foram:

 

-ama: dinheirama

-edo: bicharedo, arvoredo

-aréu: mundaréu, povaréu

-idão: mansidão

-itude: pulcritude, negritude

-onho: medonho, enfadonho

 

Um dos principais problemas do estudo dos sufixos é que, em geral, eles têm mais de um sentido. O mesmo sentido pode ser também expresso por mais de um sufixo. Temos assim

-eiro, -ense, -ano => que nasce ou mora em ...

 

-eiro => que nasce ou mora em...; lugar onde se cria...

 

 

 

SUBSTANTIVOS CONTÁVEIS E NÃO-CONTÁVEIS

 

Há na língua substantivos que são sempre contáveis, como casa, pessoa, prego, dedo; substantivos que são sempre não-contáveis, como ar, gasolina, farinha, tinta. A grande diferença é que os contáveis designam objetos discretos (isto é, entre os quais não há continuidade), que quando são acrescentados uns aos outros resultam num plural:

aquela casa + aquela ( outra) casa = aquelas casas

 

Ao passo que os não-contáveis designam porções de alguma substância que, acrescentadas a outras porções da mesma substância, resultam ainda em uma porção da mesma substância

Já havia guaraná no copo. Acrescentei mais guaraná. O que há no copo? - Guaraná.(Note que ninguém diria guaranás ou dois guaranás.)

 

Além dos substantivos que só se usam como contáveis ou como não-contáveis, há outros que admitem os dois usos:

No lanche, Joãozinho Anorexia comeu um pão com um presunto. vs. No lanche, Joãozinho Anorexia comeu pão com presunto.

 

Os substantivos não-contáveis não se combinam, normalmente, com palavras que indicam o resultado de uma contagem (exata ou não) feita "por exemplares" ou "por cabeças", por exemplo os numerais cardinais e ordinais e os coletivos que indicam número (três, cem, uma dúzia, uma centena, uma grosa):

uma dúzia de pregos versus uma dúzia de enxofre

 

Para acrescentar uma idéia de quantidade aos substantivos não-contáveis, dependemos de usar nomes que indicam uma certa porção da substância indicada:

uma porção de...               maionese,

uma dose de...                   pinga, cocaína, remédio, uísque etc.

uma colher de chá de...     açúcar, sal etc.

 

Nomes não-contáveis, quando são usados como contáveis, indicam (a) qualidades ou marcas comerciais de algum produto; ou ainda (b) quantidades de alguma substância, correspondentes a embalagens de dimensões convencionais:

uma pinga (= um cálice, normalmente um copo de 25 ml)

duas cervejas (= duas garrafas de cerveja, cada uma com 600 ml)

duas feijoadas e uma salada mista (= duas porções de feijoada e uma porção de salada mista)

 

Os nomes de pratos de comida são não-contáveís (feijoada mais feijoada = feijoada ), menos no restaurante. Imagine-se na situação do garçom que recebe as ordens e pense por que é melhor "Três feijoadas no capricho!" do que "Feijoada no capricho para três!".

 

 

Analise esta receita de bolo: veja quais, dentre os substantivos em destaque, são contáveis e quais não-contáveis:

Bolo de cenoura

Bater no liquidificador: 4 ovos mais 2 cenouras cruas picadas + uma xícara de óleo.

À parte, misturar: 2 copos de farinha, 2 copos de açúcar, 1 colher de pó Royal

Depois de bem batidos os ingredientes que foram ao liquidificador, misturar com os ingredientes secos. Untar uma assadeira, pulverizar com farinha, despejar a massa, assar.

Cobertura: 7 colheres de açúcar, 2 colheres de leite, 2 colheres de manteiga, 2 colheres de chocolate em pó

Levar ao fogo para ferver bem. Despejar sobre o bolo assado e levar tudo ao forno por alguns minutos.

 

 

 

 

TERMOS GENÉRICOS E TERMOS ESPECÍFICOS

 

Ao falar das mesmas realidades, podemos aplicar a essas realidades palavras que evocam conceitos mais ou menos abrangentes. Por exemplo, Caruso, meu canário, é ao mesmo tempo um canário, um pássaro, um bicho, um ser vivo...

 

Interessa dispor da noção de hiponímia: a palavra canário é hipônima da palavra pássaro. As palavras automóvel, ônibus, motocicleta são hipônimos de veículo etc. A noção de hiponímia tem a ver com inclusão: todo canário é um pássaro, mas nem todo pássaro é um canário.

 

Interessa também observar que, em oposição aos termos específicos correspondentes, os termos genéricos  ou hiperônios são aqueles que se aplicam a conjuntos mais amplos de objetos (os lingüístas dizem por isso que eles têm extensão maior), mas nos dão pouca informação sobre como são os próprios objetos (compreensão menor): ficamos sabendo mais sobre as características de um animalzinho de estimação se ele for descrito como um canário e ficamos sabendo menos se ele for descrito, genericamente, como um pássaro.

 

I. Separe dos demais o nome de significação mais genérica:

{gato, bicho, leão, jacaré}

{capturar, agarrar, segurar, apanhar, pegar}

{oficial, tenente, capitão, major, general de divisão}

{flor, crisântemo, cravo, rosa, orquídea}

{ automóvel, caminhão, bicicleta, veículo, carruagem}

{praça, beco, logradouro, avenida, travessa}

{batedeira de bolo, eletrodoméstico, geladeira, liquidificador, forno de microondas}

{artilharia, cavalaria, marinha, aviação, arma }

 

II. Escolha o termo que preenche melhor a lacuna:

Fulano de tal come tudo quanto é _______________ : bolo, pudim, manjar.

Tenho amigos de todas as _______________: protestantes, judeus, muçulmanos, católicos.

Já pratiquei muitos ____________ : natação, vôlei, ginástica olímpica, salto com vara.

Na moda do ano que vem voltam alguns tipos de _____________ que estavam esquecidos há algum tempo, como as sandálias, os tamancos e os sapatos de salto baixo.

 

 

Exercícios

 

 

Esse texto servirá de base para as questões 1 a 4.

 

O que mais dói não é a fratura:

 

Ao invés de afagos, pancadas. No lugar de abraços, beliscões. Assustadoramente, a agressão física a crianças e adolescentes se torna cada vez mais comum em nossa cidade. E, todo dia, a gente do Hospital Samaritano sente isso na pele. Por isso, ao patrocinar o Prêmio Mídia da Paz, promovido pela Revista Imprensa, o Hospital Samaritano pretende alertar a comunidade sobre esses inaceitáveis atos, que vêm sendo praticados por pessoas a quem a sociedade chama de adultos. E, mais que isso, convocar jornalistas e órgãos de imprensa de todo o Brasil a engrossar essa corrente de alerta à violência infantil: fiscalizando, denunciando, ajudando a evitar todo e qualquer ato de agressão física às nossas crianças.

 

1) De acordo com o texto “afagos, pancadas” e “abraços, beliscões” são termos:

 

a)      antônimos

b)      sinônimos

c)      homônimos

d)     arcaicos

 

 

2) “Agressão física”, nesse texto é:

 

a)      um hiperônimo de pancadas e beliscões

b)      um hipônimo de pancadas e agressões

c)      uma definição de pancadas e agressões

d)     um termo polissêmico

 

3) Observe os termos “adultos” e “crianças”, nesse texto eles estão funcionando como:

 

a)      sinônimos

b)      antônimos

c)      homônimos

d)     hiperônimos

 

4) No texto, qual das palavras abaixo tem um valor polissêmico:

 

a)      adultos

b)      alertar

c)      cidade

d)     sociedade

 

 

5) “Ele deveria se juntar ao grupo de apoio aos procrastinadores compulsivos, mas acho que vai adiar a decisão.” Analisando a frase acima, escolha a alternativa que apresenta um antônimo de “procrastinar”:

 

a)      antecipar

b)      adiar

c)      ratificar

d)     prever

 

6) Identifique a alternativa em que todas as palavras são formadas com o uso de um prefixo com sentido contrário ao prefixo da palavra “megarreforma”

 

a) microbiologia, microscópio, microrregião, microfone.

b) hipermercado, hipersensível, hipertensão, hipertermia.

c) megalópole, megalomaníaco, megashow, megascópio.

d) semicírculo, semiconsciência, semideus, semidiâmetro.

 

 

7) Em “Meu ficante não pára de me ligar”, o termo ficante representa:

 

a) Neologismo, por ter sido criado a partir do verbo ficar na linguagem comum entre os jovens.

b) Estrangerismo, visto não ter sido incorporado nos dicionários mais recentes.

c) Onomatopéia, porque foi criado levando em conta os sons naturais.

d) Arcaísmo, por ter sido próprio de gerações mais velhas.

 

 

O trecho a seguir pertence a um conto em que aparecem duas meninas (Brejeirinha e Pele) e a mãe, dentro de casa, enquanto está chovendo:

 

Brejeirinha se instituíra, um azougue de quieta, sentada no caixote de batatas. Toda cruzadinha, traçadas as pernocas, ocupava-se com a caixa de fósforos. A gente via Brejeirinha: primeiro, os cabelos, compridos, lisos, louro-cobre; e, no meio deles, coisicas diminutas: a carinha não-comprida, o perfilzinho agudo, um narizinho que-carícia. Aos tantos, não parava, andorinhava, espiava agora - o xixixi e o empapar-se da paisagem  as pestanas til-til. Porém, disse-se-dizia ela, pouco se vê, pelos entrefios: - "Tanto chove, que me gela!" Aí, esticou-se para cima [...] observava da árvore não se interromper mesmo assim, com essas aguaceirices, de durante dias, a chuvinha no bruaar e a pálida manhã do céu. Mamãe dosava açúcares e farinhas, para um bolo. Pele tentava ajudar, diligentil.

 

João Guimarães Rosa. "Partida do audaz navegante". In Primeiras estórias.Rio de Janeiro, José Olympio, 1969.

 

8) No trecho, foi utilizado o recurso da sufixição, para fazer várias referências à menina Brejeirinha com palavras no diminutivo. Assinale a alternativa abaixo que mostra esse processo.

 

a) coisicas, cruzadinha, pernocas,  carinha, perfilzinho, narizinho.

b) narizinho, pernocas, entrefios, perfilzinho, cruzadinha, carinha,

c) carinha, chuvinha, aguacerices, coisicas, perfilzinho, narizinho

d) perfilzinho, farinha, diligentil, pernocas, coisicas, carinha.

 

 

9) O autor cria dois neologismos por onomatopéia para nomear o barulho da chuva. Quais são eles?

 

a) xixixi e bruaar;

b) xixixi e til-til;

c) bruaar e til-til;

d) disse-se-dizia e xixixi

 

10) O verbo "andorinhar" foi criado por:

 

a) derivação sufixal: andorinha +ar

b) derivação prefixal: an+dorinhar

c) derivação sufixal e prefixal: an+dor+inha+ar

d) paradigma flexional

 

 

11) “Não deixe faltar energia em sua casa.” (Leia bons fluidos)

 

A relação de sentido estabelecida para o termo “energia” na propaganda é denominada de:

 

a) Homonímia: porque se refere a um termo igual com significados diferentes.

b) Sinonímia: porque faz referência a um termo diferente com significados iguais.

c) Antonímia: uma vez que emprega um termo diferente com significados opostos.

d) Polissemia: pois trata de um termo com a propriedade de assumir vários significados no contexto.

 

 



[1] Baseado em: ILARI, Rodolfo. Introdução ao Estudo do Léxico. Brincando com as Palavras. São Paulo: Contexto, 2005.

 

 

 

 

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