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Prof. Dr. Antônio Jackson de Souza Brandão |
ESTRUTURA DO CONTO
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A estrutura do conto[1]
Histórico
A origem do conto está na transmissão oral dos fatos, no ato de contar histórias, que antecede a escrita e nos remete a tempos remotos. O ato de narrar um acontecimento oralmente evoluiu para o registro escrito desta narrativa. E o narrador também evoluiu de um simples contador de histórias para a figura de um narrador preocupado com aspectos criativos e estéticos. É no início da Idade Moderna que o conto se consolida como literatura. Três livros são considerados os precursores do gênero: As mil e uma noites, Canterbury Tales, de Chaucer, e O Decamerão, de Giovanni Bocaccio. Estes títulos apareceram no Ocidente no século XIV e disseminaram-se pelo mundo nos séculos XVI e XVIII. Um momento de grande desenvolvimento do conto foi o século XIX, devido à acentuada expansão da imprensa que permitiu a publicação dos textos. Algumas características comuns acabaram por agrupar as várias formas de narrar e isso aproximou o conto de um gênero literário. Este novo gênero foi identificado pela primeira vez nos EUA, por volta de 1880, e designado Short Story. Posteriormente, o conto evoluiu de sua forma tradicional, na qual a ação e o conflito passam pelo desenvolvimento até o desfecho, com crise e resolução final, para as formas modernas de narrar, na qual a estrutura se fragmenta e subverte este esquema. Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant e Anton Tchekóv, são alguns dos contistas clássicos que mais influenciaram as formas modernas do conto. Definição
A palavra conto quer dizer:
1.
Narração falada ou escrita de um acontecimento.
2.
Narração de uma história ou historieta imaginadas.
3.
Fábula.
Os estudiosos da teoria do conto se dividem em duas correntes: A dos que aceitam definições e a dos que não aceitam. Mas mesmo os que as aceitam concordam que definir conto não é tarefa fácil. O escritor e contista Júlio Cortázar afirma que o conto é "um gênero de difícil definição, esquivo nos seus múltiplos e antagônicos aspectos". No estudo “Teoria do conto”, Nádia Battella Gotlib, "cola" as impressões de diversos estudiosos do conto e chega à seguinte equação:
O segredo do conto é promover o seqüestro do leitor, prendendo-o num
efeito que lhe permite a visão em conjunto da obra, desde que todos os
elementos do conto são incorporados tendo em vista a construção deste efeito
(Poe). Neste seqüestro temporário existe uma força de tensão num sistema de
relações entre elementos do conto, em que cada detalhe é significativo (Cortázar).
O conto centra-se num conflito dramático em que cada gesto, cada olhar são
até mesmo teatralmente utilizados pelo narrador (Bowen). Não lhe falta a
construção simétrica de um episódio, num espaço determinado (Matthews).
Trata-se de um acidente de vida, cercado de um ligeiro antes e depois
(Oiticica). De tal forma que esta ação parece ter sido mesmo criada para um
conto, adaptando-se a este gênero e não a outro, por seu caráter de
contração (Friedman). Este é um lado da questão teórica referente às
características específicas do gênero conto. Os gêneros da prosa Os gêneros mais
difundidos da literatura em prosa são o romance, a novela e o conto. A
maneira mais fácil, e talvez a mais precisa, de distingui-los é pelo
tamanho. · romance: narrativa longa com multiplicidade de efeito, na qual o clímax encontra-se antes do final; ·
novela: narrativa média com
multiplicidade de efeito, que termina num clímax; ·
conto: narrativa curta com
unidade de efeito, que termina num clímax. Segundo Ítalo Moriconi "Pelos
critérios atuais, pode-se dizer que um conto é uma narrativa de no máximo 20
a 25 páginas". A brevidade do conto
Considerando que o conto é o gênero de menor tamanho, a questão da brevidade é fundamental na sua construção. Nas palavras de Anton Tcheckov "é preferível não dizer o suficiente do que dizer demais". Portanto, é importante limitar o número de personagens e episódios, eleger os detalhes primordiais e evitar explicações em demasia. ·
Economia dos meios narrativos: Uma fórmula para a brevidade
seria conseguir o máximo efeito com o mínimo de meios. Tudo que não
for primordial para alcançar o efeito desejado – toda a informação que não
convergir para o desfecho – deve ser suprimido. Intensidade
Outro aspecto fundamental, além da brevidade é a intensidade. Há duas metáforas criativas e precisas, criadas por Júlio Cortázar, que definem bem a questão:
O conto está para a fotografia como o romance está para o cinema. No conto o autor vence o leitor por nocaute, enquanto no romance a luta é vencida por pontos. · Unidade de Efeito: Uma narrativa só é suficientemente intensa a ponto de causar impacto no leitor se tiver unidade de efeito. Para alcançar esta unidade é preciso que o autor tenha em mente, durante a construção do conto, que efeito deseja causar no leitor. A concisão tem importância fundamental para se conseguir essa unidade. · Significação: Como na fotografia o conto necessita selecionar o significativo. Uma narrativa só se torna significativa quando transcende a história que conta abrindo-se para algo maior. · Tensão: A tensão é uma forma diferente de imprimir intensidade à narrativa. Em vez de os fatos se desenrolarem de forma abrupta, o autor vai desvendando aos poucos o que conta, usa a técnica do suspense, adia a resolução da ação e instiga a curiosidade do leitor. Temática Pode se dizer que
a temática do conto é praticamente ilimitada. Quase tudo pode ser objeto
para um conto. Mas em princípio a idéia de conto está ligada ao
acontecimento. É preciso que algo aconteça, mesmo que o acontecimento seja o
nada acontecer. · Momento especial: É importante que exista algo especial na representação daquele recorte da vida que gera o conto, o flagrante de um determinado instante que de alguma forma interesse ao leitor. Seja pela novidade, pela surpresa, pelo inusitado, pelo cômico ou pelo trágico de uma situação. · O conto de acontecimento: As formas originais e tradicionais de narrativa estão ligadas ao acontecimento, ao fato. · O conto de atmosfera: As formas modernas de narrativa instituíram a investigação psicológica das personagens e não apenas acontecimentos pontuais. · Combinação: Aliar os recursos tradicionais com aqueles que vão surgindo é uma boa forma de combinar tradição e modernidade. A narrativa ganha qualidade quando mistura os acontecimentos à investigação psicológica das personagens que os vivenciam ou presenciam.
Desfecho
Todo o enredo deve ser elaborado para o desfecho, cada
palavra deve confluir para o desenlace. Só com o desfecho sempre à vista é
possível conferir a um enredo o ar de conseqüência e causalidade. Projeto
Planejar a construção da obra, tendo em vista um efeito predeterminado, pode ajudar. Mas nem toda obra se faz por meio de um processo mecânico. Há textos que simplesmente fluem e estão maduros antes mesmo de chegarem ao papel. Fragmento
Seguindo a linha de raciocínio de Júlio Cortazar, quando ele compara o conto à fotografia, concluímos que o conto se caracteriza por seu teor fragmentário, uma vez que capta o presente, o momentâneo, o instante temporário, sem antes e sem depois. O conto e o teatro "Sem conflito não há teatro" é uma idéia bastante difundida em dramaturgia. A semelhança entre a estrutura do conto e do teatro é exatamente esta, o conflito dramático, fundamental em ambas as formas. Assim como o conflito é a alma de um texto teatral, a crise é primordial na construção do conto também. Cronologia Ao contrário do romance, o conto não tem nenhum compromisso em situar cronologicamente os fatos. Conclusão Esqueça tudo que você leu até agora e pense... pense... pense... Escrever contos é um exercício constante de reflexão. Definições e regras para se escrever contos são encontradas em diversos manuais que, de certa forma, são responsáveis pela estereotipagem do gênero e sua conseqüente degradação. Por isso, a necessidade de romper com as camisas-de-força que pretendam enquadrar qualquer manifestação artística, romper com definições rigorosas e libertar a produção de contos do excesso de regras que limitam a criatividade e a inovação. Os contistas e sua opinião acerca do gênero
Alex Gennari: "Se no conto o autor vence o leitor por
nocaute, enquanto no romance, vence por pontos; no microconto, o nocaute
acontece logo no primeiro assalto! Para tanto, o autor deve ser tão
fulminante com as palavras, quanto Mike Tyson era com as luvas em seus
áureos tempos (...) Aliás, o termo ‘corruíra nanica’, soa muito melhor do
que microconto. É mais criativo, menos acadêmico”.
Edgar Allan Poe: "No conto breve, o autor é capaz de
realizar a plenitude de sua intenção, seja ela qual for. Durante a hora de
leitura atenta, a alma do leitor está sob o controle do escritor. Não há
nenhuma influência externa ou extrínseca que resulte de cansaço ou
interrupção”.
Júlio Cortázar: "Um conto é significativo quando quebra
seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina
bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história
que conta (...) o tempo e o espaço do conto têm de estar como que
condensados, submetidos a uma alta pressão espiritual e formal para provocar
essa 'abertura'“.
Boris Eikhenbaum: "Short Story é um termo que subentende
sempre uma história que deve responder a duas condições: dimensões reduzidas
e destaque dado à conclusão. Essas condições criam uma forma que, em seus
limites e em seus procedimentos, é inteiramente diferente daquela do
romance”.
J. Berg Esenwein: “O conto é uma narrativa breve;
desenrolando um só incidente predominante e uma personagem principal, contém
um assunto cujos detalhes são tão comprimidos e o conjunto do tratamento tão
organizado, que produzem uma só impressão”.
José Oiticica: "[que o conto] seja ou pareça-nos realmente
um 'caso' considerado pela novidade, pelo repente, pelo engraçado ou pelo
trágico”.
Anton Tcheckov: "Em contos, é melhor não dizer o suficiente
que dizer demais”.
Machado de Assis: "O tamanho não faz mal a esse gênero de
histórias, é naturalmente a sua qualidade”.
Horácio Quiroga: "O conto literário consta dos mesmos
elementos que o conto oral e é, como este, o relato de uma história bastante
interessante e suficientemente breve para que absorva toda a nossa atenção”.
Alceu Amoroso Lima: "O tamanho representa um dos sinais
característicos de sua diferenciação. Podemos mesmo dizer que o elemento
quantitativo é o mais objetivo dos seus caracteres. O romance é uma
narrativa longa. A novela é uma narrativa média e o conto é uma narrativa
curta. O critério pode ser muito empírico, mas é muito verdadeiro. É o único
realmente positivo.”.
Deonísio da Silva: "Os homens têm sido contistas desde
priscas eras (...) Jesus foi um extraordinário contista, ainda que jamais
tenha escrito um único e escasso livro (...) Criativo, inovador, o famoso
nazareno inventou contos fascinantes. Basta dar uma olhadinha nas parábolas
(...) São contos, por exemplo, numerosas narrativas bíblicas (...) O
Pantschatantra, hindu, está cheio de contos. As mil e uma noites
são um verdadeiro panegírico do gênero. O Edda, escandinavo, é uma
reunião de contos. O Beowulf, teuto-bretão, também. As nossas lendas
indígenas são contos. As anedotas e piadas são contos. A prosa popular é,
pois, muito chegadinha a um conto”.
Ítalo Moriconi: "(...) a porosidade do gênero conto, a
capacidade que o conto tem de confluir e confundir-se com gêneros próximos,
como o poema em prosa, a crônica, a página de meditação, o perfil de uma
personagem, a página autobiográfica (...) Pelos critérios atuais, pode-se
dizer que um conto é uma narrativa de no máximo 20 a 25 páginas. A partir,
daí já começam a ser franqueadas as dimensões e o ritmo narrativo daquilo
que nossa tradição literária chama de novela ou noveleta.”.
[1] Gotlib, Nádia BattellaGotlib.
Teoria do Conto – Editora Ática – 95 págs. – 1998 Silva, Deonísio.
Os melhores contos de
Ignácio de Loyola Brandão – Editora Global – 192 págs. 2001
Pesquisa elaborada a partir de estudos do
livro “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século” – Diversos
Autores – Seleção: Ítalo Moriconi – editora Objetiva –618 págs. –
2000. |