Prof. Dr.  Jack Brandão
 
 
Literatura
 
 

SONETOS DE GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

 

A Santa Maria Madalena aos Pés de Cristo


Solicita, procura, reconhece, 
com desvelo, com ânsia, com ventura, 
sem temor, sem soberba, sem loucura, 
a quem ama, a quem crê, por quem padece. 

Ajoelha-se, chora, se enternece, 
com pranto, com afeto, com ternura, 
e se foi indiscreta, falsa, impura, 
despe o mal, veste a graça, o bem conhece. 

A seu Mestre, a seu Deus, a seu querido, 
rega os pés, ais derrama, geme logo, 
sem melindre, sem medo, sem sentido. 

Por assombro, por fé, por desafogo, 
nos seus olhos, na boca, no gemido, 
água brota, ar respira, exala fogo. 

Às Lágrimas Devotas


Lágrimas se derramem, que o pecado 
sabem lavar com sentimento puro, 
que não há nódoa negra, ou rastro impuro 
que não seja das lágrimas lavado. 

Chorou Davi, e foi santificado, 
chorou Pedro, e ficou no amor, seguro, 
Madalena chorou, e o fogo impuro 
em puríssimo fogo foi mudado. 

Ficam no amor as almas mais absortas 
quando as lágrimas correm sucessivas 
sendo portas do Céu, do pranto as portas. 

Cresce a graça nas lágrimas ativas 
que se as culpas mortais são águas mortas, 
as lágrimas da dor são águas vivas. 

Vendo a Anarda Depõe o Sentimento

 

A serpe, que adornando várias cores,
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;

Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.

Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;

Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.



 

 

 

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