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   By JackBran Consultoria Ltda.

 

 

 

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 Tabela de pontuação

 

Todas as regras de  pontuação empregadas na Língua Portuguesa  de forma clara e acessível a todos.

 

 

 

 

 

Revisão Textual

 

Todo texto escrito deve levar em conta os princípios e as regras estabelecidas...

 

 

 

 

 

 Tabela de morfologia

 

Toda a morfologia da Língua Portuguesa resumida e de forma clara e acessível a todos.

 

 

 

 

 

 

Exercícios de gramática

 

Vários exercícios de gramática para aprofundamento e para fixação dos conteúdos apresentados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Análise de obras literárias

 

 

Obras literárias consagradas de forma acessível e analisadas por meio de mapas conceituais.

 

 

 

 

 

 

Técnicas de redação

 

 

Por meio de desvios do padrão culto, disponibilizamos apostilas para que se possa apreender e aprender a escrever textos dissertativos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 






SONETOS

 

                               1

 

É gentil, é prendada a minha Alteia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.

 

Mas, vendo o lindo gesto de Dirceia
A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!

 

Prender as duas com grilhões estritos
É uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.

 

Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de Lorino dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.


                            2

 

Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.  

 

De uma parte, um montão de prata e ouro
Com pedras de valor o chão curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro. 

 

- Acabou - diz-me então - a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.  

 

Escolhi, acordei, e não vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.


                          3

 

Ainda que de Laura esteja ausente,
Há de a chama durar no peito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não nos olhos meus, na minha mente.  

 

Mil vezes finjo vê-la, e eternamente
Abraço a sombra vã; só neste instante
Conheço que ela está de mim distante,
Que tudo é ilusão que esta alma sente.  

 

Talvez que ao bem de a ver amor resista;
Porque minha paixão, que aos céus é grata
Por inocente assim melhor persista;  

 

Pois quando só na idéia ma retrata,
Debuxa os dotes com que prende a vista,
Esconde as obras com que ofende, ingrata.


                         4.

 

Adeus, cabana, adeus; adeus, ó gado;
Albina ingrata, adeus, em paz te deixo;
Adeus, doce rabil; neste alto freixo
Te fica, ao meu destino consagrado.  

 

Se te for meu sucesso perguntado,
não declares, rabil, de quem me queixo;
não quero que se saiba vive Aleixo
por causa de uma infame desterrado.  

 

Se vires a pastor desconhecido,
lhe dize então piedoso: - Ah! vai-te embora,
atalha os danos, que outros têm sentido. 

 

Habita nesta aldeia uma pastora,
de rosto belo, coração fingido,
umas vezes cruel, e as mais traidora.

 

 

                         LIRAS

 

                           Lira I

 

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.

 

      Graças, Marília bela,
      Graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado:
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,

 

      Graças, Marília bela,
      Graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.

 

      Graças, Marília bela,
      Graças à minha Estrela!

Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.

 

      Graças, Marília bela,
      Graças à minha Estrela!

Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os campos levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar uma rês, o nédio gado.
Já destes bens, Marília, não preciso:
Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
Para viver feliz, Marília, basta
Que os olhos movas, e me dês um riso.

 

      Graças, Marília bela,
      Graças à minha Estrela!
 

Irás a divertir-te na floresta,
Sustentada, Marília, no meu braço;
Ali descansarei a quente sesta,
Dormindo um leve sono em teu regaço:
Enquanto a luta jogam os Pastores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabelos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.

 

      Graças, Marília bela,
      Graças à minha Estrela!

Depois de nos ferir a mão da morte,
Ou seja neste monte, ou noutra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir os dois a mesma terra.
Na campa, rodeada de ciprestes,
Lerão estas palavras os Pastores:
“Quem quiser ser feliz nos seus amores,
Siga os exemplos, que nos deram estes.”

 

      Graças, Marília bela,
      Graças à minha Estrela!

 

 

                           Lira IV

 

Marília, teus olhos
São réus, e culpados,
Que sofra, e que beije
Os ferros pesados
De injusto Senhor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Mal vi o teu rosto,
O sangue gelou-se,
A língua prendeu-se,
Tremi, e mudou-se
Das faces a cor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

A vista furtiva,
O riso imperfeito,
Fizeram a chaga,
Que abriste no peito,
Mais funda, e maior.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Dispus-me a servir-te;
Levava o teu gado
À fonte mais clara,
À vargem, e prado
De relva melhor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Se vinha da herdade,
Trazia dos ninhos
As aves nascidas,
Abrindo os biquinhos
De fome ou temor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Se alguém te louvava,
De gosto me enchia;
Mas sempre o ciúme
No rosto acendia
Um vivo calor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Se estavas alegre,
Dirceu se alegrava;
Se estavas sentida,
Dirceu suspirava
À força da dor.
     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Falando com Laura,
Marília dizia;
Sorria-se aquela,
E eu conhecia
O erro de amor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Movida, Marília,
De tanta ternura,
Nos braços me deste
Da tua fé pura
Um doce penhor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Tu mesma disseste
Que tudo podia
Mudar de figura;
Mas nunca seria
Teu peito traidor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Tu já te mudaste;
E a faia frondosa,
Aonde escreveste
A jura horrorosa,
Tem todo o vigor.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.

Mas eu te desculpo,
Que o fado tirano
Te obriga a deixar-me;
Pois basta o meu dano
Da sorte, que for.

 

     Marília, escuta
     Um triste Pastor.
 

 

                           Lira V

 

Acaso são estes
Os sítios formosos.
Aonde passava
Os anos gostosos?
São estes os prados,
Aonde brincava,
Enquanto passava
O gordo rebanho,
Que Alceu me deixou?

 

     São estes os sítios?
     São estes; mas eu
     O mesmo não sou.
     Marília, tu chamas?
     Espera, que eu vou.

Daquele penhasco
Um rio caía;
Ao som do sussurro
Que vezes dormia!
Agora não cobrem
Espumas nevadas
As pedras quebradas;
Parece que o rio
O curso voltou

 

     São estes os sítios?
     São estes; mas eu
     O mesmo não sou.
     Marília, tu chamas?
     Espera, que eu vou.

Meus versos alegre
Aqui repetia:
O eco as palavras
Três vezes dizia,
Se chamo por ele,
Já não me responde;
Parece se esconde,
Casado de dar-me
Os ais, que lhe dou.

 

     São estes os sítios?
     São estes; mas eu
     O mesmo não sou.
     Marília, tu chamas?
     Espera, que eu vou.

Aqui um regato
Corria sereno
Por margens cobertas
De flores, e feno:
À esquerda se erguia
Um bosque fechado,
E o tempo apressado,
Que nada respeita,
Já tudo mudou.

 

     São estes os sítios?
     São estes; mas eu
     O mesmo não sou.
     Marília, tu chamas?
     Espera, que eu vou.

Mas como discorro?
Acaso podia
Já tudo mudar-se
No espaço de um dia?
Existem as fontes,
E os freixos copados;
Dão flores os prados,
E corre a cascata,
Que nunca secou.

 

     São estes os sítios?
     São estes; mas eu
     O mesmo não sou.
     Marília, tu chamas?
     Espera, que eu vou.

Minha alma, que tinha
Liberta a vontade,
Agora já sente
Amor, e saudade,
Os sítios formosos me agradaram,
Ah! Não se mudaram;
Mudaram-se os olhos,
De triste que estou.

 

     São estes os sítios?
     São estes; mas eu
     O mesmo não sou.
     Marília, tu chamas?
     Espera, que eu vou.

 

PARTE II

 

                           Lira XXXIV

 

Vou-me, ó Bela, deitar na dura cama,
De que nem sequer sou o pobre dono:
Estende sobre mim Morfeu as asas,

     E vem ligeiro o sono.

Os sonhos, que rodeiam a tarimba,
Mil coisas vão pintar na minha idéia;
Não pintam cadafalsos, não, não pintam

 

     Nenhuma imagem feia.

Pintam que estou bordando um teu vestido;
Que um menino com asas, cego, e louro,
Me enfia nas agulhas o delgado,

 

     O brando fio de ouro.

Pintam que entrando vou na grande Igreja;
Pintam que as mãos nos damos, e aqui vejo
Subir-te à branca face a cor mimosa,

 

     A viva cor do pejo.

Pintam que nos conduz dourada sege
À nossa habitação; que mil Amores
Desfolham sobre o leito as moles folhas

 

     Das mais cheirosas flores.

Pintam que desta terra nos partimos;
Que os amigos saudosos, e suspensos
Apertam nos inchados, roxos olhos

 

     Os já molhados lenços.

Pintam que os mares sulco da Bahia;
Onde passei a flor da minha idade;
Que descubro as palmeiras, e eme dois bairros

 

     Partidas a grã Cidade.

Pintam leve escaler, e que na prancha
O braço já te of’reço reverente;
Que te aponta c’o dedo, mal te avista,

 

     Amontoada gente.

Aqui, alerta, grita o mau soldado;
E o outro, alerta estou, lhe diz gritando:

Acordo com a bulha, então conheço,

 

     Que estava aqui sonhando.

Se o meu crime não fosse só de amores,
A ver-me delinqüente, réu de morte,
Não sonhara, Marília, só contigo,

 

     Sonhara de outra sorte.

 

 

PARTE III

 

                          Lira III

 

Tu não verás, Marília, cem cativos
Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,

 

     Ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro
Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os granetes de ouro

 

     No fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos;
Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;

 

     Lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas

 

     Da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grande livros,

 

     E decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos.
Tu me farás gostosa companhia,
Lendo os fatos da sábia mestra história,

 

     E os cantos da poesia.

Lerás em alta voz a imagem bela,
Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
Gostoso tornarei a ler de novo

 

     O cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
Que tens quem leve à mais remota idade

 

     A tua formosura.

 

 

Lira V

 

Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;

 

     nem sou pastor grosseiro,

dos frios gelos e do sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
     Graças, ó Nise bela,
     graças à minha estrela!

A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.

 

     Não cinjo coroa d’ouro;

mas povos mando, e na testa altiva
verdeja a coroa do sagrado louro.
     Graças, ó Nise bela,
     graças à minha estrela!

Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,

 

     que, cego, se arrebata

em buscar nos avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
     Graças, ó Nise bela,
     graças à minha estrela!

As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;

 

    mas antes mais desejo:

não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
     Graças, ó Nise bela,
     graças à minha estrela!

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?

 

     Jove, mudado em touro

e já mudado em velha não suspira?
seguir aos deuses nunca foi desdouro.
     Graças, ó Nise bela,
     graças à minha estrela!

Pertendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,

 

     os louros da vitória;

eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória.
     Graças, ó Nise bela,
     graças à minha estrela!

 

 

CARTAS CHILENAS

 

PRÓLOGO

 

Amigo leitor, arribou a certo porto do Brasil, onde eu vivia, um galeão, que vinha das Américas espanholas. Nele se transportava um mancebo, cavalheiro instruído nas humanas letras. Não me foi dificultoso travar, com ele, uma estreita amizade e chegou a confiar-me os manuscritos, que trazia. Entre eles encontrei as Cartas Chilenas, que são um artificioso compêndio das desordens, que fez no seu governo Fanfarrão Minésio, general de Chile.

 

Logo que li estas Cartas, assentei comigo que as devia traduzir na nossa língua, não só porque as julguei merecedoras deste obséquio pela simplicidade do seu estilo, como, também, pelo benefício, que resulta ao público, de se verem satirizadas as insolências deste chefe, para emenda dos mais, que seguem tão vergonhosas pisadas.

 

Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.

 

Eu mudei algumas coisas menos interessantes, para as acomodar melhor ao nosso gosto. Peço-te que me desculpes algumas faltas, pois, se és douto, hás-de conhecer a suma dificuldade, que há na tradução em verso. Lê, diverte-te e não queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há muitos fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles, etc.

 

        ... Quid rides ? mutato nomine, de te

        Fabula narratur...

            Horat. Sat lª, versos 69 e 70.

 

CARTA 1ª
 
 

      Em que se descreve a entrada que fez

      Fanfarrão em Chile.

     

    Amigo Doroteu, prezado amigo,

    Abre os olhos, boceja, estende os braços

    E limpa, das pestanas carregadas,

    O pegajoso humor, que o sono ajunta.

5 -     

Critilo, o teu Critilo é quem te chama;

    Ergue a cabeça da engomada fronha

    Acorda, se ouvir queres coisas raras.

    "Que coisas, ( tu dirás ), que coisas podes

    Contar que valham tanto, quanto vale

10 -   

Dormir a noite fria em mole cama,

    Quando salta a saraiva nos telhados

    E quando o sudoeste e outros ventos

    Movem dos troncos os frondosos ramos?"

    É doce esse descanso, não te nego.

15 - 

Também, prezado amigo, também gosto

    De estar amadornado, mal ouvindo

    Das águas despenhadas brando estrondo,

    E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,

    Que então me pintam os ligeiros sonhos.

20 - 

Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;

    Não falta tempo em que do sono gozes:

    Então verás leões com pés de pato,

    Verás voarem tigres e camelos,

    Verás parirem homens e nadarem

25 -  

Os roliços penedos sobre as ondas.

    Porém que têm que ver estes delírios

    Co'os sucessos reais, que vou contar-te?

    Acorda, Doroteu, acorda, acorda;

    Critilo, o teu Critilo é quem te chama.

30 -  

Levanta o corpo das macias penas;

    Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,

    Estranhos casos, que jamais pintaram

    Na idéia do doente, ou de quem dorme

    Agudas febres, desvairados sonhos

35 - 

Não és tu, Doroteu, aquele mesmo

    Que pedes que te diga se é verdade

    O que se conta dos barbados monos

    Que à mesa trazem os fumantes pratos?

    Não desejas saber se há grandes peixes,

40 - 

Que abraçando os navios com as longas,

    Robustas barbatanas, os suspendem,

    Inda que o vento, que d'alheta sopra,

    Lhes inche os soltos, desrinzados panos ?

    Não queres que te informe dos costumes.

45 - 

Dos incultos gentios? Não perguntas

    Se entre eles há nações, que os beiços furam?

    E outras que matam, com piedade falsa,

    Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?

    Pois se queres ouvir notícias velhas

50 - 

Dispersas por imensos alfarrábios,

    Escuta a história de um moderno chefe.

    Que acaba de reger a nossa Chile,

    Ilustre imitador a Sancho Pança.

    E quem dissera, amigo, que podia

55 - 

Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!

    Não penses, Doroteu, que vou contar-te

    Por verdadeira história uma novela

    Da classe das patranhas, que nos contam

    Verbosos navegantes, que já deram

60 - 

Ao globo deste mundo volta inteira.

    Uma velha madrasta me persiga,

    Uma mulher zelosa me atormente,

    E tenha um bando de gatunos filhos,

    Que um chavo não me deixem, se este chefe

65 - 

Não fez ainda mais do que eu refiro.

    Ora pois, doce amigo, vou pintá-lo

    Da sorte que o topei a vez primeira;

    Nem esta digressão motiva tédio

    Como aquelas que são dos fins alheias,

70 - 

Que o gesto, mais o traje nas pessoas

    Faz o mesmo que fazem os letreiros

    Nas frentes enfeitadas dos livrinhos,

    Que dão, do que eles tratam, boa idéia.

    Tem pesado semblante, a cor é baça.

75 - 

O corpo de estatura um tanto esbelta

    Feições compridas e olhadura feia,

    Tem grossas sobrancelhas, testa curta,

    Nariz direito e grande, fala pouco

    Em rouco, baixo som de mau falsete

80 -

Sem ser velho, já tem cabelo ruço

    E cobre este defeito e fria calva

    À força de polvilho, que lhe deita.

    Ainda me parece que o estou vendo

    No gordo rocinante escarranchado

85 - 

As longas calças pelo umbigo atadas,

    Amarelo colete e sobre tudo

    Vestida uma vermelha e justa farda

    De cada bolso da fardeta, pendem

    Listadas pontas de dois brancos lenços;

90 - 

Na cabeça vazia se atravessa

    Um chapéu desmarcado, nem sei como

    Sustenta o pobre só do laço o peso.

    Ah ! tu, Catão severo, tu que estranhas

    O rir-se um cônsul moço, que fizeras

95 - 

Se em Chile agora entrasses e se visses

    Ser o rei dos peraltas quem governa ?

    Já lá vai, Doroteu, aquela idade

    Em que os próprios mancebos, que subiam

    À honra do governo, aos outros davam

100 - 

Exemplos de modéstia, até nos trajes.

    Deviam, Doroteu, morrer os povos

    Apenas os maiores imitaram

    Os rostos e os costumes das mulheres

    Seguindo as modas e raspando as barbas.

105 - 

Os grandes do país, com gesto humilde

    Lhe fazem, mal o encontram, seu cortejo;

    Ele austero os recebe, só se digna

    Afrouxar do toitiço a mola um nada,

    Ou pôr nas abas do chapéu os dedos.

110 - 

Caminha atrás do chefe um tal Robério

    Que entre os criados tem respeito de aio;

    Estatura pequena, largo o rosto,

    Delgadas pernas e pançudo ventre,

    Sobejo de ombros, de pescoço falto;

115 - 

Tem de pisorga cores e conserva

    As bufantes bochechas sempre inchadas.

    Bem que já velho seja, inda presume

    De ser aos olhos das madamas grato

    E o demo lhe encaixou que tinha pernas

120 - 

Capazes de montar no bom ginete

    Que rincha no Parnaso. Pobre tonto!

    Quem te mete em camisas de onze varas!

    Tu só podes cantar, em coxos versos

    E ao som da má rebeca, com que atroas

125 - 

Os feitos do teu amo e os seus despachos.

    Ao lado de Robério, vem Matúsio,

    Que respira do chefe o modo e o gesto.

    É peralta rapaz de tesas gâmbias,

    Tem cabelo castanho e brancas faces,

130 - 

Tem um ar de mylord e a todos trata

    Como a inúteis bichinhos; só conversa

    Com o rico rendeiro, ou quem lhe conta

    Das moças do país as frescas praças.

    Dos bolsos da casaca dependura

135 - 

As pontas perfumadas dos lencinhos,

    Que é sinal, ou caráter, que distingue

    Aos serventes das casas dos mais homens,

    Assim como as famílias se conhecem

    Por herdados brasões de antigas armas.

140 - 

Montado em nédia mula vem um padre

    Que tem de capelão as justas honras.

    Formou-se em Salamanca, é homem sábio.

    Já do mistério do Pilar um dia.

    Um sermão recitou, que foi um pasmo.

145 - 

Labregão no feitio e meio idoso.

    Tem olhos encovados, barba tesa,

    Fechadas sobrancelhas, rosto fusco,

    Cangalhas no nariz. Ah! quem dissera

    Que num corpo, que tem de nabo a forma,

150 - 

Haviam pôr os céus tão grande caco!

    O resto da família é todo o mesmo,

    Escuso de pintá-lo. Tu bem sabes

    Um rifão que nos diz, que dos domingos

    Se tiram muito bem os dias santos.

155 - 

Ah! pobre Chile, que desgraça esperas!

    Quanto melhor te fora se sentisses

    As pragas, que no Egito se choraram,

    Do que veres que sobe ao teu governo

    Carrancudo casquilho, a quem rodeiam

160 - 

Os néscios, os marotos e os peraltas!

    Seguido, pois, dos grandes entra o chefe

    No nosso Santiago junto à noite.

    A casa me recolho e cheio destas

    Tristíssimas imagens, no discurso,

165 - 

Mil coisas feias, sem querer, revolvo.

    Por ver se a dor divirto, vou sentar-me

    Na janela da sala e ao ar levanto

    Os olhos já molhados. Céus, que vejo!

    Não vejo estrelas que, serenas, brilhem,

170 - 

Nem vejo a lua que prateia os mares:

    Vejo um grande cometa, a quem os doutos

    Caudato apelidaram. Este cobre

    A terra toda co’ disforme rabo.

    Aflito o coração no peito bate,

175 - 

Erriça-se o cabelo, as pernas tremem.

    O sangue se congela e todo o corpo

    Se cobre de suor. Tal foi o medo.

    Ainda bem o acordo não restauro

    Quando logo me lembra que este dia

180 - 

É o dia fatal, em que se entende

    Que andam, no mundo, soltos, os diabos.

    Não rias, Doroteu, dos meus agouros;

    Os antigos romanos foram sábios,

    Tiveram agoureiros: estes mesmos

185 - 

Muitas vezes choraram, por tomarem

    Os avisos celestes como acasos.

    Ajuntavam-se os grandes desta terra.

    À noite, em casa do benigno chefe

    Que o governo largou. Aqui, alegres,

190 - 

Com ele se entretinham largas horas

    Depostos os melindres da grandeza,

    Fazia a humanidade os seus deveres

    No jogo e na conversa deleitosa.

    A estas horas entra o novo chefe

195 - 

Na casa do recreio e, reparando

    Nos membros do congresso, a testa enruga,

    E vira a cara, como quem se enoja.

    Porque os mais, junto dele não se assentem

    Se deixa em pé ficar a noite inteira.

200 - 

Não se assenta, civil, da casa o dono

    Não se assenta, que é mais, a ilustre esposa;

    Não se assenta, também, um velho bispo

    E a exemplo destes, o congresso todo.

    Pensavas, Doroteu, que um peito nobre,

205 - 

Que teve mestres, que habitou na corte

    Havia praticar ação tão feia

    Na casa respeitável de um fidalgo,

    Distinto pelo cargo que exercia

    E, mais ainda, pelo sangue herdado?

210 - 

Pois inda, caro amigo, não sabias

    Quanto pode a tolice e vã soberba.

    Parece, Doroteu, que algumas vezes,

    A sábia natureza se descuida.

    Devera, doce amigo, sim, devera

215 - 

Regular os natais conforme os gênios.

    Quem tivesse as virtudes de fidalgo,

    Nascesse de fidalgo e quem tivesse

    Os vícios de vilão, nascesse embora,

    Se devesse nascer, de algum lacaio,

220 - 

Como as pombas, que geram fracas pombas,

    Como os tigres, que geram tigres bravos.

    Ah ! se isto, Doroteu, assim sucede

    Estava o nosso chefe mesmo ao próprio

    Para nascer sultão do Turco Império,

225 - 

Metido entre vidraças, reclinado

    Em coxins de veludo e vendo as moças,

    Que de todas as partes o cercavam,

    Coçando-lhe umas, levemente, as pernas

    E as outras abanando-o, com toalhas:

230 - 

Só assim, Doroteu, o nosso chefe

    Ficaria de si um tanto pago.

    Chegou-se o dia da funesta posse:

    Mal os grandes se ajuntam, desce a escada

    E, sem mover cabeça, vai meter-se

235 - 

Debaixo do lustroso e rico pálio.

    Caminham todos juntos para o templo,

    Um salmo se repete, em doce coro,

    A que ele assiste, desta sorte inchado,

    Entesa mais que nunca o seu pescoço.

240 - 

Em ar de minuete o pé concerta

    E arqueia o braco esquerdo sobre a ilharga.

    Eis aqui, Doroteu, o como param

    Os maus comediantes, quando fingem

    As pessoas dos grandes, nos teatros.

245 - 

Acabada a função, à casa volta;

    (Os grandes o acompanham, descontentes),

    Co’a mesma pompa com que foi ao templo.

    Tu já viste o ministro carrancudo

    A quem os tristes pretendentes cercam,

250 - 

Quando no régio tribunal se apeia,

    Que, bem que humildes em tropel o sigam,

    Não pára, não responde, não corteja ?

    Tu já viste o casquilho, quando sobe

    A casa em que se canta e em que se joga,

255 - 

 Que deixa à porta as bestas e os lacaios,

    Sem sequer se lembrar que venta e chove?

    Pois assim nos tratou o nosso chefe:

    Mal à porta chegou, de chefe antigo,

    Com ele se recolhe e até ao mesmo

260 - 

Luzido, nobre corpo do senado

    Não fala, não corteja, nem despede.

    Da sorte que o lacaio a sege arruma

    Por não tomar a rua às outras seges,

    Assim os cidadãos o pálio encostam

265 - 

Ao batente da porta e, quais lacaios,

    Na rua, esperam que seu amo desça,

    Ou, a ele ficar, que os mande embora.

    À vista desta ação indigna e feia,

    Todo o congresso se confunde e pasma.

270 - 

Sobe às faces de alguns a cor rosada,

    Perdem outros a cor das roxas faces;

    Louva esta o proceder do chefe antigo,

    Aquele o proceder do novo estranha,

    E os que podem vencer do gênio a força

275 - 

Aos mais escutam, sem dizer palavra.

    São estes, louco chefe, os sãos exemplos

    Que, na Europa, te dão os homens grandes?

    Os mesmos reis não honram aos vassalos?

    Deixam de ser, por isso, uns bons monarcas?

280 - 

Como errado caminhas! O respeito

    Por meio das virtudes se consegue

    E nelas se sustenta. Nunca nasce

    Do susto e do temor, que aos povos metem

    injúrias, descortejos e carrancas.

285 - 

Findou-se, Doroteu, a longa história

    Da entrada deste chefe, agora vamos,

    Que é tempo, descansar um breve instante.

    Nas outras contarei, prezado amigo,

    Os fatos, que ele obrou no seu governo,

290 - 

Se acaso os justos céus quiserem dar-me.

    Para tanto escrever, papel e tempo.