SONETOS
É gentil, é prendada a minha Alteia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.
Mas, vendo o lindo gesto de Dirceia
A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!
Prender as duas com grilhões estritos
É uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.
Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de Lorino dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.
2
Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.
De uma parte, um montão de prata e ouro
Com pedras de valor o chão curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.
- Acabou - diz-me então - a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.
Escolhi, acordei, e não vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.
3
Ainda que de Laura esteja ausente,
Há de a chama durar no peito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não nos olhos meus, na minha mente.
Mil vezes finjo vê-la, e eternamente
Abraço a sombra vã; só neste instante
Conheço que ela está de mim distante,
Que tudo é ilusão que esta alma sente.
Talvez que ao bem de a ver amor resista;
Porque minha paixão, que aos céus é grata
Por inocente assim melhor persista;
Pois quando só na idéia ma retrata,
Debuxa os dotes com que prende a vista,
Esconde as obras com que ofende, ingrata.
4.
Adeus, cabana, adeus; adeus, ó gado;
Albina ingrata, adeus, em paz te deixo;
Adeus, doce rabil; neste alto freixo
Te fica, ao meu destino consagrado.
Se te for meu sucesso perguntado,
não declares, rabil, de quem me queixo;
não quero que se saiba vive Aleixo
por causa de uma infame desterrado.
Se vires a pastor desconhecido,
lhe dize então piedoso: - Ah! vai-te embora,
atalha os danos, que outros têm sentido.
Habita nesta aldeia uma pastora,
de rosto belo, coração fingido,
umas vezes cruel, e as mais traidora.
LIRAS
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
-
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado:
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
-
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
-
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
-
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os campos levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar uma rês, o nédio gado.
Já destes bens, Marília, não preciso:
Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
Para viver feliz, Marília, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.
-
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Irás a divertir-te na floresta,
Sustentada, Marília, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço:
Enquanto a luta jogam os Pastores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.
-
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Depois de nos ferir a mão da morte,
Ou seja neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas palavras os Pastores:
“Quem quiser ser feliz nos seus amores,
Siga os exemplos, que nos deram estes.”
-
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Marília, teus olhos
São réus, e culpados,
Que sofra, e que beije
Os ferros pesados
De injusto Senhor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Mal vi o teu rosto,
O sangue gelou-se,
A língua prendeu-se,
Tremi, e mudou-se
Das faces a cor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
A vista furtiva,
O riso imperfeito,
Fizeram a chaga,
Que abriste no peito,
Mais funda, e maior.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Dispus-me a servir-te;
Levava o teu gado
À fonte mais clara,
À vargem, e prado
De relva melhor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Se vinha da herdade,
Trazia dos ninhos
As aves nascidas,
Abrindo os biquinhos
De fome ou temor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Se alguém te louvava,
De gosto me enchia;
Mas sempre o ciúme
No rosto acendia
Um vivo calor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Dirceu se alegrava;
Se estavas sentida,
Dirceu suspirava
À força da dor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Falando com Laura,
Marília dizia;
Sorria-se aquela,
E eu conhecia
O erro de amor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Movida, Marília,
De tanta ternura,
Nos braços me deste
Da tua fé pura
Um doce penhor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Tu mesma disseste
Que tudo podia
Mudar de figura;
Mas nunca seria
Teu peito traidor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Tu já te mudaste;
E a faia frondosa,
Aonde escreveste
A jura horrorosa,
Tem todo o vigor.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Mas eu te desculpo,
Que o fado tirano
Te obriga a deixar-me;
Pois basta o meu dano
Da sorte, que for.
-
Marília, escuta
Um triste Pastor.
Lira V
Acaso são estes
Os sítios formosos.
Aonde passava
Os anos gostosos?
São estes os prados,
Aonde brincava,
Enquanto passava
O gordo rebanho,
Que Alceu me deixou?
-
São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou.
Daquele penhasco
Um rio caía;
Ao som do sussurro
Que vezes dormia!
Agora não cobrem
Espumas nevadas
As pedras quebradas;
Parece que o rio
O curso voltou
-
São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou.
Meus versos alegre
Aqui repetia:
O eco as palavras
Três vezes dizia,
Se chamo por ele,
Já não me responde;
Parece se esconde,
Casado de dar-me
Os ais, que lhe dou.
-
São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou.
Aqui um regato
Corria sereno
Por margens cobertas
De flores, e feno:
À esquerda se erguia
Um bosque fechado,
E o tempo apressado,
Que nada respeita,
Já tudo mudou.
-
São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou.
Mas como discorro?
Acaso podia
Já tudo mudar-se
No espaço de um dia?
Existem as fontes,
E os freixos copados;
Dão flores os prados,
E corre a cascata,
Que nunca secou.
-
São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou.
Minha alma, que tinha
Liberta a vontade,
Agora já sente
Amor, e saudade,
Os sítios formosos me agradaram,
Ah! Não se mudaram;
Mudaram-se os olhos,
De triste que estou.
-
São estes os sítios?
São estes; mas eu
O mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou.
PARTE II
Lira XXXIV
Vou-me, ó Bela, deitar na dura cama,
De que nem sequer sou o pobre dono:
Estende sobre mim Morfeu as asas,
-
E vem ligeiro o sono.
Os sonhos, que rodeiam a tarimba,
Mil coisas vão pintar na minha idéia;
Não pintam cadafalsos, não, não pintam
-
Nenhuma imagem feia.
Pintam que estou bordando um teu vestido;
Que um menino com asas, cego, e louro,
Me enfia nas agulhas o delgado,
-
O brando fio de ouro.
Pintam que entrando vou na grande Igreja;
Pintam que as mãos nos damos, e aqui vejo
Subir-te à branca face a cor mimosa,
-
A viva cor do pejo.
Pintam que nos conduz dourada sege
À nossa habitação; que mil Amores
Desfolham sobre o leito as moles folhas
-
Das mais cheirosas flores.
Pintam que desta terra nos partimos;
Que os amigos saudosos, e suspensos
Apertam nos inchados, roxos olhos
-
Os já molhados lenços.
Pintam que os mares sulco da Bahia;
Onde passei a flor da minha idade;
Que descubro as palmeiras, e eme dois bairros
-
Partidas a grã Cidade.
Pintam leve escaler, e que na prancha
O braço já te of’reço reverente;
Que te aponta c’o dedo, mal te avista,
-
Amontoada gente.
Aqui, alerta, grita o mau soldado;
E o outro, alerta estou, lhe diz gritando:
Acordo com a bulha, então conheço,
-
Que estava aqui sonhando.
Se o meu crime não fosse só de amores,
A ver-me delinqüente, réu de morte,
Não sonhara, Marília, só contigo,
-
Sonhara de outra sorte.
PARTE III
Tu não verás, Marília, cem cativos
Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,
-
Ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os granetes de ouro
-
No fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos;
Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;
-
Lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
-
Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grande livros,
-
E decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus consultos.
Tu me farás gostosa companhia,
Lendo os fatos da sábia mestra história,
-
E os cantos da poesia.
Lerás em alta voz a imagem bela,
Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
Gostoso tornarei a ler de novo
-
O cansado processo.
Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
Que tens quem leve à mais remota idade
-
A tua formosura.
Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
-
nem sou pastor grosseiro,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
-
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
-
Não cinjo coroa d’ouro;
verdeja a coroa do sagrado louro.
-
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
-
que, cego, se arrebata
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
-
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
-
mas antes mais desejo:
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
-
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
-
Jove, mudado em touro
seguir aos deuses nunca foi desdouro.
-
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
Pertendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
-
os louros da vitória;
só dons que vêm do céu são minha glória.
-
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
CARTAS CHILENAS
Amigo leitor, arribou a certo porto do Brasil, onde eu vivia, um galeão, que vinha das Américas espanholas. Nele se transportava um mancebo, cavalheiro instruído nas humanas letras. Não me foi dificultoso travar, com ele, uma estreita amizade e chegou a confiar-me os manuscritos, que trazia. Entre eles encontrei as Cartas Chilenas, que são um artificioso compêndio das desordens, que fez no seu governo Fanfarrão Minésio, general de Chile.
Logo que li estas Cartas, assentei comigo que as devia traduzir na nossa língua, não só porque as julguei merecedoras deste obséquio pela simplicidade do seu estilo, como, também, pelo benefício, que resulta ao público, de se verem satirizadas as insolências deste chefe, para emenda dos mais, que seguem tão vergonhosas pisadas.
Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.
Eu mudei algumas coisas menos interessantes, para as acomodar melhor ao nosso gosto. Peço-te que me desculpes algumas faltas, pois, se és douto, hás-de conhecer a suma dificuldade, que há na tradução em verso. Lê, diverte-te e não queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há muitos fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles, etc.
-
... Quid rides ? mutato nomine, de te
Fabula narratur...
-
Horat. Sat lª, versos 69 e 70.
Em que se descreve a entrada que fez
Fanfarrão em Chile.
Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.
5 -
Critilo, o teu Critilo é quem te chama;
-
Ergue a cabeça da engomada fronha
Acorda, se ouvir queres coisas raras.
"Que coisas, ( tu dirás ), que coisas podes
Contar que valham tanto, quanto vale
10 -
Dormir a noite fria em mole cama,
-
Quando salta a saraiva nos telhados
E quando o sudoeste e outros ventos
Movem dos troncos os frondosos ramos?"
É doce esse descanso, não te nego.
15 -
Também, prezado amigo, também gosto
-
De estar amadornado, mal ouvindo
Das águas despenhadas brando estrondo,
E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,
Que então me pintam os ligeiros sonhos.
20 -
Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;
-
Não falta tempo em que do sono gozes:
Então verás leões com pés de pato,
Verás voarem tigres e camelos,
Verás parirem homens e nadarem
25 -
Os roliços penedos sobre as ondas.
-
Porém que têm que ver estes delírios
Co'os sucessos reais, que vou contar-te?
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama.
30 -
Levanta o corpo das macias penas;
-
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na idéia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos
35 -
Não és tu, Doroteu, aquele mesmo
-
Que pedes que te diga se é verdade
O que se conta dos barbados monos
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber se há grandes peixes,
40 -
Que abraçando os navios com as longas,
-
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrinzados panos ?
Não queres que te informe dos costumes.
45 -
Dos incultos gentios? Não perguntas
-
Se entre eles há nações, que os beiços furam?
E outras que matam, com piedade falsa,
Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas
50 -
Dispersas por imensos alfarrábios,
-
Escuta a história de um moderno chefe.
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, amigo, que podia
55 -
Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!
-
Não penses, Doroteu, que vou contar-te
Por verdadeira história uma novela
Da classe das patranhas, que nos contam
Verbosos navegantes, que já deram
60 -
Ao globo deste mundo volta inteira.
-
Uma velha madrasta me persiga,
Uma mulher zelosa me atormente,
E tenha um bando de gatunos filhos,
Que um chavo não me deixem, se este chefe
65 -
Não fez ainda mais do que eu refiro.
-
Ora pois, doce amigo, vou pintá-lo
Da sorte que o topei a vez primeira;
Nem esta digressão motiva tédio
Como aquelas que são dos fins alheias,
70 -
Que o gesto, mais o traje nas pessoas
-
Faz o mesmo que fazem os letreiros
Nas frentes enfeitadas dos livrinhos,
Que dão, do que eles tratam, boa idéia.
Tem pesado semblante, a cor é baça.
75 -
O corpo de estatura um tanto esbelta
-
Feições compridas e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito e grande, fala pouco
Em rouco, baixo som de mau falsete
80 -
Sem ser velho, já tem cabelo ruço
-
E cobre este defeito e fria calva
À força de polvilho, que lhe deita.
Ainda me parece que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado
85 -
As longas calças pelo umbigo atadas,
-
Amarelo colete e sobre tudo
Vestida uma vermelha e justa farda
De cada bolso da fardeta, pendem
Listadas pontas de dois brancos lenços;
90 -
Na cabeça vazia se atravessa
-
Um chapéu desmarcado, nem sei como
Sustenta o pobre só do laço o peso.
Ah ! tu, Catão severo, tu que estranhas
O rir-se um cônsul moço, que fizeras
95 -
Se em Chile agora entrasses e se visses
-
Ser o rei dos peraltas quem governa ?
Já lá vai, Doroteu, aquela idade
Em que os próprios mancebos, que subiam
À honra do governo, aos outros davam
100 -
Exemplos de modéstia, até nos trajes.
-
Deviam, Doroteu, morrer os povos
Apenas os maiores imitaram
Os rostos e os costumes das mulheres
Seguindo as modas e raspando as barbas.
105 -
Os grandes do país, com gesto humilde
-
Lhe fazem, mal o encontram, seu cortejo;
Ele austero os recebe, só se digna
Afrouxar do toitiço a mola um nada,
Ou pôr nas abas do chapéu os dedos.
110 -
Caminha atrás do chefe um tal Robério
-
Que entre os criados tem respeito de aio;
Estatura pequena, largo o rosto,
Delgadas pernas e pançudo ventre,
Sobejo de ombros, de pescoço falto;
115 -
Tem de pisorga cores e conserva
-
As bufantes bochechas sempre inchadas.
Bem que já velho seja, inda presume
De ser aos olhos das madamas grato
E o demo lhe encaixou que tinha pernas
120 -
Capazes de montar no bom ginete
-
Que rincha no Parnaso. Pobre tonto!
Quem te mete em camisas de onze varas!
Tu só podes cantar, em coxos versos
E ao som da má rebeca, com que atroas
125 -
Os feitos do teu amo e os seus despachos.
-
Ao lado de Robério, vem Matúsio,
Que respira do chefe o modo e o gesto.
É peralta rapaz de tesas gâmbias,
Tem cabelo castanho e brancas faces,
130 -
Tem um ar de mylord e a todos trata
-
Como a inúteis bichinhos; só conversa
Com o rico rendeiro, ou quem lhe conta
Das moças do país as frescas praças.
Dos bolsos da casaca dependura
135 -
As pontas perfumadas dos lencinhos,
-
Que é sinal, ou caráter, que distingue
Aos serventes das casas dos mais homens,
Assim como as famílias se conhecem
Por herdados brasões de antigas armas.
140 -
Montado em nédia mula vem um padre
-
Que tem de capelão as justas honras.
Formou-se em Salamanca, é homem sábio.
Já do mistério do Pilar um dia.
Um sermão recitou, que foi um pasmo.
145 -
Labregão no feitio e meio idoso.
-
Tem olhos encovados, barba tesa,
Fechadas sobrancelhas, rosto fusco,
Cangalhas no nariz. Ah! quem dissera
Que num corpo, que tem de nabo a forma,
150 -
Haviam pôr os céus tão grande caco!
-
O resto da família é todo o mesmo,
Escuso de pintá-lo. Tu bem sabes
Um rifão que nos diz, que dos domingos
Se tiram muito bem os dias santos.
155 -
Ah! pobre Chile, que desgraça esperas!
As pragas, que no Egito se choraram,
Do que veres que sobe ao teu governo
Carrancudo casquilho, a quem rodeiam
160 -
Os néscios, os marotos e os peraltas!
No nosso Santiago junto à noite.
A casa me recolho e cheio destas
Tristíssimas imagens, no discurso,
165 -
Mil coisas feias, sem querer, revolvo.
Na janela da sala e ao ar levanto
Os olhos já molhados. Céus, que vejo!
Não vejo estrelas que, serenas, brilhem,
170 -
Nem vejo a lua que prateia os mares:
Caudato apelidaram. Este cobre
A terra toda co’ disforme rabo.
Aflito o coração no peito bate,
175 -
Erriça-se o cabelo, as pernas tremem.
Se cobre de suor. Tal foi o medo.
Ainda bem o acordo não restauro
Quando logo me lembra que este dia
180 -
É o dia fatal, em que se entende
Não rias, Doroteu, dos meus agouros;
Os antigos romanos foram sábios,
Tiveram agoureiros: estes mesmos
185 -
Muitas vezes choraram, por tomarem
Ajuntavam-se os grandes desta terra.
À noite, em casa do benigno chefe
Que o governo largou. Aqui, alegres,
190 -
Com ele se entretinham largas horas
Fazia a humanidade os seus deveres
No jogo e na conversa deleitosa.
A estas horas entra o novo chefe
195 -
Na casa do recreio e, reparando
E vira a cara, como quem se enoja.
Porque os mais, junto dele não se assentem
Se deixa em pé ficar a noite inteira.
200 -
Não se assenta, civil, da casa o dono
Não se assenta, também, um velho bispo
E a exemplo destes, o congresso todo.
Pensavas, Doroteu, que um peito nobre,
205 -
Que teve mestres, que habitou na corte
Na casa respeitável de um fidalgo,
Distinto pelo cargo que exercia
E, mais ainda, pelo sangue herdado?
210 -
Pois inda, caro amigo, não sabias
Parece, Doroteu, que algumas vezes,
A sábia natureza se descuida.
Devera, doce amigo, sim, devera
215 -
Regular os natais conforme os gênios.
Nascesse de fidalgo e quem tivesse
Os vícios de vilão, nascesse embora,
Se devesse nascer, de algum lacaio,
220 -
Como as pombas, que geram fracas pombas,
Ah ! se isto, Doroteu, assim sucede
Estava o nosso chefe mesmo ao próprio
Para nascer sultão do Turco Império,
225 -
Metido entre vidraças, reclinado
Que de todas as partes o cercavam,
Coçando-lhe umas, levemente, as pernas
E as outras abanando-o, com toalhas:
230 -
Só assim, Doroteu, o nosso chefe
Chegou-se o dia da funesta posse:
Mal os grandes se ajuntam, desce a escada
E, sem mover cabeça, vai meter-se
235 -
Debaixo do lustroso e rico pálio.
Um salmo se repete, em doce coro,
A que ele assiste, desta sorte inchado,
Entesa mais que nunca o seu pescoço.
240 -
Em ar de minuete o pé concerta
Eis aqui, Doroteu, o como param
Os maus comediantes, quando fingem
As pessoas dos grandes, nos teatros.
245 -
Acabada a função, à casa volta;
Co’a mesma pompa com que foi ao templo.
Tu já viste o ministro carrancudo
A quem os tristes pretendentes cercam,
250 -
Quando no régio tribunal se apeia,
Não pára, não responde, não corteja ?
Tu já viste o casquilho, quando sobe
A casa em que se canta e em que se joga,
255 -
Que deixa à porta as bestas e os lacaios,
Pois assim nos tratou o nosso chefe:
Mal à porta chegou, de chefe antigo,
Com ele se recolhe e até ao mesmo
260 -
Luzido, nobre corpo do senado
Da sorte que o lacaio a sege arruma
Por não tomar a rua às outras seges,
Assim os cidadãos o pálio encostam
265 -
Ao batente da porta e, quais lacaios,
Ou, a ele ficar, que os mande embora.
À vista desta ação indigna e feia,
Todo o congresso se confunde e pasma.
270 -
Sobe às faces de alguns a cor rosada,
Louva esta o proceder do chefe antigo,
Aquele o proceder do novo estranha,
E os que podem vencer do gênio a força
275 -
Aos mais escutam, sem dizer palavra.
Que, na Europa, te dão os homens grandes?
Os mesmos reis não honram aos vassalos?
Deixam de ser, por isso, uns bons monarcas?
280 -
Como errado caminhas! O respeito
E nelas se sustenta. Nunca nasce
Do susto e do temor, que aos povos metem
injúrias, descortejos e carrancas.
285 -
Findou-se, Doroteu, a longa história
Que é tempo, descansar um breve instante.
Nas outras contarei, prezado amigo,
Os fatos, que ele obrou no seu governo,
290 -
Se acaso os justos céus quiserem dar-me.
-
Para tanto escrever, papel e tempo.
