Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão
 
 
Literatura
 
 

CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

 

1

Pastores, que levais ao monte o gado, 
Vêde lá como andais por essa serra; 
Que para dar contágio a toda a terra, 
Basta ver se o meu rosto magoado:

 

Eu ando (vós me vedes) tão pesado; 
E a pastora infiel, que me faz guerra, 
É a mesma, que em seu semblante encerra 
A causa de um martírio tão cansado.

 

Se a quereis conhecer, vinde comigo, 
Vereis a formosura, que eu adoro; 
Mas não; tanto não sou vosso inimigo:

 

Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro; 
Que se seguir quiserdes, o que eu sigo, 
Chorareis, ó pastores, o que eu choro.


2

 

Sou pastor; não te nego; os meus montados 
São esses, que aí vês; vivo contente 
Ao trazer entre a relva florescente 
A doce companhia dos meus gados;

 

Ali me ouvem os troncos namorados, 
Em que se transformou a antiga gente; 
Qualquer deles o seu estrago sente; 
Como eu sinto também os meus cuidados.

 

Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia 
Firmes vos contemplastes, e seguros 
Nos braços de uma bela companhia;

 

Consolai-vos comigo, ó troncos duros; 
Que eu alegre algum tempo assim me via; 
E hoje os tratos de Amor choro perjuros.


3

 

Se sou pobre pastor, se não governo 
Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes; 
Se em frio, calma, e chuvas inclementes 
Passo o verão, outono, estio, inverno;

 

Nem por isso trocara o abrigo terno 
Desta choça, em que vivo, coas enchentes 
Dessa grande fortuna: assaz presentes 
Tenho as paixões desse tormento eterno.

 

Adorar as traições, amar o engano, 
Ouvir dos lastimosos o gemido, 
Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

 

Seja embora prazer; que a meu ouvido 
Soa melhor a voz do desengano, 
Que da torpe lisonja o infame ruído.


4

 

Brandas ribeiras, quanto estou contente 
De ver nos outra vez, se isto é verdade! 
Quanto me alegra ouvir a suavidade, 
Com que Fílis entoa a voz cadente!

 

Os rebanhos, o gado, o campo, a gente, 
Tudo me está causando novidade: 
Oh como é certo, que a cruel saudade 
Faz tudo, do que foi, mui diferente!

 

Recebei (eu vos peco) um desgraçado, 
Que andou té agora por incerto giro 
Correndo sempre atrás do seu cuidado:

 

Este pranto, estes ais, com que respiro, 
Podendo comover o vosso agrado, 
Façam digno de vós o meu suspiro.


5

 

Onde estou? Este sítio desconheço: 
Quem fez tão diferente aquele prado? 
Tudo outra natureza tem tomado; 
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço 
De estar a ela um dia reclinado: 
Ali em vale um monte está mudado: 
Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes, 
Que faziam perpétua a primavera: 
Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era: 
Mas que venho a estranhar, se estão presentes 
Meus males, com que tudo degenera!


6

 

Este é o rio, a montanha é esta, 
Estes os troncos, estes os rochedos; 
São estes inda os mesmos arvoredos; 
Esta é a mesma rústica floresta.

 

Tudo cheio de horror se manifesta, 
Rio, montanha, troncos, e penedos; 
Que de amor nos suavíssimos enredos 
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

 

Oh quão lembrado estou de haver subido 
Aquele monte, e as vezes, que baixando 
Deixei do pranto o vale umedecido!

 

Tudo me está a memória retratando; 
Que da mesma saudade o infame ruído 
Vem as mortas espécies despertando.

7

 

Fatigado da calma se acolhia 
Junto o rebanho à sombra dos salgueiros; 
E o sol, queimando os ásperos oiteiros, 
Com violência maior no campo ardia.

 

Sufocava se o vento, que gemia 
Entre o verde matiz dos sovereiros; 
E tanto ao gado, como aos pegureiros 
Desmaiava o calor do intenso dia.

 

Nesta ardente estação, de fino amante 
Dando mostras Daliso, atravessava 
O campo todo em busca de Violante.

 

Seu descuido em seu fogo desculpava; 
Que mal feria o sol tão penetrante, 
Onde maior incêndio a alma abrasava.


8

 

Nise ? Nise ? onde estás ? Aonde espera 
Achar te uma alma, que por ti suspira, 
Se quanto a vista se dilata, e gira, 
Tanto mais de encontrar te desespera!

 

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera 
Entre esta aura suave, que respira! 
Nise, cuido, que diz; mas é mentira.
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.

 

Grutas, troncos, penhascos da espessura, 
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde, 
Mostrai, mostrai me a sua formosura.

 

Nem ao menos o eco me responde! 
Ah como é certa a minha desventura! 
Nise ? Nise ? onde estás ? aonde ? aonde ?


9

 

Quem deixa o trato pastoril amado 
Pela ingrata, civil correspondência, 
Ou desconhece o rosto da violência, 
Ou do retiro a paz não tem provado.

 

Que bem é ver nos campos transladado 
No gênio do pastor, o da inocência! 
E que mal é no trato, e na aparência 
Ver sempre o cortesão dissimulado!

 

Ali respira amor sinceridade; 
Aqui sempre a traição seu rosto encobre; 
Um só trata a mentira, outro a verdade.

 

Ali não há fortuna, que soçobre; 
Aqui quanto se observa, é variedade: 
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!


10

 

Formoso, e manso gado, que pascendo 
A relva andais por entre o verde prado, 
Venturoso rebanho, feliz gado, Que à bela 
Antandra estais obedecendo;

 

Já de Corino os ecos percebendo 
A frente levantais, ouvis parado; 
Ou já de Alcino ao canto levantado, 
Pouco e pouco vos ides recolhendo;

 

Eu, o mísero Alfeu, que em meu destino 
Lamento as sem razões da desventura, 
A seguir vos também hoje me inclino:

 

Medi meu rosto: ouvi minha ternura; 
Porque o aspecto, e voz de um peregrino 
Sempre faz novidade na espessura.


11

 

Toda a mortal fadiga adormecia 
No silêncio, que a noite convidava; 
Nada o sono suavíssimo alterava 
Na muda confusão da sombra fria:

 

Só Fido, que de amor por Lise ardia, 
No sossego maior não repousava; 
Sentindo o mal, com lágrimas culpava 
A sorte; porque dela se partia.

 

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte; 
Querer enternecê-na é inútil arte; 
Fazer o que ela quer, é rigor forte:

 

Mas de modo entre as penas se reparte; 
Que à Lise rende a alma, a vida à morte: 
Por que uma parte alente a outra parte.


12

 

Deixa, que por um pouco aquele monte 
Escute a glória, que a meu peito assiste:
Porque nem sempre lastimoso, e triste 
Hei de chorar à margem desta fonte.

 

Agora, que nem sombra há no horizonte, 
Nem o álamo ao zéfiro resiste, 
Aquela hora ditosa, em que me viste
Na posse de meu bem, deixa, que conte.

 

Mas que modo, que acento, que harmonia 
Bastante pode ser, gentil pastora, 
Para explicar afetos de alegria!

 

Que hei de dizer, se esta alma, que te adora, 
Só costumada às vozes da agonia, 
A frase do prazer ainda ignora!

 

13

 

Ai de mim! como estou tão descuidado! 
Como do meu rebanho assim me esqueço, 
Que vendo o trasmalhar no mato espesso, 
Em lugar de o tornar, fico pasmado!

 

Ouço o rumor que faz desaforado 
O lobo nos redis; ouço o sucesso 
Da ovelha, do pastor; e desconheço 
Não menos, do que ao dono, o mesmo gado:

 

Da fonte dos meus olhos nunca enxuta 
A corrente fatal, fico indeciso, 
Ao ver, quanto em meu dano se executa.

 

Um pouco apenas meu pesar suavizo, 
Quando nas serras o meu mal se escuta; 
Que triste alívio! ah infeliz Daliso!


14

 

De um ramo desta faia pendurado 
Veja o instrumento estar do pastor Fido; 
Daquele, que entre os mais era aplaudido, 
Se alguma vez nas selvas escutado.

 

Ser eternamente consagrado 
Um ai saudoso, um fúnebre gemido; 
Enquanto for no monte repetido 
O seu nome, o seu canto levantado.

 

Se chegas a este sítio, e te persuade 
A algum pesar a sua desventura, 
Corresponde em afetos de piedade;

 

Lembra te, caminhante, da ternura 
De seu canto suave; e uma saudade 
Por obséquio dedica à sepultura.


15

 

Neste álamo sombrio, aonde a escura 
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo 
Do feio assombro a hórrida figura;

 

Aqui, onde não geme, nem murmura 
Zéfiro brando em fúnebre arvoredo, 
Sentado sabre o tosco de um penedo 
Chorava Fido a sua desventura.

 

As lágrimas a penha enternecida 
Um rio fecundou, donde manava
D'ânsia mortal a cópia derretida:

 

A natureza em ambos se mudava; 
Abalava-se a penha comovida; 
Fido, estátua da dor, se congelava.


16

 

Tu sonora corrente, fonte pura,
Testemunha fiel da minha pena,
Sabe, que a sempre dura, e ingrata
Almena Contra o meu rendimento se conjura:

 

Aqui me manda estar nesta espessura,
Ouvindo a triste voz da filomena, 
E bem que este martírio hoje me ordena, 
Jamais espero ter melhor ventura.

 

Veio a dar me somente uma esperança 
Nova idéia do ódio; pois sabia, 
Que o rigor não me assusta, nem me cansa:

 

Vendo a tanto crescer minha porfia, 
Quis mudar de tormento; e por vingança 
Foi buscar no favor a tirania.


17

 

Sonha em torrentes d'água, o que abrasado 
Na sede ardente está; sonha em riqueza 
Aquele, que no horror de uma pobreza 
Anda sempre infeliz, sempre vexado:

 

Assim na agitação de meu cuidado 
De um contínuo delírio esta alma presa, 
Quando é tudo rigor, tudo aspereza, 
Me finjo no prazer de um doce estado.

 

Ao despertar a louca fantasia 
Do enfermo, do mendigo, se descobre 
Do torpe engano seu a imagem fria:

 

Que importa pois, que a idéia alívios cobre, 
Se apesar desta ingrata aleivosia, 
Quanto mais rico estou, estou mais pobre.


18

 

Altas serras, que ao Céu estais servindo 
De muralhas, que o tempo não profana, 
Se Gigantes não sois, que a forma humana 
Em duras penhas foram confundindo?

 

lá sobre o vosso cume se está rindo 
O Monarca da luz, que esta alma engana; 
Pois na face, que ostenta, soberana, 
O rosto de meu bem me vai fingindo.

 

Que alegre, que mimoso, que brilhante
Ele se me afigura! Ah qual efeito 
Em minha alma se sente neste instante!

 

Mas ai! a que delírios me sujeito! 
Se quando no Sol vejo o seu semblante, 
Em vós descubro ó penhas o seu peito?

 

 

 

 

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